Aldir Blanc: O homem que venceu o Tempo

“você saiu dando tchau / brincou que ao meu lado era o tal / fiquei pendurada no adeus, como um velho avental”.

Na manhã desta segunda-feira (4), ao sair para fazer uma caminhada, logo que pus os pés na calçada, começou a pipocar em meu celular a notícia trágica da morte de Aldir Blanc, gênio da música e da poesia e um dos meus ídolos desde muito jovem.

Aldir Blanc é uma das principais referências do que existe de mais elevado na cultura brasileira

Ao passar pelas pessoas na orla da Pituba, em Salvador, tinha vontade de romper a prudente distância que estes tempos nebulosos nos obrigam, parar qualquer transeunte ao meu lado, tirar minha máscara e falar olhando nos olhos da pessoa: “meu irmão, minha irmã, Aldir Blanc, morreu!!”.

Talvez, se fosse um bolsonarista – gente em geral de poucas luzes, zero discernimento, e nenhuma empatia, – ele, ou ela, não mostraria qualquer reação, ou até ficaria alegre, pois assim é o fascismo.

Mas se fosse uma pessoa minimamente atenta ao Brasil se comoveria certamente, ao saber que nós perdemos uma das principais referências do que existe de mais elevado na cultura brasileira.

Quando o camarada Inácio Carvalho, editor do Portal Vermelho, me contou, há dias, da dificuldade de Aldir Blanc em conseguir vaga em uma UTI, necessitando para isso da ajuda de amigos, o meu coração apertou, com pena do meu país, que hoje está tão distante, mas tão distante de um projeto de nação, que trata desta forma desleixada um poeta da grandeza de Aldir, enquanto exalta e promove todo tipo de lixo produzido por uma indústria multinacional de entretenimento, prostituída até a raiz dos cabelos, preocupada apenas com o que é palatável, primário, por vezes brilhante na forma mas vazio no conteúdo, quando não francamente obscurantista.

Já o Aldir foi um poeta como poucos. Suas letras têm lirismo profundo, ao mesmo tempo em que falam do “amor de trapaça e de tara, de beijo na nuca, de tapa na cara”, sempre dialogando com o cotidiano do povo brasileiro:

“Eu descobri que a alegria / de quem está apaixonado / é como a falsa euforia / de um gol anulado”

A impressão que temos é que Aldir Blanc compunha seus versos com o mesmo cuidado de um ourives.

“Glória aos piratas, às mulatas, às sereias / Glória à farofa, à cachaça, às baleias / Glórias a todas as lutas inglórias / Que através da nossa história / Não esquecemos jamais / Salve o Almirante Negro / Que tem por monumento / As pedras pisadas do cais”.

Estes são alguns dos versos de O Mestre Sala dos Mares, onde Aldir Blanc homenageia o líder da revolta da Chibata, João Cândido.

Em “Dois prá lá, dois pra cá” ele conta a história de um homem apaixonado por uma mulher que tenta ensiná-lo a dançar, murmurando em seu ouvido: são dois (passos) prá lá, dois pra cá. Mas o homem apaixonado estava nervoso:

“Meu coração traiçoeiro / Batia mais que o bongô / Tremia mais que as maracas / Descompassado de amor”

Aquela dança e aquele amor marcaram este homem para sempre:

“A tua mão no pescoço / As tuas costas macias / Por quanto tempo rondaram / As minhas noites vazias (…) Eu hoje, me embriagando / De uísque com guaraná / Ouvi tua voz murmurando / São dois pra lá / Dois pra cá”.

Aliás, se formos falar dos versos magistrais de Aldir, isto não seria um artigo, mas um muito longo ensaio. Na ocasião em que conversei com Inácio Carvalho, disse que Aldir merecia uma generosa pensão vitalícia do governo só por este verso:

“A lua, tal qual a dona do bordel / Pedia a cada estrela fria / Um brilho de aluguel”.

Pelo conjunto da obra então… Aldir, carioca e vascaíno apaixonado, cantou o Rio de Janeiro dos subúrbios e da boemia como poucos.

“Acendo um cigarro, molhado de chuva até os ossos / E alguém me pede fogo – é um dos nossos (…) / Eu tenho no bolso uma carta / Uma estúpida esponja de pó-de-arroz / E um retrato meu e dela / Que vale muito mais do que nós dois / Eu disse ao garçom que quero que ela morra / Olho as luas gêmeas dos faróis / E assobio, somos todos sós / Mas hoje eu estou de bem comigo / E isso é difícil”.

