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De Olho no Mundo, por Ana Prestes

Um panorama dos principais fatos da conjuntura internacional e a análise da cientista política Ana Prestes.

Para o presidente argentino, Alberto Fernandéz, "não parece que o governo brasileiro esteja levando a pandemia a sério l Foto: Reprodução/Facebook.

Autoridades paraguaias e argentinas estão cada vez mais preocupadas com o aumento de casos de coronavírus no Brasil. Em matéria da FSP são citadas aspas do diretor de vigilância da saúde do Paraguai, Guillermo Sequera, ao dizer que “se o Brasil espirra, nós pegamos pneumonia”. Dos novos casos registrados no Paraguai, cerca de 90% são de pessoas provenientes do Brasil. A fronteira de veículos com o Brasil está fechada desde 10 de março, mas há muitos pontos de passagem a pé. Na Argentina, a preocupação é com os caminhoneiros que vem de São Paulo, principalmente. Alberto Fernández disse nos últimos dias: “não parece que o governo brasileiro esteja levando a pandemia a sério. Isso me preocupa por causa do povo brasileiro e porque o vírus pode ser carregado para dentro da Argentina”. No mês passado, em abril, o embaixador do Brasil na Argentina, Sergio Danese, havia escrito um texto para o jornal La Nacion, dizendo que o simples fato dos países serem vizinhos não indicava que haveria aumento das infecções na Argentina caso o Brasil subisse muito a curva de casos. Ele deu exemplos de Portugal, vizinho da Espanha ou do Canadá, vizinho dos EUA. Ocorre que tanto Portugal como o Canadá tomaram medidas bastante duras com relação ao vírus. O que definitivamente não é o caso do Brasil.

Por falar em Portugal, ao ser perguntada se era a favor de banir a chegada de brasileiros em Portugal, a ministra da Saúde, Marta Temido, respondeu: “não, o Brasil é, para os portugueses, um país irmão. Mesmo no nosso pior cenário, sempre mantivemos voos regulares para o Brasil. Muitos portugueses têm família no Brasil. Eu própria tenho família no Brasil. Isso é impensável num contexto como aquele que nós temos em termos de relação entre os nossos países. Desejamos, sobretudo, que a situação no Brasil seja controlada o mais depressa possível, sabendo que é uma situação complicada. Desejamos a maior sorte ao povo do Brasil e aos que trabalham no SUS na luta contra esta pandemia, porque é possível vencê-la” (Entrevista ao O Globo).

Após a decisão da Argentina de deixar as negociações de acordos do Mercosul, o governo brasileiro quer sugerir mudanças nas regras de funcionamento do bloco. Brasil quer seguir as tratativas sem o vizinho. Da forma em que o bloco funciona hoje, acordos só podem ser fechados com o aval consensual de todos os membros. O Brasil de Bolsonaro não está preocupado com o afastamento da Argentina, até acha bom. Na verdade, houve comemoração por parte da diplomacia bolsonariana por ver caminho livre para reconfigurar o bloco. O principal “entrave” a ser vencido pelo Brasil com Paraguai e Uruguai, se estes concordarem, é uma resolução de 2000 em que há um compromisso dos membros de só negociar acordos de natureza comercial e tarifária de forma conjunta. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás de China e EUA, e o mais próximo geograficamente.

Com o avanço da pandemia do coronavirus e a proximidade das eleições nos EUA, as câmaras de comercio dos dois países dão sinais de desespero para fechar algum acordo bilateral. A proximidade entre Trump e Bolsonaro é uma oportunidade que não poderia passar em branco para muitos deles. Vai que Trump não é reeleito e Bolsonaro sofre impedimento? Nada disso está fora do cenário hoje. Está em curso uma negociação no âmbito da ATEC – Comissão de Relações Econômicas e Comerciais Brasil – EUA, com o objetivo de criar regras comerciais para facilitação do comércio e transparência nas práticas regulatórias. Resta saber se o país do America First vai facilitar pra valer a entrada de produtos agrícolas brasileiros.

