De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A repreensão do presidente da Comissão Relações Exteriores da Câmara dos Deputados dos EUA ao deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, para que “fique de fora” das eleições do país é um dos destaques da analise internacional de Ana Prestes, que também fala de uma pesquisa que revela a rejeição das mulheres a Donald Trump. A cientista política analisa também temas como a expansão da pandemia de Covid-19 na América Latina, a denúncia contra Jair Bolsonaro no Tribunal de Haia, as tensões em torno da próxima cúpula do G7 e a “crise dos consulados” entre China e EUA.

Ilustração: Aroeira

A comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados dos EUA fez uma reclamação formal sobre um vídeo publicado pelo deputado Eduardo Bolsonaro no domingo (26). A manifestação, assinada por Eliot Engel, presidente da comissão, posição homóloga à de Eduardo Bolsonaro na Câmara dos Deputados em Brasília, diz que a família Bolsonaro precisa “ficar fora” das eleições dos EUA. No vídeo, o presidente Trump é enaltecido e sua ex-adversária Hillary Clinton, assim como os ex-presidentes Bill Clinton e Barack Obama são depreciados.

Por falar em EUA e eleições, saiu nesta segunda-feira(27) na coluna do jornalista Kennedy Alencar, no UOL, que o maior obstáculo para a reeleição de Trump talvez seja a grande rejeição que ele possui na maioria do eleitorado feminino. Uma pesquisa feita entre 9 e 13 de julho, pela Universidade de Quinnipiac mostra Joe Biden com 52% contra 37% de Trump, mas quando a pergunta é para mulheres, Biden fica com 59% e Trump 31%. Entre os homens, eles empatam em 44% cada. A pressão de Trump para a volta do país ao “normal”, especialmente com reabertura das escolas, é rejeitada por 69% das mulheres, entre os homens a desaprovação é de 52%. Outra pesquisa feita praticamente nas mesmas datas, entre 12 e 15 de julho, pelo Washington Post e a TV ABC, mostra que 57% dos americanos desaprovam a gestão de Trump e 39% aprovam, entre as mulheres a desaprovação chega a 66%, entre os homens é de 44%, como na outra pesquisa. Entre os que apoiam Trump, 31% são mulheres e 48% são homens. Kennedy lembra bem que em 2016, a força do eleitorado feminino repercutiu nas eleições dos democratas para a Câmara de Representantes. Semana passada, um discurso de uma dessas democratas de maior destaque, Alexandria Ocasio-Cortez, contra agressões verbais misóginas do republicano Ted Yoho repercutiu sobremaneira.

O continente americano já está há algumas semanas como o epicentro mundial da pandemia do novo coronavírus, mas agora a América Latina superou o número de casos da América do Norte, com 4,34 e 4,2 milhões de casos respectivamente. Só o Brasil possui a metade dos casos de toda a América Latina. Em número total de mortes por região, a Europa segue na liderança com 207.933, seguida por América Latina e Caribe com 182.840 e Canadá 155.673. (Meio)

O presidente Bolsonaro foi denunciado junto ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, na Holanda, por “falhas graves e mortais na condução da pandemia de Covid-19”. A denúncia foi feita por profissionais de saúde brasileiros organizados na UNISaúde em forma de representação criminal. O documento foi enviado para a procuradora-chefe da Corte, Fatou Bensouda. Outro trecho do documento diz que “ações e omissões do senhor Presidente da República afetam de forma grave, a saúde física e mental da população, colocando-a em situação de risco a um vírus de alta letalidade (…) a exposição de milhões de pessoas é crime contra a humanidade”. Essa é a quinta representação feita em Haia com denúncias contra Bolsonaro, uma delas é com relação ao genocídio de comunidades indígenas e tradicionais e as outras três têm relação com a condução do presidente durante a pandemia.

A readmissão da Rússia no G7 ainda não será desta vez. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, tem dito que não vê chance de permitir o retorno enquanto não houver progresso na resolução do conflito com a Ucrânia em torno da região da Crimeia. A proposta de retorno da Rússia foi feita por Trump que será o anfitrião da cúpula de presidentes do bloco esse ano. O presidente americano quer ter outros países além da Rússia como convidados, como Índia, Austrália e Coreia do Sul. Segundo Trump, “o G7 não está “propriamente representando o que está ocorrendo no mundo”. Mas nem cogita convidar a China.  O G7 mais Rússia funcionou entre 1998 e 2014, quando o país foi retaliado por realizar referendo popular na Crimeia e posteriormente anexar o território. Em 2017, a Rússia deixou oficialmente o bloco. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirma que há uma clara conotação russofóbica no G7. Lavrov também disse nos últimos dias que uma reunião de um G7 expandido seria pouco efetiva sem a participação da China.