Nesta outra obra, ele fala de uma mulher que abandona o boêmio, de quem era amante, para um casamento feliz e estável. O boêmio a parabeniza, diz que ela terá “mais segurança e um pinguim na geladeira / Na cabeceira um relógio, a hora mais luminosa, / churrascaria aos domingos: dois bombons e uma rosa.” Mas também faz uma “necessária ressalva”:

“Não há xampu, não há creme / que apague ou que desmarque / da tua pele o meu beijo / fedendo a conhaque”.

Seus versos pelejaram contra a ditadura. Na famosa O Bêbado e a Equilibrista, ele cita as viúvas de dois assassinados pelos tiranos e logo depois, de forma magistral, naquele final de década de 1970, quando o movimento contra a ditadura começava a ganhar novo fôlego, mas ainda sobre a ameaça constante de retrocessos, a esperança de democracia era retratada como uma equilibrista que tinha que calcular cada movimento, sem jamais deixar de avançar:

“Chora / A nossa Pátria mãe gentil / Choram Marias e Clarisses /
No solo do Brasil / Mas sei que uma dor assim pungente / Não há de ser inutilmente / A esperança / Dança na corda bamba de sombrinha /
E em cada passo dessa linha / Pode se machucar / Azar! / A esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista / Tem que continuar”

Os versos do vascaíno Aldir Blanc ainda estarão voando reluzentes por aí, geração após geração

Aldir Blanc, através de sua arte, venceu o próprio Tempo em memorável duelo. Foi assim. Um certo dia, alguém bate à porta do poeta, que como bom poeta concluiu logicamente que só poderia ser o Tempo que veio lhe cobrar satisfação:

“Batidas na porta da frente / É o tempo / Eu bebo um pouquinho /
Pra ter argumento”.

Mas o Tempo não têm clemência com o velho boêmio e vence o primeiro assalto:

“Mas fico sem jeito / Calado, ele ri / Ele zomba / Do quanto eu chorei /
Porque sabe passar / E eu não sei”

Implicante, o tempo investe de novo contra o poeta tentando levá-lo à lona através do que seria a morte da poesia: a descrença no amor:

“Num dia azul de verão / Sinto o vento / Há folhas no meu coração /
É o tempo / Recordo um amor que perdi / Ele ri / Diz que somos iguais / Se eu notei / Pois não sabe ficar / E eu também não sei / E gira em volta de mim / Sussurra que apaga os caminhos / Que amores terminam no escuro / Sozinhos”

É a hora em que o lutador reage, e Aldir vence a luta por nocaute:

“Respondo que ele aprisiona / Eu liberto / Que ele adormece as paixões / Eu desperto / E o tempo se rói / Com inveja de mim / Me vigia querendo aprender / Como eu morro de amor / Pra tentar reviver”

Há alguns anos enviei a letra de Resposta ao Tempo ao jovem cineasta Gabriel Grego. Ele ficou tão tocado pelos versos de Aldir que, em parceria com Rodrigo Couto, fez o roteiro de um curta-metragem baseado na história. Em fevereiro deste ano nos encontramos em Vila Isabel e Gabriel me pediu para marcar uma conversa com o Aldir para eles apresentarem o roteiro. Como nunca falei com Aldir nem tinha seu contato, estava vendo com calma um conhecido que intermediasse este encontro. “Não tem pressa”, pensei, como se eu fosse Aldir Blanc e pudesse discutir com o tempo.

Gabriel e Rodrigo deram o nome de “Eterno”, ao possível curta. O nome é muito apropriado e talvez a esta altura do campeonato o maldito coronavírus SARS-CoV-2, causador da Covid-19, já deve ter percebido com quem foi mexer.

É certo que não ouviremos novas composições do mestre. É natural que sua família e amigos, como seu parceiro fundamental, João Bosco, estejam arrasados, como nós, seus fãs, estamos. Porém, quando o covid-19 for apenas uma página triste na história, que registrará os feitos macabros da doença mas também fará a crônica de sua derrota final, os versos do vascaíno Aldir Blanc ainda estarão voando reluzentes por aí, geração após geração, contando com poesia e talento a história da nossa gente, as dores e os prazeres de sermos brasileiros e humanos. E a tudo isso o Tempo assistindo, invejoso, a imortalidade do velho Aldir.

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