De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A cientista política Ana Prestes analisa os principais acontecimentos do cenário internacional.

Michelle Obama foi o principal destaque do primeiro dia da convenção do Partido Democrata, nos EUA

Começou ontem (17) a Convenção Nacional do Partido Democrata nos EUA. O tom geral da convenção tem sido da unidade para derrotar Trump. O discurso que mais repercutiu no país e no exterior foi o de Michelle Obama. Entre outras frases de impacto, ela disse: “Donald Trump é o presidente errado para o nosso país” e arrematou: “se temos alguma esperança de acabar com esse caos, temos de votar por Biden como se nossa vida dependesse disso”. Outra fala que repercutiu foi a do governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, que fez uma comparação entre os EUA e a Covid-19 dizendo que o país está doente. Segundo ele, “a divisão (do país) criou Trump. Ele só a fez pior”. Outro tom da convenção foi a humanização de Biden ressaltando suas perdas pessoais do passado, como da esposa e dois filhos, e colocando-o como um líder tocado pelas dores humanas. Daí, o salto foi para a tragédia da pandemia do coronavírus e as perdas humanas, com depoimentos de familiares que acreditaram nas fake news de Trump sobre o vírus e não se engajaram nas medidas preventivas. Outra expectativa que havia quanto à Convenção era a postura de Sanders, que se revelou de apoio a Biden e discurso unitário. A convenção ainda continua em curso. Outra marca da convenção foi o incentivo para que as pessoas votem pelos correios. Trump tem adotado um discurso anti-voto por correios e defende uma tese de que esse tipo de voto pode “gerar fraudes”, inclusive com tentativa de barrar esse tipo de voto pela justiça. Há dados de que os democratas estão superando os republicanos na solicitação de cédulas por correio. É bom lembrar que nos EUA o voto não é obrigatório e o eleitor pode escolher como votar: ir à urna no dia da eleição (3 de novembro), votar antecipadamente ou votar pelo correio (solicitando a cédula com antecedência). Com a pandemia18 e a necessidade de distanciamento social fez com que os Estados deixassem de exigir justificativa para o voto pelo correio.

Foi divulgado hoje (18) o veredito de 2600 páginas de juízes do Tribunal Especial para o Líbano, com mandato do Conselho de Segurança da ONU e com sede em Haia, que investigava a morte do ex-primeiro ministro do Líbano Rafik al-Hariri e outras 21 pessoas em um atentado a bomba em 2005. O julgamento começou em 2014. O anúncio do veredito inicialmente estava previsto para 7 de agosto, três dias após as explosões no porto de Beirute, em 4 de agosto. Quatro pessoas foram investigadas ao longo do processo. Todas elas são alegadas como membros do Hezbollah, que na época anunciou não ter relação com o atentado e não reconhece o julgamento. Das quatro pessoas, uma foi julgada culpada e as outras três absolvidas. As provas documentadas referem-se especialmente aos aparelhos celulares apreendidos na investigação. Logo no início da leitura, o juiz presidente, David Re, disse que o julgamento não encontrou nenhuma prova de participação direta do Governo da Síria ou do Hezbollah no atentado.

Os EUA alegam terem confiscado combustível iraniano que estaria a caminho da Venezuela. Segundo as próprias autoridades americanas em entrevistas à imprensa, não teria havido uso de força militar para confiscar mais de um milhão de barris de combustível, mas sim ameaças de sanções aos proprietários dos navios, as seguradoras e os capitães. Teria sido, assim, forçada a entrega da carga, em uma prática absolutamente fora de qualquer parâmetro do direito internacional. No entanto, o Embaixador do Irã em Caracas, Hojat Soltani, disse que os navios “nada têm a ver com o Irã”. Segundo ele, “os navios não são iranianos, nem o proprietário, nem sua bandeira”. O Ministro de Energia do Irã, Bijan Namdar Zanganeh, também negou que o combustível fosse iraniano. O Ministro de Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, chegou a chamar os americanos de “piratas do Caribe” ao comentar o caso no twitter no último sábado (15).

