No Recife um corpo oculto expõe nossa crueldade cotidiana

Como a morte de um trabalhador num supermercado do Recife expôs as contradições do capitalismo e o desprezo pela vida do trabalhador.

Foto: Renato Barbosa

Existe aquele ditado que diz que a vida imita a arte. Mas é a arte, através do olhar atento do artista, que simula acontecimentos da vida ou da morte. Porque infelizmente, as nossas idiossincrasias sociais não mudam de forma tão relevante. Muitas vezes até se aprofundam mais.

Assim foi na sexta-feira passada, dia 14 de agosto, quando um trabalhador morreu no meio de um supermercado no Recife. No meio do Carrefour. Ficou ali, caído, como um produto perecível em decomposição, jogado na parte errada do centro de compras, como ficam os produtos descartados pelos consumidores, só que escondido entre guarda-sóis, papelões e caixas de cerveja.

É que o lucro, o santo graal do deus mercado não pode cessar. O trabalhador, como produto do capital, como peça descartável e substituível, não pode fazer com que o mar do consumo tenha seu curso interrompido. Nem mesmo o nosso Moisés conseguiu abrir esse mar vermelho-sangue para se mostrar. Não! Ele ficou ali oculto como numa região abissal.

Moisés estava na loja a trabalho. Talvez naquela sexta ele não tenha imaginado o que pudesse acontecer. Talvez tenha saído de casa, beijado a família e simplesmente seguido, como fazia todos os dias. Só que nessa sexta, véspera de um descanso que os trabalhadores sempre esperam, ele simplesmente passou mal e infartou.

É, a arte copia a vida ou a morte, como cantou Chico Buarque em “Construção”:
“E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público”.

Uma realidade que não cessa!

Moisés, ali, morto e oculto num supermercado de um bairro de classe média recifense – desigual e cercado de favelas – infelizmente não é exceção. Em 2019 o modelo Tales Cotta morreu depois de passar mal enquanto desfilava no prestigiado evento de moda brasileiro, São Paulo Fashion Week. O corpo ficou ocultado também no backstage do desfile, para ele que não parasse. E não parou.

Em 2015, no Rio de Janeiro, um homem chamado Adílio foi atropelado por um trem e o corpo ficou nos trilhos, sendo triturado pelo fluxo incessante de toneladas de aço em movimento. A SuperVia, empresa que detém concessão pública para operar os serviços ferroviários na cidade, disse que autorizou a passagem para não atrapalhar o fluxo.

Adílio, assim como Jesus, tinha 33 anos quando morreu. Assim como Jesus, Adílio havia sido preso. Mas infelizmente ele não ressuscitou no terceiro dia e ninguém, além de sua família, comemora seu aniversário todos os anos.

Ser trabalhador no Brasil é como disse Darcy Ribeiro: “a elite usa o trabalhador como carvão”. Tem serventia enquanto puder dar algo, enquanto eles puderem moer ao máximo para extrair suor, sal e pagar baixos salários. Quando isso cessa ou quando lutam por seus direitos e sonhos, se tornam para essa elite um estorvo descartável, como canta o Mundo Livre SA: “a alma do trabalhador é como um carro velho. Só dá trabalho”.

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