Empresa privada não tem condições de operar energia no Amapá, diz engenheiro

Segundo Ikaro Chaves, engenheiro da Eletronorte e diretor da Aesel, é necessária uma intervenção pública na subestação Macapá para avaliar e corrigir falhas.

Entrevista com Ikaro Chaves

A Linhas de Macapá Transmissora de Energia (LMTE), de propriedade da Isolux, empresa espanhola que agora foi assumida pela Gemini Energy, não tem condições mínimas de operar o fornecimento de energia no estado e deveria ter a concessão cassada, defende Ikaro Chaves, engenheiro eletricista da Eletronorte e presidente da Associação dos Engenheiros e Técnicos do Sistema Eletrobras (Aesel). Segundo ele, é necessária uma intervenção pública na subestação Macapá, onde ocorreu o incêndio que mergulhou o Amapá no escuro, para avaliar e corrigir falhas.

O engenheiro participou nesta terça-feira (17) de live do Portal Vermelho em que comentou a situação do sistema elétrico do Amapá e o drama dos amapaenses, que completaram hoje 16 dias com problemas no fornecimento de energia elétrica. No momento, o sistema está funcionando com 80% da carga e é feito um sistema de rodízio, o que só foi possível graças ao socorro da Eletrobras.

“A primeira coisa que o Ministério de Minas e Energia falou é que, se houve um sinistro, que essa empresa vá lá e recomponha. A empresa falou ‘Eu não tenho condições de recompor’, simples assim. As equipes da Eletronorte [subsidiária da Eletrobras] foram rapidamente mobilizadas, com apoio das Forças Armadas, e meus colegas conseguiram colocar pelo menos um transformador em operação, o que amenizou a situação, mas vamos lembrar que eles [moradores do Amapá] ficaram cinco dias sem energia nenhuma”, afirmou Chaves.

Segundo ele, para que fosse possível chegar à carga de 80% disponível hoje, os técnicos também colocaram em funcionamento uma máquina extra da usina hidrelétrica de Coracy Nunes, do grupo Eletrobras, que estava parada para manutenção. No entanto, a situação só deve se normalizar mesmo com a chegada de um transformador substituto de Laranjal do Jari, no sul do estado.

Suspeita de baixa qualidade de equipamentos

O engenheiro narrou os detalhes do incêndio que deixou 13 dos 16 municípios amapaenses no escuro e afirmou que a tese corrente entre os técnicos (não oficial, pois ainda não existem pareceres conclusivos das autoridades sobre as causas do acidente) é de que a baixa qualidade e falta de manutenção dos equipamentos da LMTE estão por trás do fogo.

Uma perícia preliminar da Polícia Civil do Amapá indicou que o incêndio que atingiu a subestação Macapá foi causado pelo superaquecimento de uma bucha. Bucha é o nome dado ao equipamento que faz a conexão entre a linha de transmissão e o transformador.

Mesmo que um raio tivesse atingido a linha de transmissão, hipótese informada pelo governo estadual do Amapá, mas descartada no laudo preliminar da Polícia Civil, Ikaro Chaves afirma que esta seria uma ocorrência relativamente normal e seria estranho causar um dano dessa proporção.

“A gente não pode afirmar com certeza, porque está sendo feito relatório de perturbação pelo ONS [Operador Nacional do Sistema] e pelos órgãos oficiais. Mas os relatos da população são que estava chovendo, caiu raio. Não no transformador, mas na linha [de transmissão]. Isso é normal. Raio cai o tempo todo. Existe sistema de proteção contra descarga atmosférica. [A hipótese é que] os sistemas funcionaram e uma pequena sobrecorrente na linha foi capaz de danificar o equipamento chamado bucha. Esse equipamento era ruim, não suportou essa corrente, aí veio a falhar”, comentou.

Segundo ele, além do problema com a bucha, outro evento estranho foi a explosão de um dos dois transformadores em operação. “Um deles sozinho não é capaz de atender toda a carga do estado, então os dois estavam funcionando ao mesmo tempo. Quando veio essa descarga, provavelmente danificou a bucha dos dois transformadores e os dois saíram [de funcionamento]. Só que um deles chegou a explodir, o que é inusitado. Transformador não foi feito para explodir, é muito raro acontecer”, comenta. O engenheiro relata ainda que uma análise do transformador que não explodiu detectou um nível elevado de acetileno, que é um gás altamente inflamável.

“O que deve ter acontecido, na nossa opinião, é falha do equipamento e falha de manutenção, porque se houvesse manutenção correta os técnicos teriam identificado essa fragilidade. É uma estação nova, tem pouco mais de cinco anos de funcionamento”, acrescenta.

Empresa que venceu leilão faliu

A subestação de Macapá foi construída pela LMTE. Por trás desta empresa está a Isolux, empresa espanhola que venceu um leilão em 2008, ao apresentar o projeto com o custo mais baixo para construção e operação da linha. Falida, a Isolux foi assumida no início deste ano pela Gemini Energy, que, segundo Ikaro Chaves, é controlada por fundos de investimentos.

“Ninguém sabe nem quem é o dono daquilo. São empresas que não têm experiência no setor elétrico e tratam como se fosse um negócio qualquer”, afirma.

O engenheiro diz esperar que o ocorrido leve o governo federal a tomar providências. “É preciso cassar a concessão dessa empresa urgentemente. É uma empresa que não tem como fazer a gestão dos equipamentos dela, não tem equipe para atuar. Se esses equipamentos já estão defeituosos, certamente vai ter outros defeituosos ali. É preciso que uma empresa pública assuma, faça auditoria completa de tudo que precisa ser feito, trocado ali. Isso é urgente”, defendeu.

Chaves afirmou ainda que o drama do Amapá reforça a necessidade de enterrar “definitivamente” o projeto de privatização da Eletrobras. “Espero que a privatização da Eletrobras seja definitivamente enterrada e que, pelo contrário, ela seja fortalecida. A Eletrobras está sendo sucateada por esse governo. A Eletronorte e outras do grupo Eletrobras estão demitindo trabalhadores. Esses trabalhadores que estão no Amapá estão em lista de demissão, para serem demitidos em janeiro”.

Confira o bate-papo na íntegra:

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