A surpreendente história do Festival da Ilha de Wight de 1970

Kris Kristofferson odiou, o apresentador subiu nas tamancas e chamou o público de porcos, mas 50 anos atrás o esplendor da contracultura de um fim de semana na Ilha de Wight estabeleceu o tom para a cultura dos festivais ao ar livre no Reino Unido.

Jimi Hendrix tocando no Festival da Ilha de Wight de 1970. I Foto: Getty Images

Para os rebeldes da contracultura vindos de Southampton, na Inglaterra, aquilo era como uma peregrinação. Cruzando em balsas o Estreito de Solent, com maconha e violão na bagagem, vinham tocar o terror naquilo que se julgava ser o Woodstock britânico. Para a população residente da Ilha de Wight, no entanto, aquilo era antes uma invasão – 600 mil hippies tomando conta das colinas de Afton Down e mostrando energia para dançar madrugada adentro ao som de bandas e roqueiros libertinos como The Who, The Doors e Jimi Hendrix, todos com certeza drogados, destrutivos e sexualmente transviados.  

Em termos culturais mais amplos, contudo, o Festival da Ilha de Wight de 1970 – de longe o maior festival ao ar livre ocorrido no Reino Unido (RU) até então – revelou-se um divisor de águas. Quando há 50 anos abriram-se os portões do Festival, a proporção e o sucesso do evento (em tudo, menos em termos financeiros) fizeram dele não apenas a essência da liberação dos anos 60, mas também o apogeu. Se Woodstock havia cristalizado o sonho dos anos 60 em agosto de 1969, a violência de Altamont veio despedaçá-lo apenas quatro meses depois, quando o jovem negro Meredith Hunter, de 18 anos, foi esfaqueado e morto, quando os Rolling Stones estavam ainda em cena. Era o sinal para o glam rock entrar em cena, calcando no topo das paradas suas botas de salto-plataforma, enfeitadas de lantejoulas. Enquanto evento singular de grandes proporções, o Festival da Ilha de Wight de 1970 viria fechar a década de 60, representando o derradeiro sopro de vida para a geração flower power. Muitos viram no clarão que se expandiu pelo teto do palco do Festival, depois do show de Hendrix, um símbolo a indicar que os anos 60 se esvairiam em fumaça.

É também necessário observar que, se por um lado representou um fim, o Festival da Ilha de Wight 1970 marcou por outro igualmente um início. Foi com certeza o modelo para outros grandes festivais ao ar livre, como Glastonbury, e enraizou para sempre no âmago do verão britânico o típico fim de semana hedonista e riponga. Já o fato de o Festival ter ocorrido foi em si um pequeno milagre. Os organizadores, os irmãos Ray, Bill e Ron Foulk, tinham lançado o festival em 1968, mas com duração de apenas um dia e para um público de no máximo 10 mil pessoas. A banda Jefferson Airplane foi então a atração principal. No ano seguinte os ilhéus tiveram enorme surpresa quando viram 150 mil pessoas aportar na ilha para assistir Bob Dylan tocar depois de três anos longe dos palcos.

“A gente se deu conta de que, pra fazer as pessoas irem à Ilha de Wight pra um festival, era preciso contratar um artista muito especial”, diz Ray Foulk, autor da obra em dois volumes When the World Came to the Isle of Wight [“Quando o mundo foi à Ilha de Wight”, em tradução literal, já que ainda sem publicação em português]. No livro ele narra toda a história da gênese do Festival. “Os Beatles não estavam fazendo shows ao vivo. Você tinha então Elvis Presley, mas Elvis já não estava no seu melhor. Então pensamos no Bob Dylan. Na verdade, a gente não conhecia ninguém mais que pudesse atrair público, que fizesse o pessoal cruzar o mar até a Ilha. Então, nos decidimos pelo Bob Dylan e tivemos muita sorte de conseguir contratar o cara – foi um golpe de sorte formidável! O mundo todo estava pondo o pé na estrada rumo à Ilha de Wight, e era gente pra caramba. Era então o início dos grandes festivais”.

