De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A consagradora eleição de Luis Arce (MAS) para a presidência da Bolívia é o principal destaque da análise internacional da cientista política Ana Prestes. A vitória eleitoral do Partido Trabalhista da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, o avanço no registro da chapa Arauz-Rabascall no Equador, as grandes manifestações no Chile, a marcha Minga Social e Comunitária na Colômbia e as tensões entre China e Estados Unidos no Mar do Sul são os outros temas analisados nesta segunda-feira (19).

Luis Arce, candidato do MAS e de Evo Morales, é cumprimento por sua eleição para presidência da Bolívia l Foto: Divulgação

Um ano após o golpe de novembro de 2019, o MAS, partido do ex-presidente Evo Morales, volta a vencer as eleições na Bolívia. Foi uma eleição extremamente monitorada e observada. Mesmo em meio a uma pandemia, centenas de observadores internacionais dos mais diferentes organismos, parlamentares e organizações desembarcaram no país credenciados para acompanhar o pleito. Houve uma tentativa de intimidação e bloqueio de entrada de um dos observadores, o parlamentar argentino Federico Faglioli, da Frente de Todos no sábado (17), véspera da eleição. O ministro forte de Añez, Arturo Murillo, tentou a partir desse evento criar um clima de controle do país e rechaço a apoiadores internacionais do MAS, mas acabou se ridicularizando ao fazer uma entrevista coletiva com slides em power point mostrando que Fede não era bem vindo na Bolívia por sua militância antigolpismo boliviano nas redes sociais.  O mesmo Murillo circulou pelas áreas centrais de La Paz no sábado pela noite revistando tropas e contingentes das forças de segurança em mais uma cena intimidatória. Outro evento do sábado foi o anúncio por parte de Salvador Romero, presidente do Tribunal Eleitoral, de que não seria utilizado o sistema de atualização automática dos votos, o que provoca um longo processo de contagem das cédulas que pode terminar somente na quarta ou quinta-feira dessa semana. Enquanto esses eventos ocorriam, os dirigentes do MAS entoavam um verdadeiro mantra junto a população: “vamos pacificamente exercer nosso direito ao voto”. Quantas vezes Arce e Choquehuanca usaram a palavra na véspera e no dia da eleição foi para emitir a mensagem do silencioso e pacífico exercício cívico do voto. O mesmo com Evo. Ao longo do dia de votação houve incidentes isolados, como urnas abertas mais cedo ou mais tarde, tanto na Bolívia como nos postos de votação no exterior, caso de São Paulo, onde houve atraso para fechamento de urnas. Houve repressão à reunião de apoiadores do MAS em algumas regiões. Mas o cenário geral foi de uma massiva, silenciosa e impressionante marcha às urnas e uma mensagem tão acachapante de vitória do MAS, que mesmo com menos de 10% das urnas oficialmente apuradas, a presidente de fato Jeanine Añez reconheceu a vitória de Arce no primeiro turno ainda na madrugada de domingo para segunda-feira (19), assim que foram divulgadas as pesquisas de boca de urna e o que eles chamam de “conteo rápido” feito pelo Instituto Ciesmori, em uma espécie de privatização da apuração eleitoral. A demora para o anúncio desses resultados ajudou a gerar ansiedade na expectativa de alguma notícia sobre a votação, provocando inclusive mensagem questionadora emitida por Evo sobre o propósito de tal atraso. Talvez fosse uma última tentativa do consórcio golpista em ter algum controle do tempo, dos dados e da narrativa, enquanto o mundo inteiro já dava como certa a vitória do MAS.

Houve eleição também na Nova Zelândia, no sábado (17). O Partido Trabalhista, da primeira ministra Jacinda Ardern (40 anos), obteve uma vitória bastante expressiva, conquistando 64 assentos em um parlamento de 120, o Partido Nacional, da sua rival Judith Collins, ficou com 35 assentos. Foi o mais forte apoio ao partido em pelo menos 50 anos, nas palavras da própria primeira ministra em seu discurso de vitória em Auckland. Ardern ganhou notoriedade mundial em alguns momentos de crise, como no episódio do atentado na mesquita de Christchurch contra muçulmanos em 2019, mas principalmente na condução da crise da pandemia do novo coronavírus ao longo de 2020. A Nova Zelândia é um país de 5 milhões de habitantes e perdeu 25 vidas para a Covid19, doença causada pelo vírus. Os neozelandeses votaram também em dois referendos: um sobre a eutanásia e outro sobre a descriminalização da maconha, mas enquanto escrevia as Notas não consegui encontrar a divulgação oficial dos resultados dos dois referendos. (infos da DW)

