De Olho no Mundo, por Ana Prestes

O desfile comemorativo dos 75 anos da vitória contra nazismo é o principal destaques da análise feita pela cientista política Ana Prestes. Outras temas também analisados são o referendo popular constitucional na Rússia, a tensão na fronteira entre China e Índia, a notícia de um suposto diálogo entre Trump e Nicolás Maduro, a indicação do ex-ministro Weintraub para o Banco Mundial, a chegada de navios iranianos à Venezuela e a nuvem de gafanhotos que poderá entrar no Sul do Brasil.

Desfile em Moscou comemorou os 75 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial l Foto: Sputinik

Aconteceu nesta quarta-feira (24), na Praça Vermelha em Moscou, o desfile militar para celebração dos 75 anos da vitória da Grande Guerra Patriótica pelo exército soviético, a derrota dos nazistas na Segunda-Guerra Mundial. Geralmente a parada ocorre no dia 9 de maio, feriado nacional, para marcar o dia preciso da vitória, mas desta vez foi adiada por conta da pandemia do novo coronavírus. A data escolhida, 24 de junho, é simbólica por ter sido em 24 de junho de 1945 a primeira parada comemorativa imediatamente após a vitória na guerra patriótica. Participaram ontem mais de 14 mil soldados e mais de 230 veículos militares. O público também compareceu e segundo o governo russo foram todos testados para o coronavírus. Há grande preocupação especialmente com os veteranos. Os 80 veteranos que ficaram ao lado de Putin no desfile cumpriram quarentena de duas semanas juntos antes do evento. Os assentos foram espalhados para não haver aglomeração. Líderes mundiais como Xi Jinping e Macron não compareceram por conta do coronavírus. Em seu discurso durante a cerimônia, Putin disse que “é difícil imaginar como seria o mundo se o Exército Vermelho não tivesse saído para defendê-lo”.

Assista o desfile

Ainda sobre a Rússia, aproxima-se o referendo popular que dará ou não aval às mudanças constitucionais feitas nos últimos meses pelo executivo e votadas no parlamento (Duma). O referendo será no dia 1º. de julho. A princípio seria em 22 de abril, como assinalei na época aqui no De Olho no Mundo. Há meses estão tramitando no parlamento russo cerca de 200 propostas de emendas constitucionais ao texto constitucional de 1993. As emendas têm sido bastante questionadas pela oposição à Putin e também opositores externos por darem a ele ainda maiores poderes do que possui hoje. A mais polêmica é aquela que permite ao presidente concorrer mais duas vezes a um mandato presidencial após o fim do atual, em 2024. Isso faria com que ele pudesse ficar até 2036 no poder. Putin foi presidente da Rússia entre 2000 e 2008 (com uma reeleição). Em 2012 ele foi eleito para um mandato de 6 anos e reeleito em 2018 para ficar até 2024. (Mandatos foram alterados de 4 para 6 anos). Entre 2008 e 2012 ele foi primeiro ministro. O presidente era seu ex-primeiro ministro Dmitri Medvedev. Outro ponto muito sensível no novo texto constitucional é o de só prever como casamento a união entre um homem e uma mulher. Putin chegou a dizer meses atrás: “enquanto eu for presidente, isso não ocorrerá. Será papai e mamãe”.

A imprensa noticiou fartamente nos últimos dias os sinais de parte a parte entre Venezuela e EUA sobre uma possível reunião entre Maduro e Trump. Textualmente, Trump disse no domingo (21), em entrevista ao site Axios, quando perguntado sobre um possível encontro com Maduro: “eu pensaria nisso talvez. Maduro gostaria de se encontrar, e eu nunca me opus a reuniões. Você sabe, raramente me opus a reuniões. E, como eu sempre digo, você perde muito pouco com reuniões”. A questão é que, ao que se saiba, Maduro não pediu nenhuma agenda com o presidente norte-americano. O que a Venezuela tem pedido é respeito ao seu processo democrático interno e à sua soberania. Trump promoveu e patrocinou Juan Guaidó que não deu conta da encomenda. Agora, em final de mandato, Trump diz que “raramente me opus a reuniões”. No dia seguinte à entrevista de Trump, Maduro disse à Agência Venezuelana de Notícias: “no momento em que seja necessário, estou disposto a conversar respeitosamente com o presidente Donald Trump”. Há três meses, o Departamento de Estado americano fixou uma recompensa de 15 milhões de dólares para quem tivesse “informações que possam levar à prisão e condenação” de autoridades venezuelanas, segundo eles, “narcotraficantes”, entre essas autoridades “procuradas” está Maduro. Detalhe importante é que após a entrevista do domingo, Trump foi ao Twitter e fez uma ressalva dizendo que só se reuniria com Maduro para “discutir a saída pacífica dele”. (Nexo Jornal)