Para o evento de 1970, como não houvesse um nome popularmente atrativo como Dylan disponível, os irmãos Foulk decidiram abarrotar o programa com os maiores nomes que puderam contratar: entre outros, The Who, Joan Baez, The Doors, Joni Mitchell, Leonard Cohen, Miles Davis, The Moody Blues, Jethro Tull e um tal de Jimi Hendrix. “Hendrix não era ainda conhecido como o gigante que então depois se tornaria”, Ray diz. “Hoje a garotada pensa que Hendrix era então maior que Bob Dylan, mas a gente via a Joan Baez como provavelmente o maior nome de todos. Não tratamos o Hendrix do mesmo modo como tínhamos tratado o Dylan, como se ele fosse um superstar. Nem sequer nos incomodamos em arrumar transporte pra ele. Mas Hendrix cresceu de estatura entre o momento em que o contratamos e o dia do evento. É que o filme Woodstock lhe deu visibilidade e transformou o cara numa grande estrela”.

The Who em sua histórica apresentação no Festival da Ilha de Wight de 1970. I Foto: Rex

E foi também o filme Woodstock, lançado em março de 1970, que atiçou o apetite europeu por sua própria utopia hippie, intensificando o terror dos residentes da Ilha de Wight, que já vinham se mobilizando contra outro festival ao ar libre na ilha, com toda a nudez, as drogas, o vandalismo, as doenças e a degradação que um tal evento com certeza traria consigo até a porta de suas casas. O deputado do Partido Conservador Mark Woodnutt, representante da ilha no Parlamento, passou três meses, em vão, tentando convencer seus colegas do legislativo a proibirem o evento no seu condado.

“Tivemos que lutar como feras aquele ano inteiro para manter a possibilidade de realizar o evento”, Ray diz. “Tivemos enorme dificuldade para conseguir um local porque, onde quer que fôssemos, nossos opositores estavam sempre valendo-se de golpes baixos para ameaçar os proprietários, além de várias outras coisas”. Ray recorda um desses opositores, magnificamente denominado Almirante Sir Manley Power, para quem os festivais tinham se submetido ao poder negro e ao comunismo. “Assim era como pensavam. Achavam que toda a coisa da droga era uma ameaça, que a promiscuidade sexual era uma ameaça, que a coisa política dos jovens radicais, enfim, que tudo fazia parte do modo de ser hippie”.

Quando os Foulks por fim conseguiram garantir um local junto à colina de Afton Down, de propriedade de David Clarke, por oito mil libras esterlinas (algo em torno de 59 mil reais hoje), tiveram ainda de enfrentar um assalto noutro fronte. Enquanto se esforçavam para construir cercas que impedissem as pessoas de se alojarem na colina – de onde por certo teriam uma excelente vista do palco, mas sem precisar pagar as três libras esterlinas de entrada (uns 22 reais hoje) –, grupos radicais franceses derrubavam-nas para construir abrigos, porque defendiam que toda música deveria ser gratuita (já tinham inclusive, pela mesma razão, impedido dois festivais na França naquele mesmo ano). “Houve muita briga enquanto tentávamos construir esse muro do lado da colina”, Ray recorda, “mas no início eram 50, no máximo 100 pessoas apenas. Depois, esse número foi aumentando e então tivemos de desistir do muro e nos conformar com um montão de furões acampados ali na colina”.

Na verdade, foram mais de meio milhão de pessoas acampando no que ficou conhecido naquele fim de semana como a Colina da Devastação. John Giddings, que acabaria revivendo o festival em 2002, organizando-o como parte principal dos festivais britânicos até os dias de hoje, lembra-se de ir ao festival em 1970, quando ainda estava na escola. “Você subia a colina e olhava pra baixo. Incrível! Eram 600 mil pessoas espalhadas no campo. Foi uma das melhores coisas que vi na vida. Nunca tinha me dado conta antes de que podia haver tanta gente que gostasse da música que eu gostava. Era demais fazer parte de algo tão grandioso. Você podia falar com as pessoas, porque era uma experiência compartilhada. Foi um rito de passagem”.

Desde o início, a multidão deu sinais de desordem. Já na noite de abertura (uma quarta-feira), Kris Kristofferson, cujo show encontrou problemas de som (afinal, o equipamento do festival não era adequado para 600 mil pessoas), foi vaiado quando já fora do palco, porque as pessoas tinham entendido que sua canção “Blame it on the Stones” [algo como “A culpa é dos Stones”] era um ataque contra os Rolling Stones, quando, ao contrário, atacava seus críticos. “Foi um desastre total”, ele diria mais tarde. “As pessoas nos odiaram. Odiaram tudo. Vaiaram a gente, Joni Mitchell, Joan Baez, Sly Stone. Atiraram merda no Jimi Hendrix! No final da noite, as pessoas estavam pondo abaixo cercas, atiçando fogo na propriedade, em suas próprias barracas, berrando obscenidades. Paz e amor, aquilo com certeza não era”.

