De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A cientista política Ana Prestes analisa os principais fatos da conjuntura internacional. Destaques para o lançamento do livro Rage, de Bob Woodward, que tem gerado desconforto em Donald Trump, a manifestação de policiais na Argentina, as negociações sobre a eleição do novo presidente do BID, a crise na Bielorrúsia, as tensões entre China e Índia e os protestos na Colômbia.

Rage (Raiva), novo livro do jornalista norte-americano Bob Woodward, e que traz 18 entrevistas gravadas com Trump entre dezembro de 2019 e julho de 2020, está gerando grandes desconfortos para o presidente às vésperas das eleições. Bob Woodward é um nome bastante conhecido dos americanos por ter ajudado na revelação do escândalo Watergate que derrubou Nixon nos anos 70. Woodward tem outro livro sobre Trump, que se chama Fear (Medo), lançado em 2018. No livro que será lançado no próximo dia 15, há revelações de que o presidente americano admitia saber dos riscos e ameaças do novo coronavírus semanas antes das primeiras mortes registradas no país. Ele admitiu ainda que minimizava publicamente o problema para “não gerar pânico” na população. Essa entrevista teria sido dada por Trump em 7 de fevereiro. Em outra entrevista citada no livro, esta em março, o presidente teria reafirmado sua deliberada minimização do problema. Hoje os EUA são os campeões em mortes por Covid-19 com a perda da vida de quase 200 mil pessoas. Os democratas, Joe Biden e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, reagiram às revelações. O primeiro disse que se trata de uma traição nacional e a segunda disse que isso demonstra o desprezo de Trump pela ciência e como não esteve à altura da crise. (Fonte AFP)

Em Buenos Aires, ontem, a Quinta dos Olivos, residência presidencial, se viu cercada de policiais. Na verdade, eram manifestantes membros da força policial da província de Buenos Aires que quiseram assim criar uma imagem midiática de que ameaçavam a segurança do presidente Alberto Fernández e aumentar a pressão para a resolução de suas demandas. Já estavam há três dias em greve. Enquanto o edifício estava cercado, outras organizações sociais preparavam uma marcha com o slogan “Por la democracia y por la paz”, mas que não chegou a ocorrer pois a solução do impasse chegou antes. A certa altura do protesto, o porta-voz da presidência, Juan Pablo Biondi, transmitiu um convite do presidente Alberto Fernández para que alguns representantes dos manifestantes entrassem para conversar. Mas eles se recusaram e disseram que só entrariam com as câmeras da televisão. De todo modo, quando o presidente Fernández e o governador de Buenos Aires, Axel Kicilof, começaram a fazer seu anúncio das medidas que tomariam, a manifestação já havia se dispersado. Antes de falar sobre as medidas, Fernández disse que é preciso buscar resolver as demandas respeitando as “regras da democracia e da institucionalidade” e que “nem tudo é permitido na hora de reclamar”. Anunciaram a criação de um Fundo de Fortalecimento Financeiro para a província de Buenos Aires. com aumento das cotas de coparticipação federal, aumentando a margem de possibilidade de repor as perdas salariais dos policiais.

O ministro das relações exteriores da Argentina, Felipe Solá, admitiu em entrevista que o novo presidente do BID pode mesmo ser um norte-americano. Pela primeira vez em sessenta anos do banco. Segundo ele, “houve uma decisão por parte da Europa que nunca chegou” e ainda “o candidato americano parece ter o quórum e os números para vencer”. No Mercosul, Brasil, Uruguai e Paraguai apoiam os EUA no pleito. Somente uma abstenção de 25% do capital votante poderia adiar a eleição. Se a iniciativa da Argentina, México, Costa Rica e Chile de tentar adiar as eleições fosse respaldada pelos europeus teria sido possível adiar. Há rumores de que Trump teria pessoalmente tentado dissuadir Piñera (Chile) e Obrador (México). As especulações agora são sobre a vice-presidência, que pode ser dada ao grupo que se opôs (Argentina, México, Costa Rica e Chile) ou até para o Brasil, segundo o próprio candidato a presidente americano Claver-Carone. (Parte das informações de O Globo).

