Bolsonarismo tenta “apagar” Zumbi, Luís Gama e Carolina de Jesus

Fundação Palmares censura biografias de lideranças negras históricas em seu site

Biografias de personalidades negras vêm sendo censuradas de forma sistemática no site da Fundação Palmares, instituição federal que tem como objetivo zelar por essa memória. Na tentativa bolsonarista de reescrever a experiência negra no País, sumiram artigos sobre o líder quilombola Zumbi dos Palmares, os abolicionistas Luís Gama e André Rebouças, além da escritora Carolina Maria de Jesus. Também desapareceram artigos sobre esportistas negros.

Funcionários e pesquisadores acusam Sérgio Camargo, o chefe racista da fundação, de negar a importância dessas figuras históricas, em especial aqueles que se projetaram como símbolos da esquerda. Cinco meses depois de Camargo assumir o cargo, o site do órgão, sediado em Brasília, perdeu uma de suas principais páginas.

Entre servidores da Palmares, o que se diz é que Camargo ordenou que a página fosse apagada. O endereço da internet mostrava um mosaico com fotografias e nomes. Esse mosaico dava acesso a vários artigos sobre a vida de homens e mulheres negras, entre eles a de Zumbi dos Palmares, considerado um líder negro dos mais importantes na história do País. Camargo, porém, tem atacado Zumbi como parte do projeto de revisionismo histórico da chamada ala ideológica do governo.

Pessoas que falaram sobre o caso pediram anonimato por terem medo de demissão, prática que tem atingido outros servidores ligados à Secretaria Especial da Cultura no governo Bolsonaro. Numa gravação revelada pelo jornal O Estado de S.Paulo, registrada sem que ele soubesse, Camargo chamou o movimento negro de “escória maldita”.

Embora a página com o menu tenha sido removida, ainda é possível encontrar artigos relativos a Zumbi, Gama, Rebouças e Carolina digitando o nome delas no campo de pesquisa do site da fundação. Os esforços de apagamento, no entanto, também se refletem no dia a dia da instituição fora do site.

Outro projeto revisionista nos planos de Camargo é a construção de uma biblioteca que valoriza o papel da corte portuguesa na formação da identidade brasileira e mesmo no processo de abolição da escravatura. A nova ala deve ocupar um prédio que pertence à Empresa Brasil de Comunicação. Além disso, uma estátua de Zumbi foi retirada da entrada da sede da fundação – uma funcionária do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra quis agradar Camargo e guardou a escultura num depósito.

As medidas recentes de censura vêm no rastro de outras provocações do chefe da instituição. Uma das primeiras medidas de Sérgio Camargo à frente da Palmares foi encomendar, para serem publicados no dia 13 de maio, quando se comemora a abolição da escravatura no país, artigos que desmoralizavam a figura de Zumbi. Os textos “Zumbi foi um herói?”, de Mayalu Felix, e “Zumbi e a Consciência Negra – Existem de verdade?”, de Luiz Gustavo dos Santos Chrispino, reduzem a figura do líder do Quilombo dos Palmares a um mito criado pelo movimento negro e pela esquerda.

Depois de uma manifestação do Ministério Público Federal (MPF), a Justiça ordenou que esses dois artigos fossem retirados do ar. A entidade diz que recorrerá da decisão, acionando a Advocacia Geral da União.

Em outro artigo, chamado “Por que lembrar, em 13 de maio, a Princesa Isabel do Brasil?”, Laércio Fidelis Dias, diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro da fundação, homenageia a figura que assinou a abolição da escravatura. O Ministério Público Federal abriu inquérito para apurar se as medidas de Camargo podem ser consideradas improbidade administrativa por atentar contra os princípios da administração pública.

Camargo também ficou muito conhecido por declarações controversas nas redes sociais sobre a cultura negra. Ele diz por exemplo que no Brasil existe “racismo Nutella” e que a escravidão teria sido benéfica para os descendentes dos escravos. Por essas falas, a Justiça pediu em dezembro a suspensão de sua nomeação à presidência da Fundação Palmares, por meio de liminar – a situação foi revertida no início deste ano. O caso de censura se deu logo após ele assumir, junto a diversas demissões na instituição.

Em função dos artigos que desqualificam a figura de Zumbi, o MPF abriu uma representação para que Camargo responda judicialmente por improbidade administrativa por atentar contra os princípios da administração pública. Para a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, o conteúdo dos artigos viola o propósito de criação do órgão público de promoção à cultura negra.

“A Fundação Palmares já nasce vocacionada à promoção dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira. Negar ao povo negro a sua história e seus heróis, como é o caso de Zumbi, é atentar contra a instituição que Sérgio Camargo preside”, diz a representação.

Com informações da Folha de S.Paulo

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