O que os manifestantes da “reabertura” realmente estão dizendo?

Os protestos “anti-lockdown” e #Reopen nos EUA têm apoiadores poderosos e secretos, mas há americanos de verdade nas ruas expressando suas opiniões.

Fora do Capitólio do Missouri, em 21 de abril, alguns manifestantes usavam máscaras - embora outros não.

A partir de uma pesquisa etnográfica, em que a professora Diana Daly apenas observa as manifestações contra a quarentena nos EUA, e pontua elementos que descrevem esses grupos e suas demandas num momento em que parecia inadmissível alguém protestar contra o isolamento social, ela procurou abrir leitura para algumas conclusões.

O discurso dos manifestantes é marcado pela valorização do trabalho e da liberdade de uma forma particular, já que Trump não é questionado quando faz asserções autoritárias, mas os governadores democratas, sim. A pobreza é subalterna, assim como empregados, já que muitos manifestantes falam de seu empreendimento e a “preocupação” com os empregados em dificuldade.

A maioria absoluta dos manifestantes, segundo ela, são brancos e não fazem referência ao impacto da doença na comunidade negra, nem na sua falta de acesso ao sistema de saúde. São particularmente agressivos com autoridades femininas e demonstram xenofobia. As contradições também emergem no modo como se cuidam da ameaça do vírus, ao mesmo tempo que exigem a volta ao trabalho.

Os desafios à autoridade científica aparecem, mas de forma marginal, segundo ela. Existe a opção por um discurso religioso contra o científico, mas o questionamento das evidências científicas sobre a epidemia são mais frequentes. Por fim, ela observa a fragilidade do movimento, em que as lideranças mais assertivas são conspiracionistas conhecidos e pouco relevados.

Leia a íntegra do texto de Diana Daly, traduzido para o Vermelho por Cezar Xavier:

Como etnógrafa – alguém que estuda participação cultural – estou interessada em quem são esses americanos e por que estão chateados.

Passei a última semana no que você poderia chamar de uma viagem on-line, estudando 30 postagens de imagens de protesto de eventos em 15 cidades. Encontrei alguns temas compartilhados, que não se encaixam bem nas narrativas populares sobre esses protestos.

Os manifestantes se opõem a subvenções, mas querem trabalho.

1. A pobreza é tabu, mas o trabalho é “essencial”

Apesar do preço econômico que os bloqueios estão causando aos pobres da América, nenhum manifestante mostra sua própria pobreza, como postar placas pedindo ajuda.

Em vez disso, eles exibiam cartazes com linguagem mais geral, como “Pobreza mata”, ou expressavam preocupações como o dono de restaurante em Phoenix, Arizona, que disse a um cinegrafista que estava preocupado com seus 121 funcionários “sofridos e devastados”.

Suas mensagens deixaram claro que eles não queriam pedir uma subvenção ou caridade – mas estavam pedindo permissão para trabalhar. Manifestantes em muitos estados afirmaram que seu trabalho – ou mesmo todo o trabalho – era “essencial”.

Em um vídeo de um protesto da “Operação Engarrafamento” em Lansing, Michigan, onde os ativistas planejavam bloquear o tráfego, um manifestante filmou pela janela do carro quando passou por uma placa dizendo “Dê me trabalho, não dinheiro”. O próprio manifestante gritou em aprovação: “Não me dê dinheiro, dê trabalho, eu ouvi isso!”

Um jovem de um evento de Olympia, Washington, descreveu o trabalho como uma fonte não apenas de dinheiro, mas de identidade: “Quero voltar ao trabalho! Esse orgulho que você sente todos os dias quando volta para casa do trabalho? Isso não é algo que possa ser tomado da gente.”

As placas de protesto em Denver, Colorado, incluíam a queixa “Quero minha carreira de volta” e o empreendedor “Cães precisam de tutores” (ou empregos precisam de trabalhadores).

2. A ameaça do vírus é grave

Apesar das notícias alarmantes de que os manifestantes estavam ignorando o distanciamento social, muitos dos manifestantes observaram as diretrizes de segurança. As fotos mostram pelo menos algumas pessoas usando máscaras. Um vídeo do TikTok recrutando participantes para a Operação Engarrafamento do Michigan incentivou os manifestantes a estarem seguros; imagens de drones mostram que a maioria dos participantes da capital do estado ficava em seus carros, longe de outras pessoas.

As faixas dos manifestantes não menosprezaram a ameaça do vírus, mas compararam-no com possíveis danos causados pelo bloqueio. Por exemplo, uma placa em Denver era intitulada “Negociando vidas” e apresentava uma escala com mortes por vírus de um lado, com desemprego, suicídio e falta de moradia do outro.

Os manifestantes nos carros geralmente observam as diretrizes de distanciamento social.

3. Cartazes anticiência estão à margem

Houve manifestantes em vários comícios que usavam camisetas antivacinação e seguravam cartazes sugerindo que não confiam em especialistas em saúde pública e cientistas.

