Desigualdade social, pandemia e democracia

Por Elder Vieira* O COVID-19 não escolhe a quem contaminar. Essa é uma afirmação que corre mundo, e a ciência […]

Por Elder Vieira*

O COVID-19 não escolhe a quem contaminar. Essa é uma afirmação que corre mundo, e a ciência a corrobora. Contudo, se um vírus, por sua natureza, não tem como de per si escolher vítimas, as condições fazem as vezes. A pandemia que assola o planeta tem posto em evidência que as desigualdades sociais selecionam a maioria trabalhadora e pobre como a principal vítima da doença.

Alguns dados demonstrativos disso**:

Nos Estados Unidos da América do Norte e no Reino Unido, morrem 4 vezes mais negros do que brancos – dados de maio.

Entre os britânicos, os imigrantes asiáticos são o dobro das mortes verificadas na média geral.

As localidades norte-americanas de maioria negra concentraram em março quase 60% dos casos de mortes.

Num único subúrbio de Paris, 1 em cada 3 moradores vive abaixo da linha de pobreza. Lá, em março, se registrou 62% mais mortes do que a média.

As razões não são étnicas, raciais, culturais. As razões são econômicas e sociais. A razão é a desigualdade. Todos estes dados se relacionam à vulnerabilidade sanitária provocada por condições   materiais inadequadas. Morrem mais trabalhadores e pobres de COVID porque são pobres e trabalhadores.

A América Latina tem 8 países dentre os 20 mais desiguais do mundo, segundo a ONU. O líder da desigualdade na região é o Brasil.

Aqui, somente 3% está na faixa de renda alta. Três quartos situam-se nas classes baixas e média-baixas. Cerca de 60% de nossa força de trabalho está na informalidade, ou seja: sem proteção e garantias sociais, com baixa ou nenhuma renda, socialmente vulnerável.

Na cidade de São Paulo, enquanto em Moema e Jardim Paulista, bairros ricos, a vida vai até os 80 anos; no Grajaú e na Cidade Tiradentes, bairros pobres, a vida não passa dos 60 anos. Em Moema e no Jardim Paulista, temos 130 mortes por COVID. No Grajaú e Cidade Tiradentes, temos 3 vezes e meia mais mortes: 460 pessoas perderam a vida para o COVID. 

Jardim Ângela e Grajaú são compostos, cada, por uma população entre 57 e 60% negra. Temos lá 507 mortes por COVID. Alto de Pinheiros e Moema têm entre 6 e 8% de negros. São 110 as mortes.

São Paulo tem onze distritos que não tem favelas. Dentre eles, temos Alto de Pinheiros, com 44 mortes por COVID, Jardim Paulista, com 64, e Moema, com 66. São 174 mortos, somados.

Já a Brasilândia, onde 30% das moradias são em favelas, temos 277 mortes. Vila Andrade, com 49% de seus domicílios em favelas, tem 86 mortes. Sacomã, com 28% de casas em favelas, tem 226 mortes. São mais de 500 mortos pelo COVID contra os 174 dos bairros sem favelas.

Sabemos qual a raiz da desigualdade: é o regime de propriedade privada, surgido lá na Antiguidade. Ele desde muito tempo vem excluindo a maioria de direitos. Mas desde o século XIX, desde o triunfo do Capitalismo, a concentração de riqueza e a exclusão aumentaram vertiginosamente. Com o neoliberalismo, isso só piorou. Com o ultra-liberalismo autoritário que vem sendo implantado no mundo pelos financistas, o que temos é uma explosão da desigualdade social, que é a raiz das demais desigualdades: a de gênero, as regionais, as etárias, as étnicas, etc.

A desigualdade social não compromete somente o combate à pandemia, compromete e desestabiliza as democracias, o que piora as condições de combater a crise econômica e a própria pandemia. Sem democracia não há como mobilizar amplas e diversificadas forças para enfrentar e superar uma crise.

O Brasil é o grande mau exemplo de novo: aqui vivemos, desde 2016, ataques à Constituição e à democracia. Em 2019, toma posse um presidente de viés autoritário, anti-democrático,  mais interessado em atender aos interesses estrangeiros e rentistas que o elegeram do que liderar o País no combate à crise econômica e ao vírus. E combater a crise e o vírus é combater a desigualdade. Ao invés disso, o presidente e seu ministro da economia trabalham para aprofundar a desigualdade, e se desresponsabilizam de seus deveres constitucionais.

Combater o COVID e a desigualdade são hoje uma mesma coisa. Como não se pode contar com o Governo Federal, faz-se necessário:

1 – Unir o máximo de brasileiras e brasileiros, governantes, lideranças e parlamentares estaduais e municipais comprometidos com suas comunidades, numa grande corrente política de solidariedade, em defesa da vida, da democracia e dos direitos do povo, com o fito desenvolver ações de combate ao vírus e seus efeitos econômicos sociais.

2 – Nas próximas eleições, eleger o máximo de prefeitos e vereadores comprometidos com a causa do combate às desigualdades sociais.

3 – Por fim, daqui até 2022, construir um caminho que nos livre da insanidade que tomou conta do comando da República brasileira.

*Elder Vieira, escritor e gestor público, é Secretário de Formação e Propaganda do PCdoB-SP.

** Os dados mundiais e do Brasil são da Organização das Nações Unidas. Os da cidade de São Paulo, do Portal Nossa São Paulo.