Movimentos sociais terão capítulo de honra na história de 2020

Organizações da sociedade civil emergiram em diagnóstico, formulação, mobilização

Quando a História deste terrível 2020 for contada, o movimento social terá capítulo de honra. Criminalizadas, desprezadas, desqualificadas, apartadas do debate oficial sobre políticas públicas, foram as organizações da sociedade civil que, desde a primeira hora do primeiro dia da crise, emergiram em diagnóstico, formulação, mobilização e distribuição de ajuda a pessoas, famílias e territórios lançados subitamente na vulnerabilidade.

ONGs estruturadas e grupos recém-formados exibem musculatura tão surpreendente quanto bem-vinda em ações, quase sempre sem colaboração do poder público, para reduzir os danos de uma crise que espalha doença, mortes, desemprego e miséria. É a materialização do “nós por nós”, lema de um povo que, historicamente excluído, sempre contou consigo mesmo.

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS), em março, atrelou o combate ao coronavírus a hábitos rigorosos de higiene, via água corrente, sabão e álcool gel, midiativistas de favelas e periferias começaram a filmar torneiras secas Brasil afora para denunciar a precariedade da distribuição.

No país todo, informou o IBGE anteontem, um em cada dez domicílios (11,5%) não tem abastecimento diário de água; no Acre, o fornecimento precário alcança dois terços (63,5%) dos lares. No Estado do Rio, a proporção é de 10,7%. A mobilização da sociedade civil arrancou da Cedae, distribuidora fluminense, o compromisso de reforçar com caminhões pipa a oferta de água nas comunidades.

Faz quase dois meses que a mobilização de ONGs e ativistas começou. E não há sinais de que vá parar. Quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, se rendeu à necessidade de instituir o Auxílio Emergencial – inicialmente de R$ 200 e elevado a R$ 600 após pressão da Câmara dos Deputados –, um conjunto de organizações do Complexo do Alemão já tinha formado um Gabinete de Crise para mitigar os efeitos sanitários, econômicos e sociais da pandemia de Covid-19. Até o fim de abril, beneficiaram quase 18 mil pessoas com a distribuição de 3.050 cestas de alimentos e itens de higiene, 3.194 galões de seis litros de água, 177 caixas de sabão em barra, 400 sachês de leite em pó, 150 garrafas de álcool gel.

Na Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira usou sua rede de relacionamento pessoal para arrecadar recursos e comprar cestas básicas em pontos de venda da própria comunidade, para manter viva a atividade econômica. Ação espontânea de desenvolvimento local.

A Central Única de Favelas (Cufa), com representações em todos os estados, suspendeu projetos e mobilizou equipes e parceiros para aplacar os colaterais da pandemia. Ciente do impacto do isolamento social num mercado de trabalho tomado pela informalidade e pela precarização, montou plano que já distribuiu cestas básicas para aplacar a fome de 477 mil famílias de cinco mil favelas. Para mães chefes de família, estruturou uma ação de transferência de renda que entregou 38.800 vales de R$ 120 a quase 20 mil famílias.

Filhos de empregadas domésticas criaram site e perfil no Instagram para postar relatos e reivindicar a dispensa de mensalistas e diaristas do trabalho, mantida a remuneração. A ação se chama Pela Vida de Nossas Mães, mulheres que compõem uma categoria profissional formada por mais de seis milhões de brasileiros, dos quais 385 mil ficaram sem ocupação em decorrência da crise.

A Redes da Maré entregou em um mês 328 toneladas de produtos. Foram mais de sete mil cestas básicas, 4.600 quentinhas a frequentadores de cenas de consumo de crack da região e 4.800 coelhos de chocolate em ação de Páscoa. Em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense que é o segundo do estado com maior número de casos confirmados (567) e mortes (93) pela Covid-19 – só perde para a capital, com 9.051 e 919, respectivamente –, o Movimenta Caxias distribuiu até aqui 8.722 cestas básicas, 8.212 kits de limpeza, oito mil máscaras de pano e 2.067 garrafas de água.

As iniciativas foram viabilizadas por doações de parceiros do setor privado, fundações e pessoas físicas, com pouca ou nenhuma participação do Estado. Estão fazendo muito, mas sabem que não têm condições de assumir atribuições constitucionais da União, dos governos estaduais e das prefeituras. “Novamente, as organizações da sociedade civil responderam primeiro e prontamente às urgências impostas por esta crise sanitária. Isso se deve a vários fatores. Primeiro, estão no olho do furacão, o que facilita e agiliza diagnósticos e respostas. São parte de movimentos maiores e, por isso, capazes de articular outras organizações. Por fim, não abrem mão do aspecto ético do respeito e valorização de cada um. Ou seja, não excluem”, analisa Jurema Werneck, médica com décadas de atuação no movimento social, hoje diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil.

A Covid-19 não inaugurou as mazelas brasileiras, mas escancarou-as com a eclosão simultânea de diferentes dimensões da vulnerabilidade nacional, da habitação precária à falta de saneamento, da fragilidade do mercado de trabalho à iminência da insegurança alimentar. Da crise emergiu um setor público despreparado, indiferente ou perplexo, vacilante nas respostas. E, felizmente, uma sociedade civil combativa e capaz. Que assim seja.

Publicado originalmente no O Globo

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