São Paulo: polarização e bolsonarismo marcam debate entre candidaturas

Primeiros colocados nas pesquisas, o atual prefeito e Russomano foram o alvo. Mas a polarização contra o PT também compareceu.

Onze candidaturas participaram de debate na Band

Onze candidatos à Prefeitura de São Paulo participaram na noite desta quinta-feira (1) do primeiro debate da disputa eleitoral realizado pela TV Bandeirantes na capital paulista. Estiveram presentes nos estúdios da emissora Andrea Matarazzo (PSD), Arthur do Val (Patriota), Bruno Covas (PSDB), Celso Russomanno (Republicanos), Filipe Sabará (Novo), Guilherme Boulos (PSOL), Jilmar Tatto (PT), Joice Hasselmann (PSL), Márcio França (PSB), Marina Helou (Rede) e Orlando Silva (PCdoB).

Foram escolhidos para participar do debate os candidatos cujos partidos têm representatividade no Legislativo. Inicialmente, foram convocados dez dos quatorze políticos que concorrem ao cargo. No entanto, Marina Helou (Rede) conseguiu uma liminar na Justiça Eleitoral para ser incluída. Filipe Sabará (Novo), que estava com a filiação e atividades de campanha suspensas, também pôde participar após liberação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Quem ocupa a cadeira

Candidato à reeleição, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), foi alvo de críticas, principalmente nos embates que mostraram que a polarização continua. Ele aparece em segundo lugar nas pesquisas, depois de Russomano. Alvo natural dos postulantes à cadeira, o tucano adotou uma postura defensiva, com poucos e calculados contra-ataques pessoais adversários, e usou como principal linha de argumentação o ataque sistemático ao PT e ao legado do partido na cidade. Não obstante, Tatto defendeu o partido e Lula durante suas falas.

Apesar disso, Covas se mostrou vulnerável em três temas, quando atacado por Jilmar Tatto. O principal é a redução para duas viagens em três horas com uma só tarifa de Bilhete Único, quando antes eram possíveis quatro viagens em duas horas. Ele não estava preparado para o ataque. Também não foi capaz de ser convincente na justificativa para a obra no Vale do Anhangabaú, criticada por urbanistas pelo efeito que tem no local e por políticos pela falta de prioridade e custo alto. A tentativa de trazer as aulas de volta, ainda este ano, também se revelou uma dificuldade do prefeito, que não consegue colocar as escolas públicas à altura da segurança que oferecem as particulares e pode colocar em risco as crianças e seus parentes na pandemia.

Tatto levantou uma polêmica da gestão de Doria, que abandonou a prefeitura e deixou Covas no lugar: a proposta do tucano de distribuição de farinata, um composto feito com alimentos próximo do prazo de validade que seria distribuído para moradores de rua. Em 2017, a oposição acusou Doria de querer distribuir “ração humana” à população carente. 

Tatto exaltou os anos do partido na administração municipal e criticou a gestão tucana em São Paulo. “Você vai deixar R$ 4 bilhões para os empresários de ônibus neste ano. Eu vou instituir o passe livre para desempregados [no transporte público]”, pontuou. Covas respondeu que Tatto teve sua chance e disse que o PT só sabe criar cargos para a “companheirada”, como se os tucanos não estivessem todos ocupando cargos na Prefeitura.

Numa tentativa de evitar ataques, Covas ressaltou o fato de Orlando Silva ser o único candidato negro e perguntou sobre racismo ao deputado. Orlando, por sua vez, abordou algumas das questões que compõem seu plano de governo, apontando para uma gestão voltada, entre outras prioridades, para a geração de emprego e renda, o combate às desigualdades e ao racismo e a valorização do serviço público. 

“Vamos garantir que o ensino de História da África, da cultura afrobrasileira, que tem um valor simbólico para a construção do nosso imaginário, seja feito de fato”, enfatizou ele. Falou também em criar uma defensoria de direitos humanos para acompanhar cada crime de racismo na cidade para que não fique impune.

“Cada auto de resistência, quando houver violência policial contra negro, não ficará impune porque a defensoria municipal vai cobrar, acompanhar e garantir que a justiça seja feita”, garantiu. Orlando ainda mostrou que é possível tomar muitas medidas contra o racismo, como responsabilizar estabelecimentos comerciais onde aconteçam casos de racismo. “A responsabilidade não será do vigilante, nem do funcionário; será da empresa que poderá, inclusive, ser fechada se praticar crime de racismo”.

