“Renunciam” assessores de Guaidó que pagaram por invasão a Venezuela

Rendón, foragido da Justiça venezuelana que vive em Miami, chegou a admitir que pagou do próprio bolso para a SilvercorpUSA realizar a operação. Grupo de Puebla critica tentativa terrorista.

Equipamento usado por integrantes do grupo que tentou invadir território venezuelano

Juan José Rendón, nomeado estrategista político de Juan Guaidó, e o deputado Sergio Vergara, renunciaram nesta segunda-feira (11) aos cargos no governo fictício do presidente autoproclamado da Venezuela.

Ambos, ao lado de Guaidó, foram responsáveis por contratar a empresa de segurança privada dos EUA SilvercorpUSA para invadir o país, sequestrar o presidente Nicolás Maduro e derrubar o governo venezuelano. A operação, que começou no dia 3 de maio, foi interceptada pelas autoridades venezuelanas e 31 pessoas envolvidas foram presas.

A renúncia de Rendón e Vergara foi confirmada pelo site oficial da Assembleia Nacional venezuelana, controlado pelo setor da oposição liderada por Guaidó. “O presidente Juan Guaidó aceitou a renúncia dos funcionários e agradeceu sua dedicação e compromisso com a Venezuela”, diz a nota.

Rendón, foragido da Justiça venezuelana que vive em Miami, chegou a admitir que pagou do próprio bolso para a SilvercorpUSA realizar a operação que tinha como objetivo derrubar Maduro e levar Guaidó ao poder.

Contrato assinado por Rendón, Guaidó e Goudreau (Prensa Presidencial) 

Em uma cópia do contrato divulgado pelo governo venezuelano é possível confirmar as assinaturas de Guaidó, Rendón e Vergara junto com a do diretor da empresa norte-americana, Jordan Goudreau. O governo da Venezuela preparou uma tradução para o espanhol da íntegra do documento, que circula entre autoridades e funcionários do Estado venezuelano. 

Partes dos anexos do contrato revelado por Caracas expressam o valor a ser pago pela operação, os “alvos” estabelecidos e até a criação de grupos armados “para conter a reação” no caso de um governo presidido por Guaidó.

O acordo ainda abre a possibilidade para “investidores privados” com a garantia de “preferências de investimento” durante o suposto governo de Guaidó. “O Provedor de Serviços irá assegurar uma linha de crédito para investidores privados financiarem o projeto. Após a conclusão do projeto, esses investidores terão um status preferencial com o novo governo da Venezuela”, diz o texto.

Até o momento, foram capturadas 31 pessoas envolvidas na tentativa de invasão

Grupo de Puebla

O Grupo de Puebla, organização formada por 30 líderes progressistas de 12 países da América Latina, rechaçou a tentativa de invasão frustrada na Venezuela, afirmando que a operação faz parte do plano dos Estados Unidos para “aumentar a pressão sobre o governo venezuelano, para provocar uma mudança de regime pela força”.

“Em nossa opinião, essa tentativa não é um evento isolado. Faz parte de ações e medidas, que teriam sido coordenadas pelo Departamento de Estado dos EUA, que buscam aumentar a pressão sobre o governo venezuelano, para provocar uma mudança de regime pela força, contrariamente à ordem constitucional daquele país e à ordem jurídica internacional”, afirma a organização em nota publicada na noite deste domingo (10).

O grupo ainda disse ser “inaceitável” que a região da América Latina continue sendo “objeto de ações ilegais, violentas e clandestinas”, que tentam promover “mudanças no regime político de algum país”.

“Essa tentativa de invasão por um grupo paramilitar, contratado, segundo versões da imprensa, por um assessor político de Juan Guaidó (como já foi revelado), tinha os objetivos declarados de praticar atos terroristas no país, sequestrando o presidente Nicolás Maduro e assassinando líderes do governo venezuelano, aumentam a violência e geram caos e confusão entre a população, para facilitar uma nova tentativa de golpe”, diz.

O Grupo de Puebla também destaca que a operação lembrou a invasão, também sem sucesso, da Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961 e fez um apelo à comunidade internacional para se posicionarem contra as agressões. 

“O Grupo Puebla apela a todas as forças democráticas da região para que se comprometam a apoiar o diálogo democrático e a solução pacífica do conflito na Venezuela, a única maneira viável de resolver os problemas políticos e econômicos que afetam esse país”, afirma o texto.

O fórum e plataforma política que reúne lideranças da América Latina como o presidente da Argentina, Alberto Fernández, os ex-presidentes brasileiros Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, e o ex-presidente do Equador Rafael Correa, também demonstra seu apoio à população do país, sobretudo no contexto da pandemia global causada pelo novo coronavírus, que também afeta a população venezuelana. O grupo também condena o bloqueio dos Estados Unidos ao país.

