Ministério sob Pazuello não fez nada para conter a pandemia

O infectologista Marcos Boulos diz que a Covid-19 não foi vencida como o governo alardeia. Sua dinâmica revela que a pandemia vai acabar por conta própria, no seu próprio tempo.

O presidente Jair Bolsonaro da posse ao ministro da Saude, Eduardo Pazuello, no Palacio do Planalto. Marcello Camargo/ABr

O infectologista Marcos Boulos, médico consultor do Grupo de Contingência da Covid-19 do Governo do Estado de São Paulo, avaliou a efetivação do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, depois de quatro meses de interinidade.

Em sua opinião, a dinâmica de longo platô de mortes, com quase quatro meses perto de mil mortes diárias, revela que o governo não fez nada para acelerar a curva da pandemia. Em outros países, ao chegar ao pico de casos e mortes, intensas iniciativas governamentais contribuíram para derrubar a curva. No Brasil, só depois de seis meses, a curva começou a dar sinais de decréscimo, embora a retomada do funcionamento da economia e da normalidade estimulada pelo governo possam expandir ainda mais o contágio nas próximas semanas.

Boulos avaliou os quatro meses de interinidade de Pazuello no Ministério “Desde que o primeiro ministro da saúde saiu, que não era maravilhoso mas fazia as coisas segundo as regras, nós temos tido dificuldades na parte técnica. Ele faz declarações técnicas atabalhoadas que não têm a ver com o processo”, disse.

Estoque de cloroquina

Para ele, tudo que o governo fez em termos de combate à pandemia foi equivocado, como, por exemplo, a prescrição de remédios como a hidroxicloroquina e a cloroquina para o combate precoce ao vírus. “Eu até tenho a impressão de que ele nem acredita nisso, mas o faz para satisfazer ao que o presidente [Bolsonaro] falou”, supôs, enfatizando que não existe, ainda, nenhum medicamento que tenha eficácia comprovada. “Gostaríamos que ele estivesse certo, mas não podemos defender algo que não tem nenhuma eficácia comprovada”.

O infectologista considera um “erro crasso” manter estoque de cloroquina. “Ela vence com muito pouco tempo e não vai ser usada. Mesmo que ela fosse útil para a epidemia, temos que lembrar que a epidemia acaba. E ao acabar, o remédio fica acumulado. Então, seria um desperdício de recursos, o que foi feito”, criticou.

Vitória ou derrota?

Boulos discorda de Pazuello, quando diz em discurso de posse que “estamos vencendo a guerra” contra a Covid-19. Para ele, não “trabalhamos” bem no combate à pandemia. “A epidemia sobe e desce. Se trabalharmos bem, ela desce antes. Não trabalhamos bem, por isso, ela está demorando muito para descer, muito mais que outros países”, afirmou.

Para ele, a epidemia vai acabar sozinha, pois “não fizemos nada” para que ela descesse. “O governo federal não aprovava que as pessoas ficassem em isolamento, que era a maneira correta de diminuir. Está caindo, porque tem que cair, porque cai mesmo”, enfatizou. Ele disse que, após algum tempo, muita gente vai sendo imunizada e o vírus começa a não ter circulação na população, o que leva a seu desaparecimento.

Não tem normalidade numa epidemia

Boulos criticou também o discurso de posse de Pazuello, em que ele diz que a doença está se tornando natural no cotidiano da população. O ministro diz que a população deverá desenvolver novos hábitos e “naturalidade em conviver com a doença, assim como outras do nosso cotidiano”.

O médico diz que “não tem normal”, enquanto uma epidemia tenha menos casos e desapareça. No entanto, o Brasil está convivendo com números muito altos. “É normal porque não se tomou as medidas para que isso tivesse parado antes. Claramente não é normal. Será normal quando diminuir bastante e a doença ficar rara entre nós”, diz ele, em referência à média diária de mais de 800 óbitos e mais de 30 mil contágios, hoje.

Bom gestor, boa interlocução

O médico diz que se o novo ministro for um bom gestor, pode-se “passar por cima” do fato dele não ter formação em saúde pública. “O importante é que ele tenha assessores que tenham essa formação”, defendeu.

Ele observa que a aprovação que esse ministro apresenta vem dos governantes em geral, devido à facilidade de diálogo institucional com ele para acertar as dificuldades dos estados. “Na parte econômica, em atender aos governadores, parece que ele é um interlocutor melhor”, concluiu.

Eduardo Pazuello tem 56 anos e nasceu no Rio de Janeiro. É militar formado em 1984 na Academia Militar das Agulhas Negras (RJ), onde também estudou o presidente Jair Bolsonaro.

Entre as missões desempenhadas no Exército, Pazuello foi coordenador logístico de tropas nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Ele também coordenou a Operação Acolhida, de auxílio a imigrantes venezuelanos, na fronteira de Roraima.

À frente do Ministério da Saúde, Pazuello nomeou vários militares para sua equipe; elaborou, atendendo a demandas de Bolsonaro, protocolo sobre o uso de cloroquina nos casos leves de Covid-19; e gerou polêmica ao modificar a forma de divulgação de casos da doença.

O ministro também foi questionado sobre critérios de distribuição e sobre a não aplicação integral de verbas para a Covid-19. Ele foi criticado ainda por não atender a alertas sobre desabastecimento de remédios e sobre excesso de estoque de cloroquina, medicamento cuja eficácia contra o coronavírus não é comprovada.

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