O Embaixador da China no Brasil, Yan Wanming, deu uma longa entrevista à Folha de São Paulo. O tom da entrevista foi: “apesar de alguns ruídos surgidos recentemente (com o governo Bolsonaro), o que conhecemos mais são histórias comoventes de solidariedade e de ajuda mútua entre os dois povos”. Ainda segundo ele, a epidemia do novo coronavírus está “praticamente sob controle em todo o território” chinês. A China está também disposta a compartilhar práticas de prevenção e controle com o Brasil e os demais países do mundo, mas lembrando que a estrutura demográfica, condições climáticas e hábitos de cada país são únicos e podem dar rumos diferentes à doença, disse o embaixador. Link da entrevista:

Médicos franceses, de um hospital de Paris (Groupe Hospitalier Paris Seine), afirmam que encontraram evidencias de que um de seus pacientes de dezembro de 2019 estava infectado pelo novo coronavírus. A afirmação está em um artigo publicado na revista científica Journal of Antimicrobial Agents e lá está escrito: “Covid-19 já estava se espalhando na França em dezembro de 2019, um mês antes dos primeiros casos oficiais do país”. O primeiro caso oficial de um infectado na França é do dia 24 de janeiro, de uma pessoa que havia estado em Wuhan na China. Os pesquisadores investigaram o histórico de pacientes que deram entrada no hospital com sintomas de gripe entre 2 de dezembro e 16 de janeiro. O homem identificado com covid19 não havia estado na China, aliás, sua última viagem havia sido para a Argélia em agosto de 2019. Seus filhos também estiveram doentes. Outros países, como os EUA, estão investigando seus pacientes dos meses anteriores ao início da pandemia.

O NYT traz a notícia de que um relatório interno do governo norte-americano aponta para o aumento do número de casos de infectados pelo novo coronavírus e que as mortes podem chegar a 3000 por dia em 1º. de junho, um aumento de 70% em relação a hoje. O país pode chegar a registrar 200 mil novos casos por dia, segundo o relatório. Uma projeção contida no relatório, da Universidade de Washington estima que o país terá cerca de 135 mil mortos no começo de agosto, mais que o dobro do que havia sido estimado em 17 de abril, quando se previa 60 mil mortes para o início de agosto (hoje o país já tem quase 70 mil). O relatório coloca uma enorme pressão sobre Trump e seu desejo de continuar afrouxando as medidas de isolamento social e permitindo a reabertura da economia em diversos estados. Sobre quase metade dos estados americanos estarem reabrindo e saindo do isolamento, um especialista da Johns Hopkins University, Dr. Larry Chang, disse sobre o risco desta medida: “a grande maioria dos americanos ainda não foram expostos ao vírus, não há imunidade, e as condições iniciais que permitiram o espalhamento do vírus muito rapidamente através da América não foram alteradas”.

Um estudo elaborado pela Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, e outra de Bocconi, na Itália, analisou o impacto da subestimação da pandemia no Brasil em 255 municípios brasileiros. O estudo focou no impacto das manifestações pelo país e as declarações de Bolsonaro do dia 15 de março em frente ao Palácio do Planalto. O estudo usou dados de cidades que tinham pelo menos um caso de infectado por coronavírus no período entre 8 e 26 de março e levou em conta o percentual de votos pró-Bolsonaro no primeiro e segundo turno das eleições de 2018. Nas cidades em que houve atos no dia 15 e já contavam com popularidade alta do presidente a taxa de contágio pelo novo coronavírus foi 43,3% maior do que nas demais, indicando que as pessoas podem ter deixado de seguir ou nem ter adotado medidas de distanciamento social após 15 de março. Segundo uma das pesquisadoras, Paula Retti: “nós fizemos um cálculo em que consideramos as diferenças do PIB per capita e da população, que  são variáveis que achamos que explicam a capacidade de testagem dos municípios e a velocidade com que o vírus se difundiria na ausência da influência do Bolsonaro. E vimos que a sua influência foi determinante no ritmo da taxa de contágio nos municípios que o apoiaram, mostrando que a maioria dos moradores desses locais acabaram seguindo as orientações do presidente”.

Para não ficarmos apenas nas notícias ruins sobre o coronavírus, pesquisadores da Universidade de Utrecht, da Holanda, publicaram na revista especializada Nature Communications, que descobriram um anticorpo capaz de neutralizar e impedir a infecção das células pelo novo coronavírus, causador da covid19. O anticorpo se chama 47D11 e nos testes realizados in vitro demonstrou bloquear a infecção do vírus em células humanas. O estudo se soma a cerca de 100 vacinas em estudo e 200 medicamentos também em estudo para que a humanidade possa vencer a Covid19.

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