De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A cientista política Ana Prestes comenta os principais fatos da conjuntura internacional

O dólar desafiado. O final de semana foi de atenção aos golpes sofridos pelo dólar. Um primeiro incômodo revelado pelos EUA foi quanto às transações realizadas com pagamento em ouro entre Venezuela e Irã para compra pelos venezuelanos de suprimentos necessários na indústria do petróleo. O Elliott Abrams, designado pelo governo dos EUA para cuidar dos “assuntos da Venezuela” disse: “estamos vendo o Irã enviando cada vez mais aviões para a Venezuela, particularmente nesta semana. E acreditamos que eles são pagos com ouro, que os aviões vindos do Irão que estão trazendo coisas para a indústria do petróleo estão retornando com pagamentos por essas coisas: ouro”. Desde o dia 13 de abril, quando Maduro e Rohani se falaram, a cooperação entre a Venezuela e o Irã aumento bastante, irritando os americanos. Por outro lado, a China iniciou nos últimos dias testes com a sua moeda digital soberana, o e-RMB. Os testes foram realizados em Shenzhen, Suzhou, Chengdu e Xiong’na para pagamento de salários de funcionários do governo e pagamento de transporte público, além de comércio. Será a primeira moeda digital a ser operada por uma grande economia. A imprensa diz que empresas como McDonald’s e Starbucks concordaram em fazer parte dos testes.

E o final de semana foi de mais ataques dos EUA à China. Referindo-se ao acordo comercial com o país asiático, Trump disse: “assinamos um acordo comercial onde eles deveriam comprar, e eles estão comprando muito, na verdade. Mas isso agora se torna secundário ao que ocorreu com o vírus. A situação do vírus simplesmente não é aceitável.” Mike Pompeo, secretário de Estado, também falou e disse que os EUA possuem uma “quantidade enorme” de provas de que o surto teve origem em um laboratório em Wuhan e que os EUA farão “os responsáveis prestarem contas disso”. (Infos da FSP)

A Venezuela esteve no topo das notícias internacionais do final de semana por aqui no Brasil. De um lado, o governo brasileiro insiste na retirada dos diplomatas e funcionários consulares venezuelanos do território brasileiro. Por outro, o governo da Venezuela disse que não vai retirar seus funcionários, legítimos representantes de um país com o qual o Brasil possui relações diplomáticas. Legislativo e judiciário do Brasil entraram em ação. Parlamentar Paulo Pimenta do PT impetrou um pedido de habeas corpus, considerado procedente pelo STF (Barroso). A PGR também já havia se pronunciado em favor dos venezuelanos. Apesar de a Convenção de Viena garantir ao país hóspede definir quem é bemvindo ou não ao país, não há amparo no direito internacional para esse tipo de ação em meio a uma emergência sanitária como a pandemia do coronavírus. O governo brasileiro já retirou todos seus diplomatas e funcionários da Venezuela nos últimos meses de março e abril. A ação do governo brasileiro faz sentido quando se observam outras movimentações claramente dirigidas pelos EUA de invasão do território venezuelano, mais comumente via a Colômbia, governada por um grupo afinado com Trump. Neste final de semana houve uma tentativa de invasão na costa da Guaíra. Segundo o governo venezuelano, foram interceptadas lanchas rápidas com homens fortemente armados com fuzis e que tentavam entrar no país. No confronto houve oito mortos e dois detidos. Um dos detidos foi identificado como agente da DEA (departamento anti-narcóticos dos EUA).

O jornal argentino Página 12 fez um estudo comparativo do desenvolvimento da epidemia por coronavírus na Argentina e no Brasil. A data de partida do estudo é o dia 17 de março quando os dois países tinham dois falecidos por coronavírus cada. A data final do estudo foi o dia 30 de abril, da semana passada. São, portanto 44 dias. Nesse período, o Brasil passou a ter 5901 falecidos por coronavírus registrados e a Argentina 218 falecidos. O jornal alerta que, se nada mudar, pelo estudo, o Brasil pode chegar a 28.600 mortos no dia 19 de maio e a Argentina, também se nada mudar, pode chegar a 532. O estudo foi feito em colaboração com pesquisadores da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires. O que se descobriu é que a Argentina tomou medidas antes do Brasil, inclusive com a proibição de voos de países que estavam com altos índices de contagiados, suspendeu eventos públicos, jogos de futebol passaram a ser sem público, suspensão das aulas, tudo isso antes de decretar quarentena que entrou em vigor no dia 20 de março para todo o país. Enquanto no Brasil, segundo o jornal, preponderou o “doble discurso”, ou discurso dúbio. De um lado Bolsonaro, minimizando a crise e do outro governadores tomando medidas mais duras. O jornal cita ainda a queda de dois ministros, manifestações contra o isolamento e a comparação da quarentena com campos de concentração do holocausto para descrever o ambiente do governo brasileiro durante a evolução da pandemia. No dia 7 de abril, a Argentina acumulava 56 falecidos e o Brasil 636. Atualmente, a Argentina duplica os falecimentos a cada 15,4 dias e o Brasil a cada 7/8 dias.