“Já são cerca de 150 mil mortes. O presidente Jair Bolsonaro tem uma atitude criminosa e irresponsável e é, na verdade, o responsável pelas mortes e pelo desemprego. Eu acredito que é necessário que nós cuidemos da saúde e firmemos um pacto por emprego e salário”. Aliás, as propostas pela recuperação do emprego foi a mais citada pelos candidatos, pelo impacto que a renda e o trabalho terão neste período de pandemia.

Joice, por sua vez, também recorreu à polarização para o embate com Orlando. “Quero perguntar para o comunista, a esquerda esteve no poder e quase levou o País a falência, qual é o seu plano”? Orlando devolveu que foi ministro do ex-presidente Lula que, em oito anos, criou mais de 10 milhões de empregos. “Para o drama de São Paulo, tenho um plano de emergência de emprego e renda retomando obras públicas”, acrescentou. 

Ex-aliada do presidente Bolsonaro e do governador João Doria, Joice Hasselmann (PSL), foi cobrada por Orlando Silva pelo apoio aos dois nas eleições de 2022. Orlando disse que Bolsonaro é responsável pelas mortes por Covid-19 e pelo desemprego.

Ele ainda defendeu a aposentadoria dos servidores municipais, duramente atacada pelo atual governo tucano. “No primeiro dia de mandato, eu vou revogar o Sampaprev, uma vergonha que foi feita na cidade, atacando os professores numa votação covarde entre o Natal e o Ano Novo”, disse, em referência à reforma previdenciária aprovada. “Infelizmente, os direitos dos servidores têm sido deixados de lado, humilhados, desconsiderados no serviço que prestam à cidade”, completou.

O alvo Russomano

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Celso Russomanno (Republicanos) foi o mais escolhido para as perguntas diretas no debate eleitoral de São Paulo e teve como alvo de críticas sua tentativa de aproximação e aliança com o presidente da República, Jair Bolsonaro. Ele reclamou da insistência dos rivais em levarem Bolsonaro para a arena, mas ele mesmo fez isso em todas as oportunidades que teve. Ele se apresentou como único que tem a ‘amizade’ do presidente.

Os candidatos que ocupam os primeiros lugares nas pesquisas, inevitavelmente respondem mais perguntas. O objetivo é tentar tirar a posição de conforto dos primeiros nas pesquisas. Celso Russomanno, nos dois blocos, atingiu o limite de resposta de três perguntas. Só não foi mais questionado devido às regras que impediam. Suas fragilidades de eleições anteriores apareceram todas, pois ele parece ainda não ter encontrado resposta para elas. Ele não soube refutar aos ataques de sua proposta de cobrar mais de quem usa mais ônibus e baratear para quem precisa menos do transporte coletivo. A agressividade contra uma caixa de supermercado, poupando os donos, foi lembrada. Sua principal proposta bolsonarista, o auxílio emergencial paulistano, ficou sem justificativa de caixa, assim como está Paulo Guedes com seu Renda Brasil.

Orlando Silva usou a mesma linha para o embate, citando o programa de Russomanno aos moldes do auxílio emergencial do governo federal. “Fico perplexo que você diz que Bolsonaro dará dinheiro como se fosse um amigo. Não é dinheiro de rachadinha, viu, tem que ter regras”. 

Orlando também questionou Russomanno se ele quer trazer para São Paulo o estilo de governo de Bolsonaro. “O governo de Bolsonaro fez explodir o custo de vida. Todo dia aumenta o preço dos alimentos. Eu falei do arroz porque está assustando todo mundo, é um alimento básico da dieta da população. Bolsonaro, que não queria auxílio emergencial, tolerou os 600 reais. O governo de Bolsonaro é um estelionato, Celso Russomano. Você deveria chamar o Procon para combater esse estelionato”, ironizou referindo-se aos bordões do candidato que se diz defensor do consumidor.

Guilherme Boulos (PSOL) também elegeu Russomanno para pergunta direta e usou a oportunidade para críticas ao adversário. “Pega mal você puxando o saco do Bolsonaro toda hora. Porque você fala fino com os poderosos e grosso com o povo?”, questionou. “Você incentiva invasões em casas de pessoas, é contra reformas, é isso o que você fará na prefeitura?”, rebateu o candidato do Republicanos. 

