De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A cientista política Ana Prestes analisa os principais fatos da conjuntura internacional com destaque para a suspensão dos testes da vacina Oxford/AstraZenaca. Outros temas são: a Índia superou o Brasil em número de infectados pelo coronavírus, os incêndios na Califórnia e no Pantanal brasileiro, as eleições na Bolívia, Equador e Venezuela e o julgamento do pedido de extradição de Julian Assange pelos EUA.

A notícia mais comentada no fim da tarde desta terça-feira (8) foi a da suspensão dos testes da vacina Oxford/Astrazeneca. A suspensão teria ocorrido após um dos voluntários testados ter tido efeitos adversos. A imprensa diz que o paciente é britânico e teve mielitis, uma síndrome inflamatória que ataca a medula espinhal. Os testes foram paralisados em todo o mundo, no Brasil inclusive. Atualmente existem oito projetos de vacina contra o coronavírus na fase três de testes em todo o mundo. Pelo menos três estão sendo testadas no Brasil (Astrazeneca, Sinovac e Pfizer).

Ainda sobre o coronavírus, um dado dessa semana é de que a Índia ultrapassou o Brasil em número de infectados. Segundo o site da Johns Hopkins University a Índia está com 4,300 milhões de casos e o Brasil com 4,100 milhões. EUA passam dos 6 milhões. Em número de mortos registrados o Brasil segue na frente da Índia com quase 130 mil falecidos e o país asiático com pouco mais de 70 mil. Subnotificação e o fato de na Índia muitas pessoas estarem falecendo em casa e passando ao largo dos registros oficiais pode explicar a diferença no número de mortes contabilizadas.

O NDB (Novo Banco de Desenvolvimento) ou Banco do BRICS agora é presidido por um brasileiro, Marcos Troyjo, que foi secretário de Comércio Exterior no Ministério da Economia, sob comando de Paulo Guedes. Foi anunciado pelo banco esta semana um financiamento de 1 bilhão de dólares ao Governo Brasileiro para programas sociais de combate à Covid19, mais precisamente para pagamento do auxílio emergencial. Mais 11 bilhões podem chegar no próximo ciclo de investimentos do banco. Esses anúncios foram feitos no Fórum dos BRICS na semana passada.

Os incêndios na Califórnia, EUA, não cessam. Já são dados como os mais destrutivos da história da região. Dados do Departamento de Proteção contra Incêndios do estado dizem que já são quase 900 mil hectares tocados pelo fogo. Oito pessoas já morreram e centenas estão sendo retiradas com helicópteros de suas moradias. No feriado do dia 7 de setembro, que para os americanos é o Dia do Trabalho, uma onda de calor associada a ventos fortes piorou as condições dos incêndios contra os quais lutam 15 mil bombeiros. Inclusive o fornecimento de energia elétrica foi cortado, para tentar minimizar os riscos de novos focos. Já são quase 30 focos. Os estados de Oregon e Washington também são atingidos. Ontem repercutiu muito a destruição quase completa de uma pequena cidade, Malden, em Washington, totalmente tomada pelo fogo.

Repercute internacionalmente também a destruição do Pantanal brasileiro pelo fogo. As queimadas estão deixando um rastro de destruição e morte nas florestas que abrigam inúmeras espécies de animais. Segundo imagens divulgadas pela NASA, 10% do território foi atingido pelo fogo, algo sem precedentes na história.

Evo Morales está proibido de concorrer ao Senado nas eleições de 18 de outubro. Em mais uma manobra das elites bolivianas para evitar que o MAS retorne ao poder no país, o Tribunal Superior Eleitoral recusou ontem (7) o pedido do ex-presidente para que sua candidatura fosse liberada. Ele seria candidato pelo estado de Cochabamba. A resolução do Tribunal foi reforçada na Segunda Câmara Constitucional de La Paz com dois votos contra um. Ainda há possibilidade de recurso no Tribunal Constitucional. O argumento utilizado para não permitir a candidatura é que Evo não está no território da Bolívia (ele está na Argentina) e que ele não viveu dois anos seguidos em Cochabamba, por onde pretende concorrer.