“A continuação do bloqueio comercial e econômico que os Estados Unidos estão promovendo contra a Venezuela, por exemplo, tem causado um sofrimento indescritível para o povo venezuelano, ao impedir a compra de alimentos, medicamentos e equipamentos médicos essenciais para a pandemia”.

Leia nota na íntegra: 

O Grupo Puebla rejeita as ações militares clandestinas em andamento para desestabilizar o governo Nicolás Maduro, especialmente a tentativa de invasão que ocorreu nas primeiras horas de 3 de maio, e expressa sua solidariedade ao povo da Venezuela.

Essa tentativa de invasão por um grupo paramilitar, contratada, segundo versões da imprensa, por um assessor político de Juan Guaidó (como já foi revelado), tinha os objetivos declarados de praticar atos terroristas no país, sequestrando o presidente Nicolás Maduro e assassinando líderes do governo venezuelano, aumentam a violência e geram caos e confusão entre a população, para facilitar uma nova tentativa de golpe.

Lamentavelmente, o episódio recorda a tentativa, também sem sucesso, da invasão de Cuba na Baía dos Porcos em 1961, como a própria mídia norte-americana recordou.

É absolutamente inaceitável que, no século XXI, a América Latina continue sendo objeto de ações ilegais, violentas e clandestinas, com o objetivo de promover mudanças no regime político de algum país.

Também é inaceitável que, em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos, que trouxe uma grave crise econômica e de saúde ao mundo e à América Latina, a prioridade de certos governos e forças políticas seja promover ações violentas para desestabilizar um governo, neste caso, o da Venezuela.

Esta é uma ação que rompe não apenas com a ordem constitucional da República Bolivariana da Venezuela, mas também com os princípios que regem o direito internacional público e as relações entre os países. Recordamos a esse respeito que, à luz da ordem jurídica internacional, sanções econômicas e ações militares contra qualquer país devem ser devidamente aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em nossa opinião, essa tentativa não é um evento isolado. Faz parte de ações e medidas, que teriam sido coordenadas pelo Departamento de Estado dos EUA, que buscam aumentar a pressão sobre o governo venezuelano, para provocar uma mudança de regime pela força, contrariamente à ordem constitucional daquele país e à ordem jurídica internacional.

A continuação do bloqueio comercial e econômico que os Estados Unidos estão promovendo contra a Venezuela, por exemplo, tem causado sofrimento indescritível ao povo venezuelano, ao evitar a compra de alimentos, medicamentos e equipamentos médicos essenciais para combater a pandemia.

O Grupo Puebla apela a todas as forças democráticas da região para que se comprometam a apoiar o diálogo democrático e a solução pacífica do conflito na Venezuela, a única maneira viável de resolver os problemas políticos e econômicos que afetam esse país.

Além disso, exigimos o levantamento imediato do bloqueio econômico, comercial e político que os Estados Unidos estão promovendo contra a Venezuela, para aliviar o sofrimento do povo venezuelano e permitir que combatamos melhor os efeitos econômicos e de saúde da pandemia.

Instamos todos a condenar e repudiar qualquer ação militar contra a Venezuela, que traria instabilidade geopolítica a toda a América Latina e abriria um precedente extremamente perigoso para as democracias da região.

Também condenamos ações incompatíveis com o direito internacional e o direito humanitário, como a decisão do governo brasileiro de expulsar, em meio a uma pandemia, diplomatas venezuelanos e suas famílias em um prazo extremamente curto.

Entendemos que essas medidas arbitrárias e sem fundamentos legais são colocadas no contexto de intimidação a que o governo venezuelano está submetido.

Por fim, enviamos nossa solidariedade irrestrita ao povo da Venezuela, o único ator político que tem legitimidade para decidir, de maneira pacífica e democrática, a direção dessa grande nação.

10 de maio de 2020

Celso Amorim
Rafael Correa
Marco Enríquez-Ominami
Fernando Haddad
José Miguel Insulza
Camilo Lagos
Guillaume Long
Clara López
Fernando Lugo
Luiz Inácio Lula da Silva
Daniel Martínez
Esperanza Martínez
Aloizio Mercadante
Alejandro Navarro
Carlos Ominami
Carol Proner
Max Reyes
José Luis Rodríguez Zapatero
Dilma Rousseff
Ernesto Samper
Carlos Sotelo
Jorge Taiana
Mónica Xavier

Publicado em Opera Mundi

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