Auxílio emergencial foi decisivo para conter tombo ainda maior do PIB

É no subgrupo comércio que os desdobramentos dessa injeção de recursos aparecem mais nitidamente

A queda de 9,7% da economia brasileira num único trimestre – entre abril e junho de 2020 – foi a maior na série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O período coincide com a explosão da pandemia de Covid-19 no País. Mas o tombo recorde no Produto Interno Bruto (PIB) seria ainda maior sem a implantação do auxílio emergencial – uma conquista da oposição ao governo Jair Bolsonaro.

O setor que mais puxou o recuo foi o de serviços. Mesmo assim, para Débora Freire, professora da UFMG, o impacto do auxílio emergencial “ajudou a segurar o poder de compra especialmente entre as classes mais pobres. Pesquisadora do Centro de Desenvolvimento Regional (Cedeplar), Débora lembra que cerca de 67 milhões de pessoas receberam até agora o auxílio de R$ 600. De abril a agosto, o governo desembolsou R$ 179 bilhões com o benefício.

É no subgrupo comércio que os desdobramentos dessa injeção de recursos aparecem mais nitidamente. “O segmento de supermercados e farmácias ajudou a segurar o comércio”, diz José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Com base em dados da Pnad Contínua, o Ipea apontou que 4,4 milhões de domicílios sobreviveram, em julho, apenas com a renda do auxílio emergencial. O montante desembolsado pelo governo mais do que compensou as perdas na massa salarial decorrentes da diminuição da renda do trabalho.

De acordo com Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro, do Ibre-FGV, a política compensatória forte foi a principal explicação para o fato de que a retração da economia no Brasil foi muito menor do que em outros países da América Latina. O PIB do México, por exemplo, caiu o dobro – cerca de 17% – no segundo trimestre. A economia do Chile teve uma queda de 13%, e a do Peru, mais que o dobro: 27%.

Segundo Silvia, o Brasil foi um dos países emergentes que mais gastaram em proporção do PIB para atenuar o choque causado pela pandemia. “A pergunta que não quer calar é o que vai acontecer quando começarem a retirar os estímulos”, diz. Ela compara o país a um paciente em tratamento: no momento, ele está estabilizado, mas o antibiótico – a capacidade de o governo continuar injetando recursos na economia – está acabando.

Uma vez que esses estímulos sejam retirados, será possível ter uma ideia melhor do que está acontecendo no mercado de trabalho, ela acrescenta. Além disso, se do lado da demanda o auxílio emergencial ajudou a conter a queda do consumo das famílias, não houve amortecedor para a retração dos investimentos. A chamada Formação Bruta de Capital Fixo (denominação dos investimentos no PIB) despencou 15,4% sobre o trimestre imediatamente anterior e 15,2% sobre o mesmo período de 2019.

Investimentos são compras de máquinas e equipamentos, construção civil. São recursos que, dependendo da forma como forem empregados, poder aumentar a capacidade de crescimento de um país no longo prazo – o PIB potencial, no jargão econômico. A situação atual é preocupante porque os investimentos já vinham de uma trajetória desconfortável. Depois de caírem quase 30% entre 2014 e 2017, se recuperavam em uma velocidade muito aquém do esperado, até voltarem a cair por causa da pandemia.

Apesar do cenário de juros baixos, que favorecem o investimento, o governo Jair Bolsonaro fracassou ao não gerar outros ingredientes cruciais para as empresas retirarem projetos da gaveta, como a previsibilidade e uma demanda sólida por parte dos consumidores. “A gente já começou essa crise com muito desemprego e uma limitação para gerar renda do trabalho”, pondera Silvia Matos.

Além da incerteza, a própria situação financeira das empresas também joga contra os investimentos. “A principal questão da recuperação está nas empresas”, diz a professora da UFMG Débora Freire. Além das restrições impostas pela crise, a economista destaca que parte do setor privado está tendo dificuldade para acessar os programas de crédito lançados pelo governo. “Eles não estão funcionando como deveriam.”

Com informações da BBC Brasil

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