Condução de Bolsonaro na pandemia é criticada pelo NY Times

Em análise da condução da pandemia de Covid-19, matéria do The New York Times aponta ações de Trump e Bolsonaro prejudiciais ao combate do coronavírus na América Latina

Donald Trump e Jair Bolsonaro - Foto: Alan Santos/PR

A condução do governo Jair Bolsonaro da crise causada pela pandemia de Covid-19 foi mais uma vez tema de críticas internacionais. O jornal New York Times publicou nesta segunda-feira (27) uma matéria sobre como Trump e Bolsonaro prejudicaram o combate ao vírus na América Latina.

Segundo o jornal, Bolsonaro e Trump minaram a capacidade de defesa em relação ao coronavírus de três formas: expulsão dos médicos e enfermeiros cubanos, limitação à ação da principal agência internacional de saúde no combate à pandemia e a insistência com a hidroxicloroquina como tratamento para a Covid-19. 

Bolsonaro e Trump forçaram a saída de 10 mil médicos e enfermeiros cubanos de áreas no Brasil, Equador, Bolívia e El Salvador um pouco antes da pandemia irromper. Os médicos cubanos atendiam principalmente em pequenas comunidades na bacia da Amazônia, lugares em que a assistência médica era inexistente ou precarizada. Estudos acadêmicos demonstram o aumento no nível de satisfação do paciente com o programa, além da redução de mortalidade infantil. 

Os países que recebiam os médicos pagavam US$ 4.300 à Cuba, que depois repassava cerca de US$ 900 para os profissionais da saúde. Com a justificativa de “escravidão moderna”, Bolsonaro pressionou pela saída dos oito mil médicos cubanos que residiam no Brasil. Eles foram chamados de volta ao seu país antes que Bolsonaro tomasse posse. O discurso repercutiu nos EUA e gerou um processo contra a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS) por suposto tráfico humano. Apesar de legalmente frágil, o processo teve impacto político e levou Equador, Bolívia e El Salvador a expulsarem mais de mil profissionais cubanos da área de saúde. 

Com isso, os líderes ampliaram os ataques à principal agência internacional de combate ao vírus: a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS), ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS). Especialistas da área de saúde apontam a OPAS como principal responsável pela erradicação da varíola, poliomielite e sarampo no continente americano. O jornal ouviu um ex-funcionário da OPAS e médicos latino americanos sobre a atuação da organização, que foi caracterizada como ausente em relação à expectativa.

Trump provocou escassez de recursos ao segurar repasses ao fundo internacional, o que ainda causa impactos em ações da organização. O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que “OPAS não tinha ferramentas nem dinheiro”. A justificativa da Casa Branca para segurar o investimento anual de US$110 milhões foi falta de transparência da agência, além de afirmar que ajudou a região por meio de outros programas. À exemplo de Trump, o governo brasileiro também suspendeu a contribuição de US$ 24 milhões. 

Por fim, com o apoio de Trump, Bolsonaro tornou a hidroxicloroquina o símbolo da resposta à Covid-19, apesar da ineficácia comprovada. Trump despachou dois milhões de doses de hidroxicloroquina para o Brasil após um aviso da agência americana Food and Drug Administration sobre o uso da droga. A matéria expõe como Bolsonaro teve dificuldade em encontrar um ministro disposto a compactuar com a hidroxicloroquina e o apoio da médica Nise Yamaguchi para legitimar o tratamento. 

O texto ainda faz comparações entre o líder brasileiro e americano, destacando o viés nacionalista e ataques à ciência. O discurso a favor da economia e a postura hostil contra adversários políticos e ideológicos são outros pontos de semelhança entre ambos. A abertura da matéria revela um momento determinante da parceria entre os presidentes conservadores. Segue a tradução do momento descrito pelos repórteres do The New York Times

“O coronavírus estava ganhando velocidade letal quando o Presidente Trump encontrou seu colega brasileiro, Jair Bolsonaro, em 7 de março para jantar no Mar-a-Lago. Bolsonaro havia cancelado naquela semana viagens para Itália, Polônia e Hungria, e o ministro da Saúde do Brasil havia o avisado para ficar longe da Flórida também.”

“Mas Bolsonaro insistiu, ansioso para gravar sua imagem de ‘Trump dos Trópicos’. Seus ajudantes sorridentes posaram no resort do presidente Trump com bonés verdes estampados com a frase ‘Make Brazil Great Again’. Trump declarou que não estava ‘nem um pouco preocupado’ antes de acompanhar Bolsonaro em cumprimentos pelo clube.”

“Vinte e duas pessoas na delegação de Bolsonaro testaram positivo para o vírus no retorno ao Brasil, ainda assim ele não ficou preocupado. Trump havia compartilhado a cura, Bolsonaro avisou aos conselheiros: uma caixa do medicamento anti-malária com a droga hidroxicloroquina, o tratamento não comprovado que Trump estava promovendo como remédio para a Covid-19.”

“‘Ele disse que a viagem foi maravilhosa, que eles se divertiram, que a vida estava normal em Mar-a-Lago, tudo estava curado, e que hidroxicloroquina era o remédio que deveria ser usado’, lembrou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido por Bolsonaro no mês seguinte por se opor ao uso da droga. ‘Daquele momento em diante, foi muito difícil fazer com que ele levasse a ciência à sério.’”

“O jantar de Mar-a-Lago, que se tornou famoso por espalhar infecção, concretizou a parceria entre Trump e Bolsonaro baseado na descrença compartilhada pelo vírus. Mas mesmo antes do jantar, os dois presidentes haviam lançado campanhas ideológicas que iriam prejudicar a habilidade de resposta da América Látina contra a Covid-19.”

Com informações de The New York Times

Trechos da reportagem de David D. Kirkpatrick e José María León Cabrera. Tradução: Rodrigo Abdalla

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