Joni Mitchell no Festival da Ilha de Wight de 1970. I Foto: Rex

No filme Message to Love (1995), do cineasta estadunidense Murray Lerner, que é na verdade um documentário sobre o Festival da Ilha de Wight de 1970, também se focalizam os distúrbios causados pela multidão, sobretudo quando as apresentações dos artistas sofrem interrupções de pessoas que deliberadamente invadem o palco. No sábado à tarde, por exemplo, Joni Mitchell teve sua apresentação interrompida por um hippie chamado Yogi Joe [algo como “Zé Iogue”], que de bongô em punho fazia todo um discurso sobre o acampamento construído com fardos de feno, que as pessoas tinham batizado de “Desolation Row”, em homenagem à canção de Dylan. A pessoal da Sly and The Family Stone decidiu abreviar seu show na madrugada de domingo quando uma das latas que o público atirava naqueles que indevidamente subiam no palco atingiu o guitarrista Freddie Stone. 

A polícia confiscou motos e armas dos Hell’s Angels ainda antes de estes embarcarem para a ilha, e agentes disfarçados de hippies, com perucas e tudo, fizeram dúzias de prisões por porte de drogas – um chapéu circulou na multidão, conseguindo levantar 1,5 mil libras esterlinas (cerca de 11 mil reais) para pagar a fiança desse povo. Durante todo o fim de semana, as cercas que marcavam o perímetro do Festival estiveram sob o ataque dos extremistas defensores da gratuidade. No domingo à tarde, o apresentador Rikki Farr subiu nas tamancas e, aos gritos, passou uma carraspana geral: “Seus imbecis! Nós organizamos este Festival com todo o amor, trabalhamos um ano pra vocês. Seus porcos! Agora vocês querem derrubar as cercas e destruir tudo? Ora, vão pro inferno!”

Farr diria mais tarde que estourou quando viu que extremistas estavam vindo à frente da multidão para distribuir folhetos que exigiam a destruição do perímetro. O grupo já tinha lhe enviado uma lata de Coca-Cola com uma bala dentro e um bilhete em que se lia: “A próxima é pra você”. Esse pessoal passou então a cuspir em um padre que havia subido ao palco a fim de pedir doações para ajudar as pessoas que tinham ido até a igreja por causa de uma bad trip, ou que tinham sido roubadas e agora estavam sem dinheiro para voltar para casa. Com o abandono das bilheterias, o Festival foi finalmente declarado gratuito.

Apesar desses relatos negativos, o relatório policial não viu no evento nada de mais, isto é, nada que já não ocorresse na maioria dos jogos de futebol, e Foulk afirma que de modo geral a multidão se comportou muito bem. “A não ser por uma minoria que agiu à margem, em 1970 aquela vasta multidão foi incrível”, ele diz. “Foram no geral decentes e camaradas uns com os outros. Claro, tivemos uma minoria ali que nos criou obstáculos… houve também alguns ataques às cercas da arena, mas tudo não passou de picadas de pulgas num elefante – não foi nada”.

E a decisão de declarar o evento um festival gratuito? “Foi um lance de esperteza do próprio apresentador. A gente tinha parado de cobrar lá no portão. Isso no domingo de tarde, no último dia. Já poucas pessoas estavam entrando então, meia dúzia de gatos pingados. Então decidiram: ‘Vamos dizer pra todos que daqui pra diante é gratuito’. Era uma boa jogada, uma vez que já estávamos quase encerrando e já quase ninguém mais entrava. O show todo estava então indo muito bem, e eu acho que o pessoal ficou bem contente quando um dos apresentadores veio e disse: ‘Vamos ser um festival gratuito daqui em diante’. Acho que todos pensamos que isso seria bom pra o nosso filme”.

No final das contas, toda aquela multidão entusiasmada acabou tendo mesmo sua versão britânica de Woodstock. Tomaram banho nus na praia. Cantaram “Land of Hope and Glory”, acompanhando Tiny Tim, enquanto um balão de hélio com as cores da Union Jack [a bandeira do RU] sobrevoava o público. E todos gritaram muito excitados quando no palco, ao lado dos tropicalistas Gilberto Gil e Caetano Veloso, onze de seus amigos, que estavam metidos em um gigante vestido vermelho, todo de plástico, foram um a um deixando o palco, requebrando-se inteiramente nus.