Na Bielorrússia, a situação continua dramática entre governo e oposição. Os protestos vêm ocorrendo de forma quase ininterrupta desde as eleições de 9 de agosto, que deram vitória ao já presidente Lukashenko, que está no poder desde os anos 90. Em entrevista dada esta semana, pela primeira vez o presidente admitiu que está há bastante tempo no poder. Segundo ele, “possivelmente eu estou mais tempo que o necessário (como presidente)”. Ele se recusa a conversar com o Conselho de Coordenação da oposição, cujos membros estão quase todos presos ou escondidos. Lukashenko diz que eles (oposição) “querem romper todas nossas ligações com a irmã Rússia, querem que a medicina e a educação sejam pagas”. Esta semana também saíram notícias de que o governo russo segue respaldando Lukashenko, mas não se nega a conversar com a oposição. Algo que os russos fizeram de forma enfática foi avisar aos europeus que não suportariam um novo processo como o ocorrido na Ucrânia. De todo modo, o governo bielorrusso propôs esta semana (8) uma reforma constitucional e eleições parlamentares e presidenciais para 2022 como forma de sair da crise. A reforma constitucional seria votada via referendo popular e poderia inclusive reduzir poderes do chefe de Estado e caminhar para um governo parlamentarista. No entanto, segundo o governo, os protestos deveriam cessar para prosseguir com a proposta. A oposição vê a medida como forma de protelar o atendimento às demandas e insiste na renúncia do presidente. (Com informações de Sputnik, EFE e AFP).

Esta semana, China e Índia voltaram a ter problemas na fronteira do Himalaia. Ambas nações se acusaram mutuamente de violarem o cessar-fogo de 1996 na região de Ladakh. Segundo um porta-voz das Forças Armadas chinesas, Zang Shuili, tropas indianas atiraram ao cruzar a fronteira na região do lago Pangong na última segunda (7). Já o Ministério da Defesa indiano disse que a China abriu fogo, com tiros para o ar, sobre posições indianas. Recentemente os ministros da defesa dos dois países conversaram em Moscou, na Rússia. Para demonstrar seu apoio aos indianos, recentemente os americanos enviaram bombardeiros para sua base no oceano Índico. (Infos Igor Gielow – FSP).

Na Colômbia, protestos em Bogotá deixaram ontem (9) pelo menos sete pessoas mortas. Os protestos eram contra a violência policial após a morte do advogado Javier Ordóñez. O advogado havia sido preso por supostamente descumprir restrições de quarentena e foi morto com golpes e descargas elétricas na frente do amigo que o acompanhava. Enquanto o ministro da defesa do país mandou mais tropas para as ruas, a prefeita da capital, Clara López, pediu serenidade, ao mesmo tempo em que opinou que o assassinato do advogado “não é um ato isolado”. Segundo ela, “há uma conduta, não diria sistemática, mas sim recorrente, de casos de violência e abuso policial”. Disse ainda que “destruir Bogotá não consertará a polícia (…) mas concentrar em conquistar justiça e reforma estrutural das forças de segurança”. A polícia colombiana é conhecida por sua brutalidade e crescente militarização ao largo das últimas décadas.

Falei ontem aqui no De Olho no Mundo sobre o julgamento da extradição de Julian Assange. A notícia hoje é de que o julgamento foi interrompido, pois a esposa de um dos advogados está com Covid-19. O julgamento deve retornar nas próximas semanas. Enquanto isso, seguem os protestos em Londres e outras partes contra a extradição do jornalista para os EUA. Há dez anos ele divulgou mais de 700 mil documentos confidenciais de atividades militares e diplomáticas dos EUA, em especial no Iraque e Afeganistão.

Um parlamentar de extrema direita da Noruega, Christian Tybring-Gjedde, do Partido do Progresso, fez uma indicação de Donald Trump para o Prêmio Nobel da Paz 2021 pelo seu papel na produção de um acordo entre Israel e Emirados Árabes Unidos (ver notas de ontem). Ele já havia recomendado Trump ao Nobel em 2018 por seu papel em uma suposta reconciliação das duas Coreias. A Comissão do Nobel aceita qualquer indicação de pessoa ou organização, o que não significa que os indicados viram candidatos.

No Paraguai, um ex-vice-presidente, Óscar Denis, foi sequestrado na tarde de ontem (9). Ele foi vice de Federico Franco 2012/2013, após o golpe em Fernando Lugo. Franco era vice de Lugo. Denis também já foi senador. A oposição ao governo de Benítez, Frente Guasu e PMAS soltaram notas pressionando o governo a agir com relação ao sequestro.

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