Economista vê desaceleração antes da pandemia em queda de 1,5% do PIB

Segundo Marco Rocha, da Unicamp, segundo semestre de 2019 já apresentava indicadores que apontavam para desaceleração.

Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (29), o Produto Interno Bruto (PIB, a soma dos bens e riquezas que um país produz em determinado período de tempo) recuou 1,5% no primeiro trimestre de 2020 na comparação com o último trimestre do ano anterior.

Junto com a informação, veio um questionamento: foi só a pandemia que influenciou a atividade econômica no período? Afinal, em janeiro, fevereiro e nos primeiros dias de março, ainda não havia isolamento social. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, que antes declarou que o Brasil estava “começando a decolar” quando veio a pandemia, admitiu estar em dúvida.

Ele afirmou que vai pedir a desagregação do dado mês a mês para entender o quanto da queda veio da emergência sanitária. “Saiu agora o PIB mostrando recuo. Eu vou até pedir para desagregarmos, para vermos se realmente nos primeiros meses nós já estávamos decolando e se no terceiro mês a crise pegou e nos derrubou. Ou se já estávamos em um estado meio anêmico”, afirmou, durante o webinar Gás para o Desenvolvimento.

Na verdade, o Brasil já apresentava, sim, um resultado “meio anêmico”, como mostra o PIB em 2019. Houve crescimento de 1,1%, inferior aos dois anos de governo Temer.

O economista Marco Rocha, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destaca que realmente é preciso analisar o resultado mês a mês para avaliar o impacto da pandemia. No entanto, acredita que já havia uma desaceleração em curso antes do choque do coronavírus.

“No final do ano de 2019, você já tinha tido desaceleração forte na produção de bens de capital e alguns insumos industriais. Isso é lido como um indicativo de que já tem um processo de desaceleração”, afirma o economista. Ele cita ainda o próprio crescimento fraco do PIB no ano passado. “O PIB cresceu 1,1%. Você já vinha com a economia andando de lado desde 2017. É muito otimismo falar que estava tendo uma retomada. Na melhor das hipóteses, você estava tendo um processo de estagnação econômica”, diz.

“Saiu um estudo do IEDI [Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial] sobre o endividamento e a rentabilidade de empresas de capital aberto, com melhora no primeiro semestre de 2019 e no segundo semestre começa a apresentar queda. Então, você já tinha alguns sinais microeconômicos de que havia desaceleração”, acrescenta.

Setores

Ainda de acordo com Marco Rocha, alguns dos setores que mais contribuíram para a queda do PIB não têm, necessariamente, relação com os impactos da chegada da Covid-19 ao Brasil.

“Na indústria, que recuou 1,4%, as principais quedas foram na indústria extrativa [3,2%], da construção [2,4%] e de transformação [1,4%]. As duas últimas são mais elásticas, respondem rapidamente à queda demanda. Mas a indústria extrativa vem do panorama que já estava se formando no comércio exterior. Tem relação com petróleo, minério de ferro, soja. A crise começou na China anteriormente ao Brasil, o que mostra cenário de uma certa crise internacional. O grosso do impacto da Covid-19 no Brasil não entra nesse dado”, acredita.

No setor de serviços, houve queda de 4,6% em outros serviços; de 2,4% em transporte, armazenamento e correio e de 0,8% em comércio. “A principal queda foi em transporte e armazenamento, que, de certa forma, continua funcionando por um tempo [mesmo com a pandemia] pois tem transporte de mercadoria. Comércio, que é um setor que reage de forma muito mais imediata à crise, teve uma queda menor, de 0,8%”, comenta Marco Rocha.

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