Como a pandemia acelera a crise do neoliberalismo, por Laura Carvalho

Autora lança livro sobre a economia da crise e suas consequências: “Não há razões para esperar que esse mundo pós-pandemia vá ser mais justo”

Laura Carvalho é uma voz potente entre os economistas brasileiros. Após o sucesso de seu primeiro livro, Valsa Brasileira – Do Boom ao Caos Econômico, ela lança agora Curto-Circuito – O Vírus e a Volta do Estado, em que reflete sobre as possíveis consequências da pandemia para a compreensão do papel do Estado no País. Ao contrário da cartilha bolsonarista desenhada pelo ministro Paulo Guedes (Economia), o governo federal se viu obrigado a combater a crise com mais – muito mais – Estado.

“O Estado entrou gastando e se endividará para isso”, afirma Laura, em entrevista à revista Tpm. “Foi um certo revés para o governo, que foi pego no contrapé e agora talvez tenha dificuldade de cortar as medidas, como o auxílio emergencial – que pode ser mantido e dar origem a um programa mais amplo de transferência de renda. O custo político de retirar esses estímulos é muito alto.”

Lançado pela editora Todavia, Curto-Circuito é um e-book da Coleção 2020 — Ensaios sobre a Pandemia, que reúne textos de pensadores brasileiros. Sobre o título escolhido, Laura explica o “duplo sentido”. Existe, diz ela, “o curto-circuito macroeconômico, quebrando o elo entre produtores e consumidores, mas também o curto-circuito que isso provocou no bolsonarismo e nesse pilar do Estado mínimo e do fundamentalismo de mercado, que contribuiu para eleger o Bolsonaro. A crise exigiu desse governo uma atuação que rompeu com a estratégia anterior”.

Sem futurologia, Laura oferece uma reflexão necessária sobre o momento que estamos enfrentando – e o que ainda está por vir. “Não há razões para esperar que esse mundo pós-pandemia vá ser mais justo”, diz. “Aceitei o desafio de escrever sobre o presente sem querer fazer interpretações definitivas e muito menos exercícios de futurologia. Busquei pensar sobre o que a pandemia tem nos mostrado sobre as desigualdades e carências históricas que o Brasil não resolveu”.

Segundo Laura, o livro evidencia “essa perspectiva do papel do Estado” – um elemento que voltou à pauta à medida que o coronavírus se espalhava. Mais que interpretar a realidade, é preciso “construir um projeto”, diz Laura. “Quais instrumentos foram importantes agora? Quais estavam faltando? O que ficou claro que é importante? Para onde a gente deveria estar destinando mais recursos? A organização do livro foi essa, e também a de partir da história contemporânea para ensinar conceitos de economia.”

A autora ensina que o Estado é, em primeiro lugar, “estabilizador da economia. Todas as crises econômicas ajudam a mostrar que o setor privado, quando entra em crise, assume posturas defensivas e é o Estado que consegue gastar e se endividar para evitar um colapso maior”.

O Estado também é “investidor na infraestrutura do País – aí o exemplo que essa pandemia traz bem claro é o do saneamento básico. Temos carências evidentes que fazem com que famílias inteiras não tenham acesso à água e esgoto. Fora as questões de moradia e de transporte público, que ajudam na disseminação do vírus nas periferias”.

Cabe ao Estado, ainda, o papel de suporte “dos mais vulneráveis, proteção social”, conforme ficou evidente na aprovação do auxílio emergencial no Brasil. “A pandemia mostrou uma massa de trabalhadores em situação de vulnerabilidade extrema, com renda volátil e empregos informais. Vários elementos mostram que a gente precisa pensar em um sistema de proteção de renda básica”, afirma Laura.

O Estado é igualmente prestador de serviço, sobretudo na saúde. “O SUS (Sistema Único de Saúde) é o exemplo que está sendo valorizado. Mas a gente viu lacunas de desigualdade regionais muito fortes em relação ao acesso ao serviço”. Por fim, temos o “Estado empreendedor”, que, segundo Laura, envolve o desenvolvimento tecnológico e científico. A pandemia mostrou que não temos capacidade de produzir os insumos médicos necessários”.

O “renascimento” do Estado nos leva a concluir que a crise no neoliberalismo foi agravada pela pandemia do novo coronavírus. “A crise de 2008 já tinha começado a questionar a ideia neoliberal dos mercados autorregulados, que predomina desde os anos 80. Essa pandemia acelera essa crise do neoliberalismo, sem dúvida”, afirma. “As respostas que os países estão dando mostram uma ruptura com a tradição de considerar que o setor privado sozinho vai fazer a melhor alocação dos recursos para a sociedade.”

E o futuro, o pós-pandemia? “A gente vai ver mais desigualdade. Tendências como a ‘uberização’ devem ser fortalecer.  Essas plataformas estão regendo e organizando o trabalho sem direito nenhum, com jornadas muito acima do que seria digno e pagamentos indignos”, denuncia Laura.

O teletrabalho é outra polêmica questionada pela economista. “O trabalho remoto, que agora tantas empresas entenderam que é viável, também pode precarizar relações trabalhistas via ‘pejotização’ e quebra de elos entre empregadores e empregados, que antes eram mais sólidos. Surge a demanda de pensar formas de como proteger os trabalhadores”, opina.

Ela defende, uma vez mais, o auxílio emergencial. “A renda básica universal é uma das maneiras de dar um piso de renda que garanta a sobrevivência para os trabalhadores, para que eles ganhem algum poder de negociação e possam não aceitar as condições indignas.”

Em um trecho de seu novo livro, Laura sintetiza sua diretriz: “Para muitos, a trágica pandemia ajudaria a parir um belo mundo novo, bem mais justo e sustentável. No entanto, as desigualdades exacerbadas pela crise, os patamares mais elevados de dívida pública deixados como herança pelo seu combate e o fortalecimento de tendências ao autoritarismo e ao nacionalismo apresentam-se como obstáculos vistosos para uma transformação social significativa”.

Com informações da TPM

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