O Movimento de Países Não Alinhados (MNOAL) realiza hoje (4) uma conferência virtual “Unidos contra a Covid19” presidida por Ilham Alyev (Azerbaijão). O Azerbaijão preside o grupo até 2022. Participa do encontro o secretário geral da ONU, Antônio Guterres e demais lideranças do sistema ONU, como o diretor geral da OMS, Tedros Adhanom. O propósito da cúpula é fortalecer a solidariedade mundial em tempos de pandemia e mobilizar os Estados e as organizações internacionais na luta contra o avanço do vírus. Atualmente a MNOAL está composta por 120 países membros e 27 observadores (17 Estados e 10 organizações), representa mais de dois terços da ONU e ao redor de 55% da população mundial.

O diretor geral da OMS, Tedros Adhanom, fez um pronunciamento no dia 30 de abril, data que fechou um ciclo de três meses desde aquele 30 de janeiro quando a organização declarou que a Covid19 era uma doença provocada por um novo coronavírus e que vinha provocando uma emergência em saúde pública global. Segundo Tedros, nesses três meses, a OMS enviou milhões de kits de testes e toneladas de equipamentos de proteção para vários países, capacitou mais de 2,3 milhões de profissionais, fez parceria com empresas de tecnologia para combater as fakenews. Três meses depois do começo de uma crise limitada à China, já são 3 milhões de infectados e mais 200 mil mortos. Na coletiva dos três meses, se falou também sobre as acusações de que a China teria “fabricado” um vírus. O secretário da OMS Mike Ryan disse que escutou sistematicamente muitos cientistas que examinaram as sequencias genéticas do Sars-cov-2 e que o “vírus é de origem natural”.

Por falar em OMS, uma grande preocupação aumenta a cada dia com o espalhamento do vírus em especial na África subsaariana. Nesta região do mundo, para cada 10 milhões de habitantes há apenas 10 leitos. Há ainda escassez de profissionais de saúde, de testes, além da pobreza e os inúmeros conflitos em curso, inclusive com deslocamento de refugiados. Na África, doenças como a malária, a AIDS, a tuberculose e o ebola seguem sobrecarregando os precários sistemas de saúde. Não são doenças controladas como em outras partes do globo.

Falei tanto da Itália aqui nestas notas no auge da pandemia por lá, que vale a pena registrar a queda no número de óbitos por lá. O último registro diário foi de 174 falecimentos, o menor número desde o início do isolamento no país. O número de casos novos também caiu para a casa dos 1300 diários. O país segue como o terceiro no ranking internacional, atrás dos EUA e da Espanha. Na Espanha, o último sábado foi a primeira vez em que muitas pessoas puderam sair para dar um passeio ou praticar esporte após 48 dias de rigoroso confinamento.

No Chile, 15 jornalistas foram presos quando em atividade cobrindo a manifestação do 1º. de maio, inclusive um jornalista da TV pública. Ao total foram presas 57 pessoas. Os jornalistas cobriam uma manifestação de cerca de 200 pessoas na Plaza Italia. Apesar das pessoas estarem de máscaras e terem estabelecido uma distância entre elas, os protestos não estavam autorizados por conta do decreto sanitário quanto à pandemia do coronavírus, mas a truculência policial dos carabineros foi absurda. A presidente da CUT chilena, Bárbara Figueroa, havia anunciado aos meios de comunicação e ao governo que fariam um ato de 15 minutos e com distância entre as pessoas presentes para marcar o primeiro de maio dos trabalhadores.

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