Outro evento eleitoral importante que se deu ontem aqui na América do Sul foi no Equador. Em uma novela que parece sem fim, a chapa União pela Esperança, formada por Arauz-Rabascall, que representa o correísmo na corrida presidencial, mais uma vez passou pelo crivo da autoridade eleitoral, com novo risco de impugnação. Na noite de ontem, enquanto aguardávamos notícias da Bolívia, chegaram notícias de que o Tribunal Contencioso Eleitoral do Equador havia negado um recurso apresentado pelo movimento Ahora que questionava a substituição de Rafael Correa na chapa por Carlos Rabascall. A votação foi de três votos contra dois entre os magistrados. Pelo menos esse recurso não pode mais ser apresentado. Nem tudo está resolvido, mas já é uma grande vitória. Agora a chapa ganhou um prazo para resolver a questão da cédula de identidade de Arauz nos documentos de inscrição (estranhamente apareceu a cédula de outra pessoa no lugar da dele) e também substituir a documentação de Correa pela de Rabascall. Até este momento, seis chapas estão inscritas para concorrer nas eleições equatorianas de 7 de fevereiro de 2021. Há outras seis em processo de averiguação dos documentos.

Neste domingo (18) também houve uma multitudinária manifestação popular nas ruas de Santiago no Chile. A Plaza Dignidad, nome dado pelos manifestantes à Plaza Itália, se multiplicou em milhares para a celebração de um ano das marchas de 2019 organizadas pelos movimentos sociais contra a agenda repressora e neoliberal de Sebastián Piñera. O resultado da grande onda de protestos foi a decisão por um referendo constitucional em vias de ocorrer no próximo dia 25 de novembro. As marchas do ano passado também foram marcadas pela violência repressora do Estado com dezenas de mortos, milhares de feridos pelos carabineros e centenas de cegos. Houve grupos também que tentaram desacreditar as marchas pacíficas, com provocações e eventos de saques e violência, como o que resultou (ainda a ser melhor apurado) no incêndio de igrejas, como a cúpula incendiada da Igreja de Assunção, justamente conhecida como a igreja dos artistas, além da igreja de São Borja, conhecida como “igreja dos carabineros”.

Ainda na América do Sul, o domingo culminou com a chegada à Bogotá, capital da Colômbia, de uma marcha que os colombianos chamam de Minga Social e Comunitária, pela multiplicidade de atores étnicos e sociais que a compõem. Cerca de 10 mil pessoas provenientes do interior do país marcharam saindo de várias partes do país para uma série de agendas com a presidência da República e seus ministérios. A prefeita de Bogotá, Claudia López, tratou logo de se diferenciar do governo Duque e disse que “as marchas que temos esta semana em Bogotá são fruto dos desacordos do governo nacional com a cidadania e a impossibilidade que houve até agora do presidente se reunir diretamente com a Minga”, ela ainda disponibilizou o Palácio dos Esportes da prefeitura para abrigar mais de 6000 indígenas que fazem parte da marcha e apelou a Polícia que respeite as manifestações e que do “nível nacional não venham instruções contrárias”. A pauta dos movimentos que compõem a Minga é extensa, desde a exigência do respeito aos direitos humanos, em um país em que a matança de lideranças sociais é absurda, indizível até, direito à terra, direitos trabalhistas, aos serviços básicos de saúde, educação, assistência social, trabalho. Tudo. Um outro país na verdade.

Uma reportagem de Igor Gielow, na Folha de São Paulo no final de semana traz notícias de que os EUA enviaram pela terceira vez este ano o porta-aviões USS Ronald Reagan para o mar da China meridional ou mais conhecido Mar do Sul da China. Trata-se de um enorme navio de propulsão nuclear que pode operar até 90 aeronaves e navega acompanhado de um cruzador e dois destroiers, além de navios de apoio. Em julho desse ano, os EUA fizeram pela primeira vez desde 2012 exercícios com dois porta-aviões na região. O Mar do Sul da China cobre uma região com mais de 250 pequenas ilhas e banha as costas do Vietnã, Filipinas, Malásia, Singapura, Brunei, Indonésia, Tailândia e Camboja. Muitos desses países possuem campos de petróleo sob essas águas. Os territórios chineses de Hong Kong, Taiwan e Macau também são tocados por essas águas. Segundo a agência chinesa de notícias Xinhua, o presidente chinês Xi Jin Ping em visita a uma base militar em Guangdong referiu-se à presença americana e pediu à marinha chinesa para “se manter em alerta”.

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