Ministra quer tirar ultraprocessados de guia; pesquisadores reagem

Em documento enviado ao ministro da Saúde, Eduardo Pazzuello, ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirma que “existem alimentos processados que contribuem com uma ampla variedade de nutrientes”.

Tereza Cristina, ministra da Agricultura - Montagem: Piauí

Após os ataques ao meio ambiente, a nova investida do governo Bolsonaro é contra a alimentação saudável. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, enviou nota técnica ao ministro da Saúde, Eduardo Pazzuello, pedindo a retirada de circulação para revisão do Guia Alimentar para a População Brasileira. O guia foi editado pelo Ministério da Saúde em 2014.

A ministra contesta a recomendação no guia de não consumir alimentos ultraprocessados. O Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP) reagiu e chamou de “ataques descabidos” as observações sobre o guia alimentar. “Tais críticas se resumem a afirmações não amparadas por qualquer evidência científica”, afirma nota divulgada pelos pesquisadores.

No documento enviado a Pazzuello, Tereza Cristina afirma que “existem alimentos processados que contribuem com uma ampla variedade de nutrientes em todos os níveis de processamento”.

Os pesquisadores da USP, no entanto, afirmam que o guia alimentar “enfatiza os vários benefícios do processamento de alimentos, como ampliar sua duração e diversificar a dieta, recomendando que se evite apenas o consumo de alimentos ultraprocessados”.

A ministra critica ainda o uso, no guia, da classificação NOVA (que mede o grau de processamento dos alimentos) por “confundir nível de processamento com quantidade de ingradientes utilizados na formulação dos alimentos industrializados”.

“Além de amparar todas as suas afirmações sobre a suposta incoerência da classificação NOVA e sobre a suposta inocuidade [segurança] dos alimentos ultraprocessados em duas referências que não se referem à classificação e não avaliam alimentos ultraprocessados, a nota técnica [de Tereza Cristina] omite a vasta literatura científica nacional e internacional acumulada desde 2009”, contestam os pesquisadores.

Ainda segundo a nota dos pesquisadores, Tereza Cristina “omite também o primeiro ensaio clínico controlado sobre dietas ultraprocessadas, realizado (…) no maior centro de pesquisas em saúde do mundo (National Institutes of Health), que confirmou a relação causal do consumo dessas dietas com aumentos acentuados na ingestão de calorias e no ganho de gordura corporal”.

Sobre a afirmação da ministra de que o guia alimentar brasileiro é “um dos piores” do mundo, a nota destaca que “organismos técnicos das Nações Unidas, como a FAO, a OMS e o UNICEF (…) consideram o guia brasileiro um exemplo a ser seguido”.

Os pesquisadores ressaltam também que os ministérios da Saúde do Canadá, França, Uruguai, Peru e Equador se inspiraram no guia alimentar brasileiro para elaborar os seus guias e suas políticas de alimentação e nutrição.

Lembram, ainda, que um estudo publicado em 2019 pela revista Frontiers in Sustainable Food Systems elegeu o guia alimentar brasileiro como o que melhor atendia a critérios previamente estipulados quanto à promoção da saúde humana, do meio ambiente, da economia e da vida política e sociocultural.

“Diante da fragilidade e inconsistência dos argumentos apresentados (…) e da absurda e desrespeitosa avaliação do guia alimentar brasileiro, confiamos que o Ministério da Saúde e a sociedade brasileira saberão responder à altura o que se configura como um descabido ataque à saúde e à segurança alimentar e nutricional do nosso povo”, conclui a nota.

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