Cientista critica foco na cloroquina e silêncio em avanços brasileiros

Professor de Imunologia da USP mostra como ideologização da medicina pode impedir que a ciência chegue a quem precisa. Bolsonaro silencia descobertas nacionais importantes mundialmente, enquanto defende a cloroquina

Montagem por Cezar Xavier

Em seu artigo “A propósito de cloroquina, medicina, heparina e tubaína”, publicado no Jornal da USP, o professor Momtchilo Russo, do Departamento de Imunologia do ICB/USP e do Departamento de Moléstias Infecciosas da FMUSP, lamentou o modo como o governo gasta recursos e espaço na mídia, além de atacar médicos, a partir da defesa da cloroquina como medicamento para tratamento da covid-19, enquanto a descoberta dos benefícios da heparina, entre outras descobertas brasileiras importantes mundialmente, são ignoradas e relegadas ao silêncio.

Em seu artigo, o médico pontua os seguidos erros cometidos pelo Brasil, a partir do negacionismo científico, ao ignorar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), seguidas por outros países que evitaram a catástrofe que se instala no Brasil, com o elevado número de mortes. Presidentes sem qualquer conhecimento médico científico resolveram recomendar o consumo de fármacos específicos, como estratégia para sabotar o trabalho médico e confundir a população, colocando-a contra a comunidade científica.

“Lamentavelmente, o governo brasileiro ignorou um achado importante feito pela médica Elnara Marcia Negri, do Hospital Sírio Libanês e da Universidade de São Paulo, mostrando o efeito benéfico da heparina, uma droga anticoagulante, na covid-19”, afirmou, mostrando a cortina de fumaça que se criou com generalistas sem formação, em prejuízo dos verdadeiros especialistas diplomados e gabaritados por histórico de produção científica.

Igualmente relegado foi o avanço do conhecimento na covid-19 feito por pesquisadores brasileiros do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), coordenado pela professora Marisa Dolhnikoff. Segundo resgata Russo, esses pesquisadores mostraram ao mundo que o tromboembolismo (coagulação exagerada do sangue) está associado com a patologia da covid-19.

“Inclusive, a orientação atual dos médicos – que também merecem ser destacados – do Hospital das Clínicas da FMUSP é utilizar heparina”. Ele também acrescenta o mérito do grupo da doutora Helena Nader da Unifesp, ao desenvolver um tipo de heparina no tratamento da covid-19. “Tampouco um teste que identifica a presença do vírus desde o primeiro dia da infecção, desenvolvido no Hospital Albert Einstein, foi destacado pelo governo”, totalizou ele.

Além dessas, inúmeras iniciativas inovadoras das universidades brasileiras foram ignoradas, incluindo as iniciativas do instituto (ICB/USP) em que atua Russo, que estabeleceu um teste sorológico para covid-19 ultrassensível.

A novela da cloroquina

Outro erro grave foi assumir a defesa da cloroquina no combate ao vírus da covid-19. O médico mostra que a cloroquina já tem histórico de fake news, desde 1918, quando era indicada para gripe espanhola, sem qualquer eficácia comprovada. Ele conta ainda que a sugestão de uso da substância começou de um estudo francês equivocado cheio de erros de condução científica, que acabou sendo negado pelos próprios autores.

“Como a maioria dos pacientes de covid-19, quase 90%, se recuperam da infecção, fica difícil determinar o efeito da cloroquina. Esse tipo de situação, quando não se tem certeza do que realmente funciona numa determinada doença, abre campo ao charlatanismo”, afirma Russo. Hoje, além de se observar que a substância não é benéfica, ainda pode ter efeito deletério sobre o organismo, acelerando o óbito.

Portanto, defende o imunologista, recomendar o seu uso, como faz atualmente o Ministério da Saúde, por meio de protocolos, fere um princípio básico da medicina, que é primum non nocere, ou seja, não infringir ao paciente danos desnecessários.  “A recomendação do uso da cloroquina por três presidentes que compartilham a ignorância em relação ao mecanismo de ação da cloroquina é ilustrativa. Em comum, os três não têm nenhuma formação profissional ou conhecimento científico para opinar na medida que não entendem de vírus nem de terapia”, diz ele, sobre Bolsonaro (Brasil), Trump (EUA) e Maduro (Venezuela).

Ele menciona episódios onde este tipo de postura governamental foi danosa, como o caso Lysenko, ministro da Agricultura soviético, que considerava “burguesa” a genética de Mendel (leis baseadas em cruzamento de plantas que determina a herança genética de pais para filhos) e demitiu todos os cientistas que a apoiavam, impedindo o avanço do cultivo de sementes. “Analogamente, foram afastados os ministros da Saúde do Brasil que se recusaram a indicar a cloroquina e/ou o fim do distanciamento social e até hoje não foram substituídos, o que se traduziu num aumento exponencial no número de internações hospitalares em algumas cidades, levando ao colapso o Sistema Único de Saúde”, comparou.

Ciência Sem Partido

O uso da cloroquina no Brasil virou um problema ideológico até entre docentes e pesquisadores. Há alguns meses, foi redigido um documento endereçado ao ministro da Saúde e assinado por 31 pesquisadores pedindo urgência na aplicação da cloroquina. “Chama a atenção que os signatários dessa carta pertencem a um organismo denominado Docentes pela Liberdade (DPL), como se houvesse professores e pesquisadores contrários a essa causa”, apontou Russo.

Ele continua seu relato, contando que em uma visita ao site do DPL, verifica-se que o grupo se autodefine como: apartidário, formado por docentes e profissionais de qualquer área, cujo interesse é recuperar a qualidade da educação no Brasil, “romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica”. Esse documento foi publicado no site Brasil Sem Medo, que tem em seu conselho editorial Olavo de Carvalho, guru do presidente e de seus filhos. “Não à toa, parte da diretoria do DPL foi contratada para trabalhar em diferentes postos do governo. Ou seja, ao contrário do que afirma em seu site, DPL é um grupo partidário identificado com o governo atual”, completa.

O classismo contra a Tubaína

Para finalizar, na opinião do imunologista, o presidente Bolsonaro cometeu “um erro e um ato falho” quando afirmou que quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma Tubaína. “Quem toma Tubaína é o povo, porque tem baixo custo. Ao associar a Tubaína ao que ele mais odeia, que é a esquerda, o presidente revela, por um ato falho, o seu viés de classe, qual seja, o seu desprezo pelo povo brasileiro ao se referir à Tubaína de forma pejorativa”, analisa.

Conforme avalia o professor da USP, a política atual do Ministério da Saúde em insistir na cloroquina e ser contra o isolamento social é, respectivamente, “uma charlatanice e uma excrecência” quando comparada ao que se preconiza na OMS e na maioria dos países. Em sua opinião, essa orientação capitaneada pelo presidente levará o Brasil, logo mais, ao topo de óbitos. “A culpabilidade dessa catástrofe deve ser imputada a alguém. Quem é o responsável? Quem vai julgar a charlatanice da cloroquina? Quando os culpados serão julgados por atos necropolíticos? Qual tribunal irá julgá-los? O que precisamos fazer para reverter essa tragédia anunciada?”, concluiu o médico, indagando-se.

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