São Paulo está perto de achatar curva epidêmica e reabrir, diz Boulos

Capital paulistana e cidades da região metropolitana começam observar queda na demanda hospitalar e por leitos de UTI. Uso intensivo da máscara pode ser fator positivo para o resultado. Infectologista acredita que o momento é errado para flexibilização do isolamento social no interior do Estado.

Uso de máscaras é o último fator mais eficiente de bloqueio do contágio na região metropolitana de São Paulo

Começam a aparecer sinais positivos diante da catástrofe que representou a pandemia de covid-19 na Grande São Paulo. Ao ponto do infectologista Marcos Boulos, consultor do Governo do Estado de São Paulo na força tarefa contra a covid-19, ter falado em flexibilização da quarentena. “Mesmo com enorme distância das etapas da epidemia já vividas em países asiáticos e europeus, provavelmente, nós estamos no pico aqui na região metropolitana de São Paulo”, afirma Boulos em entrevista ao portal Vermelho.

Na opinião dele, ainda não é o momento, mas a região metropolitana deve ser a primeira a poder fazer um relaxamento do isolamento social com responsabilidade. Com isso, ele alerta para o risco da flexibilização que tem sido feita em cidades do interior do Estado, em que a curva epidêmica sequer chegou ao pico. Este alarme serve também para outros estados do país, onde a epidemia está em plena ascensão, beirando o colapso dos sistemas públicos de saúde.

“No país como um todo, começou bem depois, pois o início foi em São Paulo. Nós estivemos à frente quase um mês da maioria dos estados do Brasil, excetuando o Rio de Janeiro. Assim, estamos atingindo o pico, e vamos reverter gradativamente, mas muito lentamente”, pondera o infectologista. Ele considera que as pessoas, e até mesmo autoridades, têm dificuldade de entender que a epidemia tem momentos diferentes em cada região, com explosões de contágios em algumas cidades e baixa incidência em outras, que muito em breve poderão enfrentar o crescimento exponencial se não tomar medidas de isolamento social.

O fato de São Paulo ter sido a primeira a enfrentar o drama da pandemia, por suas características mais cosmopolitas, fez com que ela também deva ser a primeira a ver a curva epidêmica cair, se a flexibilização for feita com responsabilidade. Desta forma, a capital e cidades próximas têm mais chances de começar a abrir a economia, com cautela, do que as cidades mais distantes que ainda estão começando a espalhar o contágio do vírus e já reduzem o isolamento social de forma atabalhoada.

Motivos do otimismo e “efeito máscara”

Por ser a primeira cidade atingida pela pandemia, foi também a que desenvolveu mais rápido hábitos de proteção individual, diz doutor Marcos Boulos (imagens: TV Brasil e ABr)

O que determina a flexibilização da quarentena e o relaxamento diante da pandemia? Segundo o epidemiologista, o acompanhamento sistemático das estatísticas que levam ao achatamento ou queda na curva epidêmica, mas, no momento, principalmente, a percepção de que há uma queda na procura por hospitais e na demanda por ocupação de UTIs para tratamento por covid-19.  As filas crescentes de doentes começam a arrefecer e liberar leitos, conforme há redução de contágio.

De acordo com o especialista, não é seguro falar que o contágio está caindo no país como um todo. “Em São Paulo, sim, porque estamos observando o número de solicitações para hospitais e UTIs e a porcentagem de ocupação está baixando gradativamente. Pelos modelos matemáticos, é possível que ainda tenha algum aumento pra cumprir, mas algum fator entrou na jogada, como o uso de máscaras que está muito intenso aqui em São Paulo. No resto do país, tem estado que está em pleno crescimento da pandemia, começando agora, portanto, deve haver explosões onde isso ainda não ocorreu”, prevê ele, baseado em modelos matemáticos e medidas tomadas em outras localidades.

Como dito, o doutor Boulos acredita que um fator que pode estar contribuindo para essa queda na demanda por tratamento, seja o uso generalizado e intensivo da máscara pela maioria da população da Grande São Paulo. Com muita desconfiança inicial, o acessório foi incorporado ao hábito cotidiano e, mesmo quando usado de forma inadequada, ajuda minimamente a conter a propagação do vírus no ar.

Na sexta-feira (29), o estado de São Paulo registrou queda na taxa de ocupação dos leitos de UTI reservados para covid-19. As taxas são de 73,5% no estado e 85,3% na Grande São Paulo. A redução é de cinco pontos percentuais em todo o território, e superior a oito pontos percentuais na região metropolitana em comparação ao último domingo (24). O aumento no número de altas hospitalares e também da testagem também confirmaria o prognóstico de queda na tendência de contágio.

