Total de 10,3 mil indígenas infectados é maior que 3 países vizinhos

Número da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) é maior que o da Secretaria de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde. Servidores do Governo Federal e frigoríficos foram responsáveis por entrada do vírus nas aldeias.

Foto: Mídia Ninja

O Brasil tem 10,3 mil casos confirmados de covid-19 entre indígenas, segundo dados contabilizados nesta quinta-feira (2) pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O número é maior que o total de casos do Uruguai (947), Paraguai (2303) e Venezuela (6062), somados. A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, apresenta um número menor: 6,8 mil confirmados até esta quarta-feira (1º), que equivalem a 66% do levantamento feito pela entidade.

As mortes devido à covid-19 também apresentam divergência entre o informado pela sociedade civil e pelo governo. A comissão da Apib, que conta com entidades ligadas às comunidades indígenas, diz que são 408 mortos. Eles dizem que a Sesai listou 251 óbitos, mas no site da secretaria do ministério consta o número 158, que equivale a 38,7% do total contado pela Apib.

Ainda segundo as entidades, a Sesai não tem feito o atendimento e o registro dos indígenas infectados em contexto urbano. A Apib diz que “repudia a medida e exige a revogação da medida para que todos os indígenas sejam atendidos”.

A comissão dos povos explica que faz uma coleta de dados independente e descentralizada com a ajuda das diversas organizações que compõem a base da Apib. Nesse cálculo, também estão incluídas as bases da Sesai e das secretarias municipais e estaduais. Segundo o relatório, médicos, agentes da Sesai, e militares do Exército foram os introdutores do Sars-Cov2, o novo coronavírus, nas aldeias, inclusive as mais isoladas da Amazônia. No Centro-Oeste e Sul do país, funcionários indígenas de frigoríficos levaram o vírus para suas aldeias. Muitos se infectaram tentando buscar o auxílio emergencial nas cidades, além do contato com garimpeiros e desmatadores que invadem os territórios indígenas.

A Apib tem o Comitê Nacional pela Vida e Memória dos Povos Indígenas, formado por organizações ligadas diretamente às aldeias e ativistas de proteção aos índios. Os números de casos e mortes por covid-19 apresentados são maiores porque incluem povos de territórios tradicionais em áreas urbanas e rurais, segundo a organização.

Números crescem

Gráfico com números levantados até 25 de junho já revela a curva ascendente sem platô

Independente da base de dados, os números avançam em curva ascendente sem sinais de achatamento. Em 1º de junho, a Apib contabilizava 1,8 mil infectados em povos indígenasOs números da Sesai estavam em 1,3 mil casos confirmados. Ambos os registros tiveram um acréscimo perto de 500% em apenas um mês.

O povo Xavante foi o mais afetado na última semana, de acordo com a Apib. Entre 25 de junho e 2 de julho, foram 31 mortes. O primeiro caso na comunidade foi registrado em 9 de maio, com um crescimento de 158% apenas nos últimos sete dias. Nesta quarta-feira (1º), três índios da etnia morreram em decorrência da covid-19, em Barra do Garças, a 516 km de Cuiabá.

O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), Clarêncio Urepariwe, explicou que, na cultura Xavante, a família evita divulgar imagens dos mortos para que não fiquem lembranças e saudade.

Variação do número de mortes coletados pela Apib/Sesai

Cinco vezes pior

Além do que dizem os números de governo e entidades, um estudo coordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) revelou que a prevalência do vírus Sars-Cov-2 entre a população indígena urbana (5,4%) é cinco vezes à encontrada na população branca (1,1%).

O estudo divulgado nesta quinta-feira avaliou apenas moradores de cidades brasileiras e não entrevistou indígenas que vivem em aldeias. Pretos e pardos também apresentaram maior proporção de testes positivos que brancos, respectivamente 2,5% e 3,1%.

Para calcular essa relação entre os grupos, a equipe de pesquisadores considerou uma amostra de 89.397 pessoas submetidas a testes sorológicos – que identificam a presença de anticorpos para a covid-19 –, entrevistadas durante as três fases do estudo Epicovid19 em 133 cidades.

Prevalência da Covid em populações

Cor da pele Testados Positivos
Branca 32.383 372 (1,1%)
Parda 40.088 1.237 (3,1%)
Preta 11.304 282 (2,5%)
Amarela 2.446 52 (2,1%)
Indígena 1.217 66 (5,4%)

Fonte: UFPEL

O que diz o governo

Na única coletiva a respeito da saúde indígena diante da pandemia de covid-19, o governo federal disse que a Sesai monitora cerca de 750 mil aldeados e que há um milhão de indígenas no país – ou seja, 250 mil vivem em áreas urbanas.

Segundo a secretária-executiva do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Tatiana Alvarenga, os indígenas fora das aldeias “não deixaram de ser cobertos pelas ações”.

Marcelo Xavier, presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), disse no início de junho que foi feito um investimento de R$ 20,7 milhões de recursos emergenciais em ações de combate à pandemia. Ele lista, entre as medidas, entrega de cestas básicas e implementação de barreiras sanitárias contra a entrada nas terras indígenas.

Além disso, Robson Santos, secretário da Sesai, diz que o órgão tem como base os Distritos Sanitários Especiais Indígenas, compostos por postos de saúde dentro das aldeias indígenas. “A Sesai presta atenção primária dentro das terras indígenas”, explica.

Com informações do G1 e da Apib

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