Houve muitos momentos memoráveis. Sendo o primeiro a tocar no sábado de manhã, John Sebastian reencontrou em cena Zal Yanovsky, seu ex-parceiro e co-fundador da banda Lovin’ Spoonful. O encontro foi muito bem-recebido pelo público, de modo que eles tiveram de voltar três vezes para o bis. Emerson, Lake e Palmer faziam tão somente o segundo show deles. Keith Emerson, vestindo malha e uma jaqueta à moda toureiro, coberta de lantejoulas, golpeava as teclas de seu piano enquanto assistentes disparavam canhões ao lado do palco. Miles Davis, de acordo com Foulk, “fez uma fusão do seu próprio som com o de Sly Stone e Hendrix, criando um negócio muito instigante”, e o conjunto vocal The Voices of East Harlem foi várias vezes aplaudido de pé. “Eram cerca de 20 adolescentes, ainda em idade escolar, mais o professor, todos cantando canções gospel”, recorda Foulk, “mas eram também rock’n’roll na veia. E aquilo tudo à noite, ali em Freshwater, na Ilha de Wight… foi incrível!”

Giddings menciona uma inesperada pedra de toque cultural, que se originou das demoradas trocas de palco, necessárias entre um show e outro. “Foi daí que nasceu o famoso Onde está o Wally? Tinha um roadie que se chamava Wally, e num dado momento estavam chamando por ele no palco. De repente, o público todo começou a chamar o cara: Wally! Wally! Dali pra diante, entre os artistas, sobretudo no momento da troca de cena, o pessoal perguntava pelo Wally”.

Como a invasão da colina tivesse causado problemas quanto à entrada de dinheiro e os gastos fossem aumentando, uma certa confusão começou a tomar corpo. Farr tinha anunciado do palco que Neil Young daria uma canja mais tarde na semana, mas ocorreu de o empresário de Young ter sido barrado com drogas pela polícia quando vinha de Londres em seu Rolls-Royce branco, e sem representação Young voou de volta para os EUA, e ninguém jamais viu canja nenhuma.  

Os Everly Brothers se recusaram a aparecer porque não receberam adiantado o dinheiro do transporte, e corria o boato de que Leonard Cohen fazia exigências dignas de uma diva. As lembranças de Faulk, contudo, vão no sentido contrário: “Leonard Cohen comportou-se como um perfeito cavalheiro”, ele diz. “Como não tivéssemos modo de pagar o total de seu cachê – só tínhamos pagado a metade –, tive de ir lá falar com ele, explicar a situação. Disse a ele que a gente entenderia se ele não quisesse mais se apresentar. Isso era tipo duas da madrugada. Ele então me olhou nos olhos e disse: ‘Eu vim aqui pra tocar, meu velho, e vou fazer isso. Não culpo vocês por essa situação toda’. Cohen foi encantador e muito compreensivo conosco”.

“Um perfeito cavalheiro”. Leonard Cohen no Festival da Ilha de Wight de 1970. I Foto: Rex

Por não ser rígido, o próprio programa do Festival apresentou seus problemas. O pessoal da Mungo Jerry apareceu tranquilos para tocar mesmo se não recebessem nada, mas tiveram de trocar tantas vezes o momento de entrar em cena, que no fim acabaram indo embora sem tocar. E Foulk recorda ter encontrado os empresários das bandas Emerson, Lake e Palmer, The Doors e The Who enfiados em um tempestuoso debate acerca da ordem de suas apresentações. “Ninguém queria vir depois do Who. Mas Emerson, Lake e Palmer não queriam também ser os primeiros, porque queriam entrar em cena quando já fosse noite. Depois The Doors já não sei mais que coisa queriam… Enfim, um quebra-cabeças do diabo! A coisa chegou a um ponto tal, que me afastei bradando: ‘Bom, pessoal, vou deixar essa bronca toda aí pra vocês resolverem. Eu desisto!’”