Por falar em Venezuela, chegou ontem (24) por lá o navio iraniano Golsán carregado com alimentos e outros produtos para abastecer um supermercado que será aberto em Caracas. O empreendimento é fruto da parceria da Venezuela com o Irã. Esta mesma parceria foi capaz de driblar o embargo norte-americano tanto à Venezuela quanto ao Irã e realizar a entrega marítima de carga iraniana contendo 1,5 milhões de barris com combustível, peças e insumos para conversão do petróleo em gasolina e outros combustíveis. Recentemente Mike Pompeo, chefe do Departamento de Estado dos EUA disse que os capitães das cinco embarcações iranianas que fizeram a entrega serão sancionados pelo país. (BdF)

E por falar em Irã, EUA e Venezuela, o governo iraniano também alega estar recebendo investidas por parte dos americanos para a realização de uma “conversa”. Embora o presidente Hassan Rouhani diga claramente que os pedidos dos EUA para reuniões não são sinceros. Trump tem insistido em dizer que pretende estabelecer um novo acordo com Teerã sobre os limites às atividades nucleares. Ele quer restringir o programa iraniano de mísseis balísticos. Isso após os EUA terem saído abruptamente de um acordo multilateral com Irã e países europeus firmado em 2015.

Uma associação de funcionários do Banco Mundial, chamada WBG Staff Association, enviou uma carta para a Comissão de Ética do banco com críticas à indicação do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, para ocupar o cargo de diretor-executivo da EDS15 (grupo que reúne Brasil, Colômbia, Equador, Filipinas, Rep. Dominicana e Trinidad e Tobago). A associação pede que a nomeação seja suspensa até o fim de uma investigação que corre no Brasil e que implica o nomeado por declarações de cunho racista ainda no exercício do cargo de ministro. No texto os associados dizem que o banco “acaba de assumir uma posição moral clara para eliminar o racismo em nossa instituição. Isso significa um compromisso de todos os funcionários e membros do grupo de expor o racismo onde quer que o vejamos. Acreditamos que o Conselho de Ética do BM compartilha essa visão e fará tudo ao seu alcance para aplicá-la”. O inquérito contra Weintraub por racismo em postagem nas redes sociais sobre o povo chinês agora está na primeira instância. Ele também é investigado no inquérito das fake news por ter xingado e ameaçado ministros dos STF em reunião ministerial do governo Bolsonaro. Olhando pelo lado diplomático, dificilmente os demais países interferem na indicação nominal do governo de um país. O “caso Weintraub” pode estar dando um nó na cabeça de muita gente.

Por falar em diplomacia, China e Índia estão empenhadas nos bastidores em encontrar uma solução para o conflito na fronteira da região do Himalaia que resultou em confronto militar e mortes no último dia 15 de junho. A princípio houve muita acusação de parte a parte sobre quem teria originado o estopim do confronto, mas segundo noticia a imprensa asiática, há neste momento busca por consenso para reduzir a tensão. Segundo o porta voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, uma conferência entre os dois países havia sido feita no dia 6 de junho e seus termos estão sendo revistos, pois não foram capazes de acalmar a situação, muito pelo contrário. A linha da fronteira em questão foi traçada ainda pelo Império Britânico no começo do século XX e a disputa territorial desta região remonta à década de 50 do século passado quando a Índia deu asilo ao Dalai Lama, após uma rebelião contra o governo de Pequim no Tibet. Ali próximo também está a região da Caxemira, de altíssima tensão entre Índia e Paquistão. Ladakh, ponto específico do confronto do dia 15 de junho fica entre o Tibet e a Caxemira. Alta tensão? Sim ou com certeza?

Argentina, Paraguai, Uruguai e o sul do Brasil são vítimas de uma gigante nuvem de gafanhotos. Segundo projeções, a nuvem que tem um comprimento de 10 km por uma largura de 3 km pode comer em um dia o equivalente a 2 mil vacas. Na terça (23) ela atingiu lavouras no Paraguai e na Argentina. Hoje (25) os uruguaios torcem para que ela não chegue por lá. O mesmo ocorre com os estados do sul do Brasil. O governo brasileiro, através da ministra Tereza Cristina, disse que há um plano de monitoramento para acompanhar o deslocamento dos gafanhotos. O tipo de gafanhoto que prolifera aqui nas Américas é diferente do “gafanhoto do deserto” que este ano vem assolando vários países africanos. Segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – a nuvem de gafanhotos deste ano é a pior na região do Chifre Africano (Etiópia, Somália, Eritreia) em 25 anos e no Quênia é a pior em 70 anos. Também se locomovem na Índia, Paquistão e Irã, na Ásia e no Sudão e Sudão do Sul, na África.

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