Mas apenas um protesto foi dominado por esse tema. Naquele dia, em 18 de abril, em Austin, Texas, centenas de participantes cantaram “Demita Fauci!” referindo-se ao Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, que tem sido um rosto público frequente dos esforços do governo federal para combater o vírus. Essa também foi a manifestação em que o apresentador de rádio de direita Alex Jones, que dirige um site sobre teoria da conspiração, dirigia em um caminhão, incitando os cânticos dos participantes através de um megafone.

Nos outros eventos, parecia que os manifestantes esperavam um número maior de infecções do que realmente aconteceram. Em vez de ver isso como evidência do sucesso do distanciamento social, eles pareciam interpretar isso como dizendo que a ciência não era mais válida. “Os modelos estavam errados” estava escrito em mais de um cartaz, sugerindo que os manifestantes prestaram atenção nos modelos científicos a princípio, mas passaram a acreditar que a gravidade da doença havia sido exagerada.

Os idahoanos se reúnem para combater os efeitos do surto de maneiras que lidaram com problemas mais familiares.

4. As pessoas querem combater o vírus de maneiras familiares

Mesmo quando os manifestantes reconheceram a ameaça do vírus, poucos deles estavam pedindo especialistas médicos para fornecer a solução. Não vi nenhum dos manifestantes pedindo testes mais difundidos, por exemplo.

Quando eles expressaram preocupação, sinais de protesto uniram-se a um desejo de combater o contágio. Em Boise, Idaho, uma placa dizia “Liberdade sobre o medo”. Em Denver, alguém disse: “Não deixe sua máscara ser seu focinho”.

No entanto, os manifestantes queriam combater o vírus de maneiras mais familiares e, talvez, mais fortalecedoras: em Harrisburg, Pensilvânia, um caminhão verde gigante com “Jesus é minha vacina” rabiscou do lado.

Alguns manifestantes exigiram que os governos permitissem que as pessoas tomassem suas próprias decisões e até exibissem o slogan pró-escolha “Meu Corpo, Minha Escolha”. Outros apareceram com armas. Um homem em Frankfort, Kentucky, tocou um shofar, um instrumento religioso judaico feito com o chifre de um carneiro tocado no início de uma batalha.

Manifestantes armados estavam no meio da multidão em Michigan em 30 de abril. Jeff Kowalsky / AFP via Getty Images

5. ‘Tirania’ depende de quem governa, não como

Em muitos eventos em diferentes estados, os manifestantes se opuseram ao que eles chamavam de “tirania” e exibiram a bandeira de Gadsden da era da Revolução “Não pise em mim” para simbolizar sua resistência às regras do governo. Eles não se opuseram à declaração do presidente Donald Trump de 13 de abril de que, como presidente, sua “autoridade é total” sobre o país.

Em vez disso, eles se opunham às regras de bloqueio dos governadores, que eles destacaram como exagerando seu poder. Muitos manifestantes compararam o comportamento do governo aos nazistas, com os manifestantes adicionando “Heil” aos nomes dos governadores democratas.

Nenhum governador do sexo masculino foi alvejado tão cruel e abertamente quanto a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer. Um pôster amplamente divulgado a mostrava vestida como Adolf Hitler, fazendo uma saudação nazista ao lado de uma suástica. Outros manifestantes falaram sobre Whitmer como se ela estivesse sendo mãe deles, em vez de governá-los, como alguém que insistia: “Nós não somos filhos dela!”

Os manifestantes de Michigan falam sobre suas preocupações.

6. Raça é um fator

Um tema claramente visível nos protestos #Reopen é como os participantes são brancos – mas não apenas em termos de raça. A compaixão deles também parecia limitada a outros brancos. Nada que eu vi estava chamando a atenção para o fato de que o coronavírus não atinge igualmente todas as populações: negros e outras minorias raciais tinham menos acesso a cuidados de saúde de alta qualidade antes do surto e, como resultado, são menos saudáveis e menos capazes de combater o vírus quando ele ataca.

Também havia racismo manifesto em relação aos chineses, ecoando as palavras do presidente e de outros líderes políticos, como na placa de Jefferson City, Missouri, que dizia “A tirania está se espalhando mais rápido que o vírus da China”.

7. Dividido e distanciado, é um movimento?

A maioria dos manifestantes não se referiu a esses protestos como um movimento. Encontrei apenas um vídeo oferecendo uma visão de que eles poderiam formar um. Na transmissão ao vivo da Operação Engarrafamento, a certa altura o cinegrafista gritou: “mérica!”

Então, seu companheiro invisível respondeu em tom meditativo sobre o potencial que ele via naquela estrada: “Juntos somos fortes, divididos, somos fracos. Esse é o maior medo do sistema, que as pessoas se reúnam e não se dividam. … Isso é o que eles mais temem. Porque nós temos o poder.” Não ficou claro se aquelas pessoas com poder incluíam um número muito maior de pessoas nos Estados Unidos que estavam abrigadas no local.

Diana Daly é Professora Assistente de Informação da Universidade do Arizona

Publicado em The Conversation

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