Isto não significa que os números diários de mortes, por exemplo, não sejam os mais altos, se consideradas cidades do interior e litoral do estado. No entanto, começam a sinalizar um ápice que tende à queda. Nesta terça-feira (2), o estado de São Paulo registrou o recorde de 327 mortes causadas por covid-19 em 24 horas. O número de novos casos também foi o mais alto da crise: sete mil nas últimas 24 horas, totalizando 118.295 pessoas contaminadas. Observa-se um avanço pelo interior do estado e redução na Grande São Paulo.

A curva já poderia estar achatada se fosse possível o lockdown rigoroso, logo no início, como foi feito em países da Europa e Ásia. Mas a pressão dos empresários contra governadores e prefeitos, por meio inclusive de manifestações de rua, dificultou a decisão por medidas mais eficazes. Quem conseguiu fazer o bloqueio total, por pelo menos dez dias, teve o apoio do Ministério Público e do Judiciário, como no caso do Maranhão.

Resistência a novos hábitos

Enquanto São Paulo, com seus números alarmantes de casos e mortes, desenvolveu mais rápido e mais consistentemente uma cultura de proteção individual, nas cidades interioranas, hábitos como usar máscaras ou manter distanciamento social, além do esforço por manter quarentena em casa, são pouco comuns.

A baixa incidência da doença, enquanto São Paulo via uma explosão de casos, levou muitos a tratar a covid-19 como um fenômeno distante e improvável de chegar a suas pequenas cidades. Discursos desencontrados de autoridades políticas também contribuíram para confundir parte da população. Soma-se a isso os bolsões de miséria nas grandes cidades, que impossibilitam as famílias de manter isolamento social, quarentena confortável e ficar em casa, diante da falta de renda e trabalho.

Boulos diz que, assim que a economia reabriu a todo vapor em Ribeirão Preto (SP), esta semana, ele começou a receber fotos assustadoras de multidões nas ruas, feiras e shoppings, a maioria sem máscaras de proteção individual ou preocupação com distanciamento. A flexibilização do isolamento social é vista como uma autorização para se libertar da opressão da quarentena e tudo que a acompanhou: máscaras, álcool gel, higienização das compras, privação de encontros sociais e apreciação do espaço público. A Prefeitura de Ribeirão é uma das que começam rever a medida, já que os parâmetros da flexibilização não são respeitados.

“Lá não poderia abrir, porque está aumentando muito o número de casos. Então, vamos ver daqui a quatorze dias uma explosão de casos nas cidades que abriram o comércio”, prevê Boulos. “Se alguém poderia começar uma flexibilização, mas não agora, daqui a pouco, é a Grande São Paulo, que está no pico e deve começar a descer”.

Parâmetros desrespeitados, “lenha na fogueira

“Apesar da flexibilização estar sendo feita em cima de parâmetros, a gente não acha que eles serão seguidos de maneira adequada”, lamenta o médico. “Se fossem seguidos corretamente, os parâmetros de flexibilização funcionariam na contenção da epidemia”, defende.

Os governos procuram estabelecer os tipos de estabelecimento que podem abrir, como lojas de roupas, e aqueles que permanecerão fechados, como cinemas, que implicam em aglomeração automática de pessoas. Mas, mesmo os estabelecimentos permitidos, precisam estabelecer medidas de segurança sanitária como o limite de pessoas dentro das lojas. Espera-se que as pessoas só saiam de casa se muito necessário, assim como saiam mantendo os mesmos cuidados atuais, com máscara, mantendo a higienização das mãos e objetos tocados e evitando aglomerações como festas.

O que se percebe, em muitos casos, é que nenhum desses parâmetros é respeitado. Lojas não controlam a circulação, não protegem seus funcionários, e as pessoas abandonam o uso de máscaras ou qualquer atenção com isolamento social, além de querer compensar o atraso da circulação em lugares públicos entre multidões.

Embora acredite que os parâmetros de flexibilização seguidos corretamente funcionem na contenção da epidemia, não é o momento para isso. “Se a curva não está descendo, você está jogando lenha na fogueira. Se a curva estiver descendo dá pra fazer uma abertura muito discreta, com todos saindo só quando muito necessário, sempre usando máscaras, sem espaços de entretenimento, como praças de alimentação, cinemas e teatros. Isso vai diminuir muito a frequência em shoppings, por exemplo, mas é necessário que as pessoas se cuidem. Provavelmente, a gente vai ter que ficar arrastando isso, dessa maneira, durante o ano todo”, admite com cautela.

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