Com economia em frangalhos, bolsa tem melhor maio desde 2009

Segundo dados do IBGE, a atividade econômica recuou 1,5% e 900 mil pessoas se somaram ao contingente de desempregados nos três primeiros meses de 2020.

Além da recessão, país atravessa crise política sem precedentes

Chamou a atenção a recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, no último mês. O Ibovespa, principal índice do mercado de ações brasileiro, teve valorização de 8,56%, o melhor desempenho para o índice num mês de maio desde 2009, segundo a consultoria Economatica. O estranhamento é porque o bom desempenho destoa da instabilidade política e da economia real de um país onde a pandemia derrubou o Produto Interno Bruto (PIB) e aumentou o desemprego.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no primeiro trimestre de 2020, o PIB, que é a soma das riquezas produzidas no país e um indicativo da atividade econômica, recuou 1,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O IBGE também divulgou dados relativos ao desemprego: nos três primeiros meses deste ano, o país registrou 900 mil desempregados a mais, somando 12,8 milhões de pessoas.

Às crises sanitária e econômica, soma-se ainda uma crise política, com guerra aberta entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o presidente Jair Bolsonaro e militares. Além disso, a oposição ao presidente que desdenhou da pandemia começa a tomar as ruas. No domingo (31) houve confronto entre bolsonaristas e antifascistas e há mais manifestações previstas contra Bolsonaro.

Apesar disso, na terça-feira (2), o Ibovespa fechou em alta de 2,7%, aos 91.046 pontos, com o melhor resultado desde 10 de março, retomando o patamar dos 90 mil pontos. No mesmo dia, o dólar fechou em queda de 3,23%. Nesta quinta (4), a B3 opera em terreno positivo, estável com alta de 0,3% por volta de 14h30. No mesmo horário, o dólar subia 0,5%, cotado a R$ 5,11.

À coluna do jornalista Lauro Jardim, de O Globo, um banqueiro comentou sobre o desempenho da B3: “O mercado é um ignorante político”, disse. Acrescentou, ainda, que não é uma boa ideia julgar a seriedade da situação pelo comportamento do mercado e que este só reagiria à tensão política quando esta se transformasse em um “evento político”.

Dinâmica externa

Os movimentos do mercado financeiro não são inteiramente sem lastro, contudo. O economista Paulo Kliass explica que a bolsa é muito influenciada pelo cenário internacional. A reabertura das economias europeias e asiáticas – principalmente a China – explica, em parte, o otimismo.

“Os operadores são muito influenciados pela dinâmica externa. São grandes bancos, grandes operadoras. Você está vendo uma retomada da atividade econômica na Europa e China. A China está indo bem, o Brasil está exportando para a China”, destaca.

Baile da Ilha Fiscal

O economista ressalta, entretanto, que há também uma boa dose de especulação. “Quem puxa a bolsa no Brasil são pouquíssimas e mastodônticas empresas. Por incrível que pareça, são principalmente estatais. Petrobras, Banco do Brasil, Vale. Esses grandes operadores ganham na alta e na baixa. Compram na baixa e vendem na alta. Eles não ganham é na estabilidade”, observa.

Ele chama a atenção, ainda, para o quanto é temerário diagnosticar a economia com base no mercado de ações. “Tem que olhar para os indicadores reais, [que são] desemprego altíssimo, informalidade altíssima. Essa alta lembra o Baile da Ilha Fiscal [baile no Rio de Janeiro pouco antes da destituição da família real e da proclamação da República]. O cara está fazendo uma festa na bolsa e o país está afundando. A única coisa que não muda é o lucro dos bancos e o lucro dos agentes financeiros”, afirma.

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