Entregadores foram bloqueados após Breque dos Apps, conta liderança

Em entrevista ao Portal Vermelho, a entregadora antifascista Luciana Kasai falou sobre condições de trabalho e as reivindicações da categoria.

Em live, Lucy falou de precarização e luta

Após o Breque dos Apps, greve dos entregadores de aplicativos para reivindicar direitos, alguns participantes foram bloqueados pelas empresas. A informação é da entregadora Luciana Kasai, a Lucy, que participou de live do Portal Vermelho nesta quarta-feira (16). Lucy integra o coletivo Entregadores Antifascistas, movimento que apoiou as greves recentes.

O bloqueio é uma suspensão temporária do trabalhador pela plataforma, sem justificativa ou previsão de duração. Paulo Lima, o Galo, uma das lideranças dos Entregadores Antifascistas, já havia dito em junho que sofreu bloqueio. Segundo Lucy, aconteceu o mesmo com outras pessoas.

“Você vai perguntar para mim: ‘Você acha que teve perseguição política?’. Lógico que teve. Eu conheço um monte de gente que estava no Breque e foi bloqueado. Mas eles [aplicativos] nunca vão admitir isso”, disse ela sobre o assunto. Não por acaso, o fim dos bloqueios é uma das reivindicações dos entregadores. Segundo Lucy, o trabalhador bloqueado fica de mãos atadas.

“A questão do bloqueio, a gente nunca sabe porque é. Como quase nunca tem uma pessoa para falar com você, você não consegue falar com pessoas de verdade, só com robôs. Você abre o aplicativo e está lá que você foi bloqueado. E não tem um prazo, você fica no escuro. Não tem direito de resposta, não tem direito de questionar”, explica.

Antifascistas

A entregadora falou ainda sobre as dificuldades que os Entregadores Antifascistas, vistos como um movimento mais à esquerda, enfrentam para dialogar com os demais trabalhadores de aplicativos. Segundo Lucy, ainda há muita resistência e um sentimento de rejeição à política e à esquerda.

“A gente não tem uma boa reputação, se posso colocar dessa forma, justamente por se colocar como antifascista e isso está diretamente ligado a uma visão de esquerda, o que não é mentira. Mas a gente vive uma crise apolítica e uma crise anti-esquerda também. Muitas vezes, não é uma questão de as pessoas não entenderem [o que é antifascismo]. As pessoas não querem nem conversar”, diz.

Reivindicações

Segundo a entregadora, além de serem oposição a um governo autoritário, os antifascistas abraçam uma pauta mais ampla do que as reivindicações que foram colocadas pelo Breque dos Apps.

“Tem pautas para além do Breque, que [reivindica] seguro contra roubo e acidente, fim dos bloqueios, aumento da taxa média. A gente [Entregadores Antifascistas] entende que, se a gente é trabalhador e está um dia inteiro na rua, tem que ter acesso a um banheiro, a uma comida, a um lugar para comer. E, na verdade, são direitos básicos”, comenta.

Para Lucy, iniciativas como o Projeto de Lei nº 1.665/2020, do deputado Ivan Valente (PSOL-SP), são um começo, mas é preciso ir além. A proposta trata dos direitos dos entregadores apenas enquanto durar o estado de calamidade pública devido à pandemia da Covid-19.

Nesta terça-feira (15), representantes do Breque dos Apps estiveram em Brasília para reivindicar a aprovação da proposta pelo Congresso. O grupo deveria se reunir com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, às 10h de hoje, mas o encontro acabou sendo cancelado. Posteriormente, foi divulgado que Maia testou positivo para o novo coronavírus.

Condições de trabalho pioraram

Lucy conta que começou a trabalhar com entregas em 2018 e, em seguida, ficou um tempo afastada. Quando retornou, em 2019, as condições de trabalho tinham se degradado muito. Além de diminuição das tarifas, a demanda caiu, forçando os entregadores a passar mais tempo na rua.

“Antes, eu nem pensava em me cadastrar em vários aplicativos e ficar com todos ligados esperando. Hoje é impensável não fazer isso, todo mundo faz.”

Ela acredita que a pandemia e a falta de apoio das plataformas frente à nova realidade foram o estopim para o movimento eclodir em plena emergência sanitária.

“A gente ficou exposto esse tempo todo e não teve suporte, máscara, álcool em gel. Apesar de eles falarem que teve, as ações foram muito poucas e mal coordenadas. Não teve quarentena para nós. O trabalho nunca foi bom, mas foi piorando o que já era ruim. E diante de um cenário de pandemia, de uma coisa global, não teve nenhum suporte. Acho que o movimento surge dessa indignação”, comenta.

Mulher entregadora

Lucy, que faz as entregas de bicicleta, falou ainda sobre as particularidades de ser mulher realizando esse tipo de trabalho. De acordo com ela, uma das maiores dificuldades é usar o banheiro.

“Todos os entregadores têm dificuldade, você tem que ir lá no restaurante e ver se vão deixar você entrar. Eu bebo muito menos água para não ficar com vontade de ir no banheiro, o que é errado. Usar banheiro é diferente pra mulher e pra homem. Para homem, é muito mais fácil”, afirma.

Ela diz, ainda, que há um estranhamento. “As pessoas me veem como um corpo esquisito, porque não é comum ver muitas mulheres entregadoras. Rola assédio, mas isso são coisas que mulher sofre diariamente. Comigo, em cima da bike, também não é diferente, mesmo estando trabalhando”.

Veja o bate-papo completo:

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