De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A cientista política Ana Prestes comenta o debate realizando no Conselho de Direitos Humanos da ONU em que se destacou o racismo e a violência policial, em especial no EUA. O livro do ex-assessor de segurança nacional de Trump, a pandemia da Covid-19 no Chile, protestos sociais na França, as tensões entre China e Índia e entre as duas Coreias também estão entre os temas analisados.

Plenário Conselho de Direitos Humanos da ONU

Aconteceu no dia de ontem (17) um debate organizado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre racismo, brutalidade policial e violência contra manifestantes, ensejado pelo assassinato do norte-americano negro George Floyd por um policial branco nos EUA. A Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, se referiu ao assassinato como “um ato de brutalidade gratuita”, parte do “racismo sistêmico que prejudica milhões de pessoas de origem africana”. Segundo ela, é preciso combater “a herança do tráfico de escravos e do colonialismo”. O irmão de George Floyd, Philonise, participou da webconferência por vídeo e pediu à ONU “ajuda para os americanos negros” com a criação de uma comissão de investigação independente sobre a violência policial contra os afro-americanos, proposta feita por vários países africanos. No entanto, nos bastidores, os EUA, que estão fora do CDH, fizeram muita pressão para retirar a menção a esta comissão do documento final da reunião que será votado hoje (18). A delegação brasileira na ONU foi uma das que atuou no sentido de proteger Trump de um documento mais duro por parte do CDH da ONU. Segundo a coluna do jornalista Jamil Chade, que vive em Genebra e sempre acompanha os bastidores da ONU, a representação do Itamaraty “não dirigiu sequer uma palavra de apoio à família da vítima e não citou os protestos pelas ruas em todo o mundo”, mas fez questão de enfatizar o importante “papel da polícia”. A delegação brasileira também se posicionou de forma contrária à criação de uma comissão de inquérito internacional para investigar os crimes cometidos nos EUA e outros países com situações semelhantes. Segundo a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, “o racismo não é exclusivo a nenhuma região específica”.

Nos EUA, o ex-policial branco que matou no final de semana passada, em Atlanta, com dois tiros pelas costas o norte-americano negro Raysahrd Brooks recebeu ontem (17) 11 acusações, inclusive homicídio culposo, com intenção de matar. Se for considerado culpado poderá pegar prisão perpétua ou até pena de morte, que ainda é praticada no estado da Georgia. Vídeos mostram que mesmo após Brooks estar baleado, o então policial o chutou, demonstrando que não se tratava de legítima defesa. Os policiais envolvidos também recolheram várias balas no chão antes de prestar socorro a Brooks. O fato se deu no estacionamento de uma lanchonete, que foi incendiada mais tarde por manifestantes. O caso Brooks impulsionou ainda mais os protestos anti racistas nos EUA que já duram quase um mês.

Um livro escrito pelo ex-assessor especial de segurança nacional da Casa Branca, John Bolton, anda agitando a cena política nos EUA. Bolton é um típico belicista norte-americano, tendo participado dos governos de Reagan, Bush pai e Bush filhos. É um dos responsáveis pela Guerra do Iraque no começo do século, tendo “convencido” a comunidade internacional que havia armas químicas de destruição em massa no país, algo que se revelou falso mais tarde. Durante o governo Trump propôs ataques à Coreia do Norte, ao Irã e à Venezuela. É famosa uma frase dele de 1994: “não existe Nações Unidas”. Anos depois, foi embaixador dos EUA na ONU nomeado por Bush filho. Com esse currículo, não é estranho que Trump o tenha escolhido para ser assessor até que sua presença no governo ficasse inconveniente. Isso se deu pelo fato de Bolton ter presenciado a conversa de Trump com o presidente ucraniano Zelensky em que foi dada uma condicionante para que a Ucrânia recebesse ajuda financeira dos EUA. A condição era uma investigação que ajudasse a atingir Joe Biden, rival democrata. Um processo de impeachment de Trump foi aberto por conta desse caso. Bolton não chegou a depor sobre “o que sabia” no Senado durante o processo de impeachment, simplesmente porque o Senado não ouviu ninguém. O livro “The Room Where it Happened” de 577 páginas será lançado nos próximos dias e parece trazer revelações sobre outras práticas impublicáveis de Trump, todas calculadas para se manter no poder. Algumas engraçadas, como as perguntas de Trump se a Finlândia era parte da Rússia e se o Reino Unido tinha armas nucleares e outras mais séria como os pedidos para Xi Jinping ajudar em sua reeleição, pois os “democratas não gostam da China”.