Boulos também perguntou a Márcio França (PSB) sobre aumento da violência contra a mulher na pandemia e diz que candidato se ligou a Bolsonaro.

Propostas progressistas

A primeira pergunta foi sobre políticas públicas para combate ao vício do crack, que tem sido um dilema enfrentado de formas diferentes na cidade.

Primeiro a responder, Orlando Silva afirmou que o problema será enfrentado “com medidas no campo da saúde pública, trabalhando na redução de danos, trabalhando no campo da inserção econômica dessas pessoas que vivem em situação de droga dição, e com inteligência policial combatendo o crime organizado”.

Ele ainda defendeu auditoria noss contratos com as empresas de transporte urbano de São Paulo, para quem cerca de R$ 4 bilhões deve ser o valor do subsídio no ano de 2020, apesar da diminuição de passageiros e incremento no subsídio. “É preciso auditar, checar, conferir para que nós possamos subsidiar, reduzir tarifa e garantir, de fato, passe livre para os desempregados”.

O candidato Jilmar Tatto afirmou que pretende retomar o programa “Braços Abertos”, criado pela gestão do petista Fernando Haddad, para solucionar o problema da Cracolândia. Segundo o candidato, “assim que a dupla Bruno e Doria assumiu a prefeitura, acabou com o programa e espalhou a Cracolândia na cidade”. “Essas pessoas precisam de assistência social e emprego, não violência. E nós vamos dar a eles oportunidade, retomando o programa ‘Braços Abertos’”.

Depois, um segundo grupo de candidatos respondeu sobre desemprego. Que medidas concretas o senhor pretende implementar para estimular a criação de empregos na cidade?

Guilherme Boulos declarou que pretende fazer frentes de trabalho na periferia da cidade e criar um programa de renda solidária na capital para gerar empregos. Segundo ele, as frentes de trabalho atuarão em trabalhos de zeladoria em vários bairros da periferia da cidade.

Considerações finais

Ao final, cada um teve oportunidade de fazer as considerações finais.

Orlando Silva afirmou que sabe o que povo vive. “Sei que o povo está cansado de ser enganado, mas nós temos que resgatar a esperança. Eu conheço a periferia e o racismo desde sempre, vivendo, sentindo. Eu sei o que é escola e saúde pública, sei o que é ser criado por uma mãe solo. Sei o que é uma enchente na sua casa, o que é trabalhar com 13 anos de idade. E essa experiência de vida que eu quero trazer para a construção política da cidade. Eu quero fazer nessa cidade um plano emergencial de emprego e renda para dar chance para o povo. Eu quero ver a nossa juventude brilhando pela cidade. E junto com a minha vice, enfermeira Andréia, quero governar essa cidade para quem mais precisa. Muito obrigado e vote 65. Peço o seu voto”.

Guilherme Boulos lembrou da sua candidata a vice, Luiza Erundina, e disse que juntos vão “colocar a periferia no centro”. “Há 30 anos, uma mulher nordestina, assistente social foi candidata a prefeita de São Paulo. O nome dela é Luiza Erundina. Achavam que ela não ia ganhar, que era muito radical. Ela ganhou e foi a melhor prefeita que essa cidade já teve. Agora, ela é minha vice e 30 anos depois vamos repetir essa história. Se você também quer derrotar o ‘bolsodoria’ em São Paulo, quer derrotar os esquemas, as máfias e colocar a periferia no centro, vem com a gente vamos virar esse jogo na maior cidade do Brasil, fazer dela uma capital da esperança. No dia 15 de novembro, vote PSOL, vote 50”.

Jilmar Tatto falou que implementou o bilhete único e os corredores de ônibus na cidade. “Cheguei em São Paulo com 13 anos, com 14 comecei a trabalhar de office-boy. Devo muito à essa cidade. Sou muito grato a essa cidade. Foi aqui que eu fui secretário de abastecimento, tive oportunidade de implantar almoço e janta nas escolas. Fui secretário na implantação das subprefeituras e fui secretário dos transportes. Implantei o bilhete único, os corredores de ônibus e as ciclovias. E tenho muito orgulho, muito orgulho mesmo, de ter apoio do presidente Lula, que foi o presidente que mais fez por esse país. Orgulho de ter o apoio do Fernando Haddad, que renegociou a dívida e que deixou dinheiro em caixa, diferente do que diz o Bruno Covas. E muito orgulho de ter apoio do PT e ter o vice Carlos Zaratinni. Vote 13, vote PT.”

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