Uruguai conseguiu controlar a covid-19 sem quarentena obrigatória

Como o vizinho sul-americano conseguiu manter sua taxa de mortes pelo coronavírus bem abaixo da média da região, apostando em conscientização, redução de salários de políticos, respeito à ciência e investimentos em saúde pública.

Luis Lacalle Pou em evento público durante a pandemia

Graças ao sucesso registrado até o momento, o Uruguai se tornou o único país em toda a América Latina a poder enviar turistas e visitantes para a União Europeia. Viajar não é o mais importante, mas sim os resultados do país na grande curva mundial da pandemia.

A América Latina tem quase metade de todas as mortes do mundo, assim como o Brasil tem um quinto delas. Mas o Uruguai não tem participação nenhuma nisso, se considerarmos que o país teve 29 mortes durante toda a pandemia, sendo apenas 2 durante todo o mês de junho. Não chega a mil os casos de doentes registrados no país.

Resposta rápida

Primeiro, que o Uruguai agiu com rapidez, em 13 de março, quando o país tinha apenas 4 casos de contágio. Foram suspensos fronteiras, voos, aulas, serviços religiosos e eventos públicos. Não houve lockdown, como em várias cidades brasileiras, nem confinamento rigoroso. Shoppings e grandes lojas de departamentos foram fechados, mas pequenos comércios continuaram abertos. Em abril, a construção civil voltou a funcionar com precauções e em maio, repartições públicas e o comércio reabriram as portas.

Um ponto importante, é que por lá, a pandemia não se tornou um fator de disputas políticas. Os partidos se uniram no apoio às medidas de combate à pandemia determinadas pelo governo. E esse apoio político se refletiu na sociedade. Tudo isso, logo após a posse do novíssimo presidente Luis Lacalle Pou.

Consenso nacional

Esse consenso nacional também reverberou nas mudanças na economia. O ministro da Saúde, Daniel Salinas, disse que as medidas eram baseadas em análises de especialistas (matemáticos, estatísticos, engenheiros, médicos, farmacêuticos etc). Essa união em torno da ciência ajudou a enfrentar temas polêmicos, como de onde tirar renda para quem ia ficar parado ou perder o emprego.

Esse financiamento veio da redução de 20% dos salários de servidores públicos que ganhassem mais de US$ 1800, a começar do presidente e seus ministros. Veio também dos impostos destinados a segurança social, lucros de 2019 do Banco da República, o banco estatal. Por outro lado, as contas de água e luz foram diminuídas ou canceladas por algumas empresas que fornecem esses serviços. Impostos também foram reduzidos ou postergados pelo governo.

Esse fundo fornece ajuda financeira e assistência alimentar para os mais vulneráveis, como os funcionários da indústria da construção afetados pelas paralisações de trabalhos da pandemia.

Entendimento dos riscos

A população parece ter entendido os riscos da doença, mesmo sem ser obrigada a fazer o confinamento. Assim, o governo conseguiu que a população se protegesse. Pou disse que não iria limitar a liberdade individual, e que se as pessoas fossem sair, que se protegessem. Na verdades, as pessoas ficaram em casa. Pesquisa da consultoria Cifras verificou que 90% das pessoas preferiram se proteger em casa e que os comerciantes não abriram, porque sabiam que as pessoas não iriam comprar.

Sistema de Saúde

Como o SUS brasileiro, no Uruguai, o sistema de saúde é universal e ofereceu atendimento domiciliar para evitar que as pessoas fossem a clínicas e hospitais e acabassem contaminando outras pelo caminho, ou então, se contaminassem.

Os resultados foram bastante positivos. Foram realizados 67.533 testes, que verificaram 943 pessoas infectadas. O país ampliou os leitos em 50% mas ainda não precisou utilizá-los. Há somente uma pessoa na UTI, neste momento, de acordo com o governo.

Índices sociais

Os bons índices sociais comparados com o Brasil também ajudaram.

A oferta de 100% de água potável, por exemplo, não torna um desafio a recomendação de lavar as mãos, como é o caso do Brasil, onde mais de 18 milhões de pessoas não recebem sequer água encanada. No Nordeste, uma em cada quatro casas não tem abastecimento normal.

O Uruguai tem a seu favor uma baixa concentração populacional. Eles não só têm uma população pequena de 3,5 milhões de habitantes, o equivalente ao estado do Rio Grande do Norte, como também têm 20 pessoas por quilômetro quadrado. Isso acaba facilitando as medidas de distanciamento social. No Brasil, temos mais de 200 milhões de habitantes e uma média de 25 pessoas por quilômetro quadrado, sendo que em São Paulo, a proporção é de 177 pessoas por quilômetro quadrado.

Mas o Uruguai não comemora vitória antecipada e continua de olho no inimigo. No início de julho, a descoberta de duas pessoas infectadas num barco lotado em Maldonado, acendeu o alerta para o risco de infecção de até 400 pessoas. Por isso, o Uruguai investe muito em testagem da população, algo que no Brasil ainda é um grande desafio.

Publicado em BBC News.

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