O Chile viu a pandemia do novo coronavírus ampliar seu alcance no país nas últimas semanas. O governo Piñera, com aval do Congresso, resolveu endurecer e adotar medidas de tolerância zero para quem descumprir a quarentena. Isso inclui multas e até penas de até 5 anos de detenção para quem der festas ou fizer shows, por exemplo. Movimentos sociais e setores democráticos temem que as medidas sirvam de justificativa para repressão da oposição ao governo Piñera. Segundo a subsecretária do interior do governo, Katherine Martorell, “as pessoas só poderão sair duas vezes por semana para realizar procedimentos essenciais e excepcionais”. O Chile é hoje o 9º. país do mundo no ranking da pandemia.

A prisão de uma enfermeira em protestos na França no último dia 16 provocou uma forte reação da oposição a Macron no país. Cerca de 10 policiais prenderam de forma brutal a enfermeira Farida, uma mulher de 50 anos, que nos últimos três meses trabalhou entre 12 e 14 horas, segundo seu filho. Ela teve a Covid-19 e estava se manifestando por melhora nas condições de trabalho, aumento de salário e reconhecimento do seu trabalho. No vídeo que mostra a prisão, Farida tentava recuperar seu inalador, por ser asmática e tinha as roupas rasgadas. Vários protestos ocorreram nesse dia na França puxados por profissionais da área da saúde, em Paris, Nantes, Lyon e outras cidades. Várias terminaram com repressão policial.

O presidente chinês, Xi Jinping, anunciou ontem (17) que a China vai perdoar os juros da dívida de alguns países africanos que estejam para vencer até o final de 2020. Prometeu ainda maior apoio aos países africanos mais afetados pela pandemia do coronavirus. O anúncio foi feito durante a Cúpula China-África de Solidariedade contra a Pandemia da Covid-19 que ocorreu por videoconferência. O presidente chinês instou ainda os demais países do G20 a fazerem o mesmo. Durante a cúpula foi lançada também a Plataforma de Compras de Material Médico da União Africana (hoje presidida pela África do Sul) que visa proporcionar acesso a materiais e equipamentos médicos necessários ao combate da pandemia.

O primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, falou para a rede de televisão do país sobre os 20 soldados indianos mortos na fronteira com a China em Ladakh, região do Himalaia. Segundo ele, “as mortes não serão em vão”. Já as autoridades chinesas dizem não querer conflito. Nas palavras do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, “no que diz respeito a China, não queremos ver mais confrontos com a Índia”. Em maio deste ano, o jornalista Pepe Escobar já havia falado da iminência de um choque entre as duas potências nesta fronteira. Em seu artigo, Pepe dizia que “seria contraprodutivo para a Índia e a China, ambas membros do BRICS e da Organização de Cooperação de Xangai, irem às vias de fato por causa de alguns passos de montanha gelados e extremamente remotos (…) mas quando olhamos para a Linha de Controle Real de 3488 quilômetros de extensão, que a Índia define como ‘não-resolvida’, essa possibilidade não pode ser afastada de todo”. Na região passa uma rodovia que vai do Tibet até o sudoeste da província de Xinjiang que entrecruza o corredor econômico China-Paquistão, como parte da iniciativa Cinturão e Rota chinesa. Um pedacinho intrincado do mundo entre três potências nucleares: China, Índia e Paquistão. No atual conflito tanto a Índia, como a China, reclama de invasão das linhas demarcatórias da fronteira. Ano passado, o consultor em Segurança Nacional da Índia, Ajit Doval, e o ministro das relações exteriores da China, Wang Yi, se encontraram para tratar a questão, mas parece não ter dado muito certo por enquanto.

Outro conflito, entre as duas Coreias, também segue se aprofundando depois da explosão de um edifício de escritórios que abrigava as reuniões de autoridades negociadoras dos dois países. Segundo a agência norte-coreana KCNA, Kim Yo Jong, irmã do líder Kim Jong-un rejeitou um aceno por parte de Seul de enviar negociadores. Houve reação de Seul. A nova crise foi motivada por envio de panfletos apócrifos provocadores do Sul para o Norte.

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