Rafael Corrêa e Evo Morales foram impedidos de disputar eleições em seus países l Foto: Efe

Outro ex-presidente que está impedido de concorrer às eleições em seu país é Rafael Correa do Equador. A Justiça do país confirmou na segunda-feira (7) sua condenação em última instância a oito anos de prisão por crime de suborno. A condenação não é o único, mas mais um complicador para que ele seja inscrito para participar das eleições como candidato a vice-presidente nas eleições de fevereiro de 2021. Sua candidatura está em suspenso no CNE por ele não ter comparecido presencialmente para formalizá-la (semelhante ao que fazem com Evo na Bolívia). Nas palavras de Correa, “finalmente conseguiram. Em tempo recorde, emitem uma sentença ‘definitiva’ para me inabilitar como candidato. Não entendem que a única coisa que fazem é aumentar o apoio popular (…) Lembrem-se: a única coisa a que nos condenam é a vencer”.

Outra eleição próxima, esta parlamentar, é a da Venezuela. A oposição está dividida entre os partidários de Guaidó, que defendem o boicote às eleições e os apoiadores de Capriles (Henrique Capriles – duas vezes candidato à presidência), que defendem um pacto para eleições justas. Entre outras iniciativas, Capriles está pedindo que a União Europeia envie observadores para as eleições de 6 de dezembro. O chanceler Arreaza também convidou observadores da ONU e da UE.

O pedido de extradição de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, do Reino Unido para os EUA está sendo julgado desde a segunda (7). Ele é acusado nos EUA de invadir computadores do governo e violar lei de espionagem ao divulgar mensagens confidenciais. Na época, Assange expôs crimes de guerra e de tortura promovidos pelos EUA. O jornalista Glenn Greenwald disse nos últimos dias em seu twitter: “Julian Assange e o grupo que ele criou, WikiLeaks, trouxeram à luz mais histórias de importância histórica do que a maioria dos jornalistas dos EUA e do Reino Unido que o odeiam juntos. Será que esses jornalistas detestam Assange apesar desse fato ou por causa dele?”

O maior campo de refugiados da Grécia pegou fogo. No abrigo de Moria, na ilha de Lesbos, vivem quase 13 mil refugiados. Quase todo o acampamento foi destruído. O incêndio ocorreu após protestos contra medidas do governo grego de tentativa de isolamento ainda maior dos refugiados no período da pandemia. Os refugiados são tratados como párias e a xenofobia e o racismo se acentuaram com a crise do coronavírus, como se essas pessoas apresentassem um risco a mais de contaminação do resto da população. O ministro das relações exteriores da Alemanha, Heiko Maas, chamou a tragédia de catástrofe humanitária e sugeriu que os países membros da União Europeia acolham grupos dos refugiados desabrigados.

Na Colômbia, após um século desde o primeiro projeto, foi inaugurado um dos mais longos túneis das Américas e o maior túnel rodoviário das América Latina com 8,6 km de extensão, o Túnel da Linha. Construído a 2,4 mil metros acima do nível do mar, o túnel atravessa a cordilheira dos Andes, mais precisamente a Cordilheira Central (a cordilheira dos Andes se divide em três na Colômbia). A topografia colombiana é conhecida por manter separadas comunidades inteiras e dificultar sobremaneira o transporte de produtos. (Fonte: BBC)

Trump fará uma cerimônia em 15 de setembro na Casa Branca para chancelar o acordo firmado entre Israel e Emirados Árabes Unidos (EAU) no último 13 de agosto. Netanyahu disse que está “orgulhoso” por poder participar dessa cerimônia. O acordo é visto como uma afronta à causa Palestina e parece que Trump quer fazer render bastante esse assunto, pois considera como uma demonstração de sua capacidade de “pacificar” o oriente médio e conta pontos para seu projeto de reeleição.

Semana passada, o chanceler russo Lavrov se dispôs a mediar conversações entre o Irã e os EUA, mas o governo iraniano anunciou que não há conversas enquanto os EUA não levantarem as sanções impostas ao país e retornarem ao PAIC (acordo de 2015).

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