Por falar em China e EUA, este mês de julho foi marcado por um novo passo na tensão entre os dois países. No dia 22, os EUA ordenaram o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas, com acusações de espionagem e roubo e propriedade intelectual, sem detalhar do que falava exatamente. Em retaliação, no dia 24, a China fechou o consulado dos EUA m Chengdu, no sudeste do país. Em nota, o governo chinês disse que “os EUA violaram seriamente o direito internacional, as normas básicas das relações internacionais e os termos da Convenção Consular China-EUA”. Pelo governo dos EUA, Mike Pompeo disse que “se quisermos ter um século 21 livre, e não o século chinês dos sonhos de Xi Jinping, o velho paradigma de acordos irrestritos com a China não vai dar conta”. Mesmo que o consulado de Chengdu não seja um dos mais importantes, como os de Hong Kong, Xangai e Guangzhou, ele está localizado em região estratégica para os EUA, perto do Tibet e de Xinjiang, regiões com conflitos explorados pelos americanos para atacar a China. A “crise dos consulados” como tem sido chamada internacionalmente pode ser a mais séria crise diplomática entre os dois países desde 1979. Em ambas instalações foram vistas cenas da entrada de funcionários do país anfitrião, que sedia a representação diplomática, na tomada das instalações físicas. Somem-se a isso as recíprocas expulsões de jornalistas, as tensões em torno do reconhecimento de Taiwan como estado independente pelos EUA, as retaliações em relação à política chinesa em Hong Kong, Tibet e Xinjiang, a mudança de postura dos americanos no Mar do Sul da China. O secretário de Estado Mike Pompeo começa a ser seriamente questionado dentro dos EUA por sua postura anti-diplomática e sem referência na história em relação à China.

O brasileiro Roberto Azevedo deixou oficialmente o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ele foi por sete anos o chefe do organismo. Ele ainda tinha um ano de mandato, mas optou por antecipar a saída em um momento em que, segundo ele, a OMC está tomada por “fortes ventos políticos” e tensões no comércio internacional. A organização conta hoje com 164 países e muitos desafios, como a própria pandemia evidenciou. Continua emperra a negociação da Rodada de Doha, de flexibilização do comércio mundial e a tensão entre EUA e China é de enlouquecer mesmo qualquer diretor-geral da OMC. Alguns países já apresentaram candidatura ao cargo, como México, Nigéria, Egito, Moldávia, Quênia, Coreia do Sul, Arábia Saudita e Reino Unido, sendo que três são candidatas mulheres.

Uma reportagem em conjunto com jornalistas do Repórter Brasil e do The Guardian de ontem (27) trata da conexão entre a JBS, descrita como a maior companhia de carne do mundo, com os incêndios e o desmatamento na Amazônia. A matéria trata de uma prática de “triangulação de gado”, quando uma fazenda multada por desmatamento ilegal transfere seu gado para outra propriedade “ficha-limpa” para abastecer os frigoríficos de uma empresa, no caso a JBS. A empresa é uma das gigantes do mercado internacional também por seu alegado compromisso, e bom marketing, em torno de sua conduta ambiental. Por exemplo, ao não adquirir gado de fazendas que não seguem as regras do Ibama. A reportagem revela que além de não fazer isso, a JBS ainda fornece o serviço de transporte entre as fazendas ilegais para as legais.

E uma última nota sobre uma ação do Itamaraty que é de encher de vergonha todos que admiram o órgão máximo de nossas Relações Exteriores. O ministério admitiu ter intercedido junto à embaixada dos EUA para obter um visto especial de entrada para Weintraub, quando este já não era ministro da Educação e não tinha mais direito a passaporte diplomático. Segundo o Itamaraty, o chanceler Ernesto Araújo concedeu em fazer o trâmite, pois Weintraub havia comunicado que assumiria cargo de diretor-executivo no Banco Mundial. O documento enviado pelo Itamaraty para a embaixada americana contém conteúdo falso, pois diz que Weintraub cumpriria missão no BM entre 19 de junho (mesma data em que foi exonerado e viajou) e 31 de dezembro de 2020, sendo que estamos no final de julho e a escolha do novo diretor-executivo nem foi realizada ainda.

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