Esconder números não muda a realidade

A tentativa do governo federal de sufocar dados sobre a covid-19 no Brasil guarda muitas semelhanças com a crise envolvendo dados do desmatamento na Amazônia, em 2019.

A Amazônia tem a mais rica biodiversidade do planeta

A situação era, essencialmente, a mesma: incomodado com a divulgação de dados oficiais que contradiziam seu discurso político e expunham falhas graves na gestão de uma emergência nacional, o governo preferiu questionar os números a enfrentar o problema. Culpar o termômetro em vez de resolver a febre, como se diz por aí.

A ameaça, naquele caso, era o aumento desenfreado das queimadas e do desmatamento na Amazônia, revelado pelos dados de monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — um órgão do próprio governo, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), com 30 anos de experiência no assunto e altamente respeitado mundo afora como referência internacional no monitoramento de florestas tropicais.

Questionado sobre o tema, Bolsonaro disse em um encontro com jornalistas, em 19 de julho, que os dados do Inpe eram “mentirosos” e que o diretor do instituto estaria agindo no interesse de organizações não governamentais (ONGs). Foi o estopim de uma crise internacional sobre o desmatamento na Amazônia, com consequências políticas, diplomáticas e econômicas duradouras para a imagem do País.

O diretor do Inpe, na ocasião, era o físico Ricardo Galvão, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), ex-diretor da Sociedade Brasileira de Física (SBF) e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF); figura altamente respeitada na comunidade científica nacional e internacional. Ele foi exonerado duas semanas depois, em 2 de agosto.

A demissão não mudou o fato de que os dados do Inpe estavam corretos, e a negação deles só serviu para manchar a reputação do governo, e não do Inpe. A transparência e o rigor científico são marcas registradas do instituto, reconhecidos internacionalmente. Todos os dados de monitoramento por satélite do Inpe são públicos, assim como as metodologias de coleta e processamento que dão origem a eles, o que permite que a sociedade e a imprensa tenham acesso direto às informações.

Herton Escobar é jornalista especializado em ciência e meio ambiente. Trabalho na Universidade de São Paulo, como repórter especial e também colabora com a revista Science, dos Estados Unidos.

Publicado no Jornal da USP

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