Aliás, os EUA tiveram uma derrota significativa no Conselho de Segurança da ONU ao tentar estender uma resolução de embargo armamentício contra o Irã. Eles precisavam de nove votos “sim”, mas só tiveram um, da República Dominicana, membro não permanente. Onze países, entre eles França, Alemanha e Reino Unido, se abstiveram. Rússia e China votaram contra. Mike Pompeo reagiu assim: “o fracasso do Conselho de Segurança em agir decisivamente na defesa da paz e segurança internacionais é imperdoável”. Embaixador da China na ONU, Zhang Jun, disse: “mais uma vez mostra que o unilateralismo não recebe apoio e o bullying vai falhar”.

Segue reverberando o anúncio do acordo firmado entre Israel e os Emirados Árabes Unidos. O termo foi assinado entre o premiê israelense Benjamin Netanyahu e o príncipe herdeiro dos emirados Mohammed bin Zayed al-Nahyan. Trump fez questão de participar pessoalmente das tratativas finais. São dois estados que não possuíam relações diplomáticas. O acordo vem bem a calhar para Netanyahu e Trump, que vem sofrendo reveses políticos internos em seus países. Já para os Emirados, serve para promover o príncipe herdeiro como um “líder moderado” em flagrante antagonismo com o Irã. O líder da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, protestou ao dizer que se trata de uma traição dos Emirados Árabes. O Hamas também se manifestou condenando o acordo. Para firmar o acordo, Israel disse estar “disposto a suspender a declaração de soberania” sobre a Cisjordânia, algo previsto no “Acordo do Século” anunciado por EUA e Israel no começo do ano e que seria implementado em julho deste ano. Nos últimos dias Netanyahu já deu sinais de que a suspensão da anexação é algo falso. Outros dois países da região possuem acordos semelhantes com Israel após guerras, Egito e Jordânia.

Com a manutenção do número de casos de coronavírus em alta, o Brasil se tornou campo de testes para vacinas. A ANVISA autorizou mais uma farmacêutica a realizar testes. Agora foi a Janssen-Cilag, do grupo Johnson & Johnson, da Bélgica. Sete mil brasileiros serão recrutados para a fase três dos testes, segundo reportagem do Uol. Essa é a quarta vacina testada no Brasil, as outras são a da Universidade de Oxford/Astrazeneca, Sinovac da China e a da Pfizer/BioNTech.

O Equador está em fase de primárias eleitorais. Foi lançado hoje o binômio Andrés Arauz Galarza e Rafael Correa, como pré-candidatos à presidente e vice na chapa União pela Esperança dentro do partido Centro Democrático, uma vez que o partido Força Compromisso Social está embargado pela justiça equatoriana. Tanto Arauz como Correa estão fora do país e ainda não se sabe se a candidatura será validada pelo CNE. Por enquanto as datas eleitorais estão assim: anúncio oficial das eleições – 17 de setembro; inscrição das candidaturas – 18 de setembro a 7 de outubro; eleições – 7 de fevereiro de 2020; segundo turno – 11 de abril. Tudo indica que será longo e conflituoso esse processo.

A imprensa europeia noticiou um diálogo entre Putin e Merkel sobre a situação da Bielorrússia. Desde as eleições, o país encontra-se conflagrado com manifestações contestando o resultado de vitória com mais de 80% dos votos para Lukashenko e forte repressão policial. Segundo o noticiário, Merkel teria dito que o governo bielorrusso deveria se abster da violência, libertar os prisioneiros e iniciar um diálogo com a oposição. Por sua vez, Putin teria alertado que qualquer tentativa de intervenção externa nos assuntos internos da Bielorrússia não seria aceitável. Há conversações em curso também entre Putin e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel e Putin com Emanuelle Macron.

Na Bolívia, o partido do ex-presidente Evo Morales anunciou que aceita a data das eleições fixada para 18 de outubro, desde que não seja uma vez mais adiada. Mas notícias que circulam hoje, a partir do portal Plurinacional, alertam para um novo plano do governo de fato para suspender as eleições. Segundo as informações, o governo Añez estaria coordenando a renúncia de suplentes do TSE – Tribunal Eleitoral para esvaziar seu quórum.

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