Para dar mais emoção ao negócio todo, o pessoal se envolveu em uma competição de quem bebia mais, e foi assim que os vocalistas Jim Morrions (The Doors) e Roger Daltrey (The Who) se meteram em uma refrega alcoólica antes de subir ao palco. Se o resultado desse combate arrefeceu um pouco aquele conhecido clima nebuloso e cadenciado tão típico dos Doors, nem por isso deixou de causar uma verdadeira tempestade de fogo às duas da madrugada, quando finalmente o Who subiu no palco. Aqui será preciso, porém, dar um desconto ao “Rei Lagarto”, que, sofrendo o estresse da viagem transatlântica, com a consequente alteração de fuso horário, estava ainda obrigado a voltar na quarta-feira seguinte aos EUA, porque era réu em processo na Flórida, por supostamente haver mostrado suas “partes íntimas” em show realizado no Dinner Key Auditorium, Miami, em março de 1969. Sempre é fato que, com Daltrey “alavancado” ou não, o Who veio com tudo, e com canções como “Substitute”, “My Generation” e “I Can’t Explain” fechando uma apresentação completa do álbum duplo Tommy (lançado em maio do ano anterior, o filme só sairia em 1975), sua apresentação foi um turbulento triunfo. No palco, Pete Townshend, trajando um macacão branco, acinturado, fazia polichinelos e girava seu braço direito bem esticado, como se fosse uma hélice, enquanto, vestindo uma jaqueta curta, aberta na frente, com mangas das quais se despendiam borlas de cerca de um metro, Daltrey girava no ar o microfone preso pelo cabo sob um céu iluminado por holofotes da Segunda Guerra Mundial. Este é ainda hoje considerado o show mais memorável de quantos The Who fez.

Em termos de impacto histórico, no entanto, foi o show de Jimi Hendrix, já tarde na noite de domingo, que veio selar a lenda de que o Festival da Ilha de Wight de 1970 marcava o ponto final na era de Aquários. “Olha isso”, disse nos bastidores Jim Morrison a um repórter, ao observar Hendrix dirigindo-se para o palco, portando consigo, na íntegra, as insígnias de um verdadeiro guru psicodélico. “É como se fosse um sacerdote indo para o altar”, sentenciou o líder dos Doors.  No palco, Hendrix fez uma apresentação poderosa, estimulante, que, através de motivos musicais herdados do blues nova-iorquino, elaborou desconstruções candentes de “God Save the Queen” e “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, homenageando a influência experimental britânica do momento. Duas horas depois (às quatro da madrugada), Hendrix fechou o espetáculo com performances marcantes de “Purple Haze”, “Voodoo Child (Slight Return)” e “In From the Storm”. “Talvez, dias desses, a gente se reúna de novo”, ele disse ao terminar, mas para Hendrix aquilo era o fim da jornada. Apenas 18 dias mais tarde ele seria encontrado morto no apartamento de sua namorada Monika Dannemann, em Londres, vítima de uma overdose de barbitúricos. Tinha só 27 anos de idade.

Faulk, no entanto, não viu em Hendrix sinal nenhum de problemas com drogas no dia de seu último show britânico. “Tem muitos relatos dizendo que ele estava doidão durante seu show”, ele diz. “É possível ver no filme, com muita clareza, que ele tinha usado algo, mas de modo algum que ele estava doidão. Ele não teria podido fazer o puta show que fez se estivesse chapadão como dizem”.

Todo o futuro dos festivais britânicos podiam ter morrido com Hendrix se não fosse a ajuda… da polícia! Depois do Festival de 1970 – que, segundo estimativas de Foulk, lhe teria custado pelo menos 100 mil libras esterlinas (736 mil reais) – o Parlamento incluiu uma emenda no Estatuto do Condado da Ilha de Wight, segundo a qual passavam a ser proibidas reuniões com mais de 5 mil pessoas na ilha sem licença especial. “Circulei dois dias incógnito pelo Festival, travestido de hippie”, Woodnutt disse a seus pares da Assembleia [“House of Commons”, ou câmara baixa, em oposição à “House of Lords”, câmara alta, ou senado], “e as cenas que presenciei tanto durante quanto depois do festival foram de uma indescritível imundície e imoralidade”. Por sorte, o relatório da polícia veio contradizer as afirmações do congressista. Para Foulk, “o objetivo de caras como Woodnutt era estender a todo o país as restrições impostas na Ilha de Wight. E foi só em razão das evidências apresentadas pelo chefe da polícia de Hampshire, falando [em termos positivos] acerca do que ocorrera na Ilha de Wight durante o Festival, que fizeram com que se decidissem a não dar seguimento a uma legislação demasiadamente restritiva. Evitaram, assim, que os festivais fossem proibidos. Por isso é que chamamos à polícia de Hampshire de salvadores dos festivais no RU”.

Fonte: The Independent

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