Lilia Schwarcz: Intolerância derruba conceito de “brasileiro cordial”

Historiadora e antropóloga aponta guerra de narrativas em meio a polarização política acirrada

A temperatura das ruas brasileiras pode subir em meio à polarização política e a incitação à intolerância, que vêm se intensificando desde o período eleitoral de 2018. Se em 2019 e parte deste ano as manifestações populares foram quase exclusivas do lado que defende o presidente Jair Bolsonaro, o último fim de semana mostrou o rosto de outros personagens.

“Em 2018, os brasileiros já não desfilavam mais na mesma avenida e mostraram um país muito dividido. Construiu-se um antipetismo muito exagerado. Desde então, foram os manifestantes favoráveis a Bolsonaro que ocuparam as ruas”, afirmou a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, em participação numa live do Valor Econômico. “Tenho medo do que pode acontecer com manifestantes nas ruas em polos tão opostos.”

Lilia diz que, quando escreveu Sobre o Autoritarismo Brasileiro, livro lançado em maio de 2019, o capítulo que mais a surpreendeu foi sobre intolerância. “Essa representação pública do brasileiro cordial no conceito de Sérgio Buarque de Holanda está mudando. Os brasileiros mais fortemente mostram traços de intolerância, de gênero, religiosa, racial. Ao mesmo tempo, cresceu a polarização política.”

O quadro se agrava numa situação em que o próprio governo incita a intolerância, a polarização e o armamento da população. “É preciso que não transformemos o adversário em inimigo”, diz Lilia.

Outro fenômeno novo é o movimento “Black Lives Matter”, reiniciado nos Estados Unidos após a morte de George Floyd e citado nas convocações para manifestações no Brasil. Segundo Lilia, o BLM pode crescer também no País, mas, por aqui, sempre houve manifestações contrárias à violência praticada contra a população negra.

“O Brasil pratica uma política genocida, matando a juventude negra das periferias. Sempre houve muita comoção, sobretudo nas áreas mais periféricas. Talvez a grande mídia não tenha dado vazão a essa comoção”, diz. Agora, com a grande exposição do assunto, o movimento vai entrar na pauta dos movimentos brasileiros.

A historiadora também chama atenção para a chamada disputa de narrativas em que os movimentos estão colocados. “Vivemos um momento em que palavras, conceitos, perderam totalmente o seu sentido. Pessoas que propõem projetos autoritários, como o fim do STF, se chamam de democratas. Esses grupos não têm preocupação com o bem comum. Não respeitam, inclusive, vários capítulos da Constituição.”

Não à toa, diz, o presidente critica movimentos como o realizado pelas torcidas de futebol e o Somos70, mas não o Brasil 300, que foi com tochas para a frente do STF pedindo o fechamento da instituição. Não é coincidência também, afirma, que o governo insista em dois discursos: de dizer que a escravidão não foi uma tragédia e que o movimento de 1964 não se tratou de um golpe, tentando legitimar esses valores.

Questionada se a democracia corre risco aqui e no mundo, Lilia diz ter receio, já que alguns governos enrijeceram seus controles sobre a população durante a pandemia de coronavírus. Por outro lado, há experiências positivas, como a da Nova Zelândia, que lidou com a crise de forma democrática e inclusiva.

Com informações do Valor Econômico

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