A incansável luta do Governo Federal contra o Dia da Consciência Negra

Vice-presidente nega fator racial no espancamento de homem negro por seguranças do Carrefour de Porto Alegre. Bolsonaro ignora o fato e Fundação Palmares recebe protesto na porta por disseminar racismo com dinheiro público

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares

O vice-presidente deveria seguir o exemplo de Bolsonaro e ficar calado no Dia da Consciência Negra, assim como faz a Fundação Palmares, que deixa de existir nesse feriado, em vez de tornar-se a protagonista dele. Se não houvesse um assassinato de um trabalhador negro, em pleno feriado de luta, já seria muito ruim ouvir um governante totalmente alienado da realidade de seu povo de maioria negra. Com a morte brutal de João Alberto Silveira Freitas, o comentário beira a insensibilidade com a indignação de tantos cidadãos.

Pois, o vice-presidente Hamilton Mourão lamentou o espancamento de um homem negro até a morte por seguranças de um supermercado Carrefour em Porto Alegre, mas disse não considerar que o episódio tenha sido provocado por racismo.

Ao comentar o episódio, filmado e divulgado desde o fim da noite de quinta, Mourão afirmou que a equipe de segurança do estabelecimento estava “totalmente despreparada”, mas disse que não existe racismo no Brasil.

“Lamentável isso aí. A princípio é a segurança totalmente despreparada para a atividade que tem que fazer”, disse o vice, ao chegar em seu gabinete no Palácio do Planalto, em Brasília.

Questionado se considerava que o episódio mostrava um problema de racismo no Brasil, Mourão respondeu: “Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui. Eu digo, pra você, com toda tranquilidade, não tem racismo”.

O vice foi novamente perguntado por jornalistas se não enxergava um componente racial no episódio. Ele reiterou que não considerava um caso de racismo.

“Não, eu digo para vocês pelo seguinte: porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos. Na minha escola, o pessoal de cor andava separado, [algo] que eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente, e fiquei impressionado com isso aí”.

Mourão afirmou que morou nos EUA no final da década de 60, quando o debate sobre direitos civis e segregação estava no auge.

“Isso no final da década de 60. Mais ainda, o pessoal de cor sentava atrás do ônibus, isso é racismo. Aqui não existe. Aqui, o que você pode pegar e dizer é o seguinte: existe desigualdade. Isso é uma coisa que existe no nosso país. Nós temos uma brutal desigualdade aqui, fruto de uma série de problemas, e grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidade da sociedade moderna, são gente de cor”. Aqui, caberia se questionar o por quê dessa correlação.

Auto-homenagem

Já o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, publicou no Twitter uma menção a Pelé. Na foto, o maior jogador de futebol de todos os tempos aparece ofertando-lhe uma camisa do Santos autografada, o que sugere que a homenagem é a si mesmo. “Obrigado Pelé. Bom dia a todos”, é o comentário seco que acompanha a imagem.

Nem sequer 180 caracteres sobre o assassinato em Porto Alegre, apesar da comoção nacional. A julgar pela manifestação ponderada, delicada e empática do vice-presidente, é melhor que Bolsonaro, que chama vítimas da Covid-19 de “maricas”, não se manifeste para não causar convulsão social.

Racismo institucional

Outra demonstração de que há um descompasso entre o Governo Federal e seus governados foi o protesto do Dia da Consciência Negra ter sido programado em frente à Fundação Palmares, órgão federal que deveria representar o combate ao racismo por meio da preservação da cultura afro-brasileira, mas que tem sido visto pelos movimentos negros e pelo Judiciário como um disseminador de racismo institucional.

Em reunião à portas fechadas com dois servidores, no dia 30 de abril, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, classificou o movimento negro como “escória maldita”, que abriga “vagabundos”, e chamou Zumbi de “filho da puta que escravizava pretos”. Segundo áudio obtido pelo jornal Estado de S. Paulo, Camargo também se referiu a uma mãe de santo como “macumbeira” e prometeu botar na rua diretores da autarquia que não tiverem como “meta” a demissão de um “esquerdista”.

Camargo chegou a ser afastado do comando da Fundação, durante três meses, por uma liminar que restringiu suas opiniões em redes sociais. Na época, a Justiça considerou suas declarações, minimizando o crime de racismo, incompatíveis com o cargo. Por causa da suspensão, ele teve de devolver o salário de dezembro de 2019 e tentaria parcelar o débito em dez vezes, pois havia contraído cerca de R$ 50 mil em dívidas.

Camargo criticou mais de uma vez Zumbi dos Palmares, que dá nome à autarquia. “Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares, que, para mim, era um filho da puta que escravizava pretos. Não tenho que apoiar agenda consciência negra. Aqui não vai ter, vai ter zero da consciência negra. Quando cheguei aqui, tinham eventos até no Amapá, tinha show de pagode no dia da consciência negra”.

O Ministério Público Federal (MPF) encaminhou representação à Procuradoria da República no Distrito Federal, no mês passado, pedindo que o presidente da Fundação Palmares responda na Justiça por improbidade administrativa. A iniciativa foi tomada depois de Camargo ter determinado, no dia 13 de maio – data em que a abolição da escravatura completou 132 anos –, a publicação de uma série de artigos depreciativos sobre Zumbi, símbolo do movimento negro no Brasil, no site oficial da instituição e nas redes sociais.

Em 29 de maio, Camargo publicou um ato que cria o “Palmares garante, não é racista” e “Palmares assegura, não é racista”. Ele informou que o selo é “o certificado de que a pessoa, acusada de racismo, está sendo, na verdade, vítima de campanha de difamação e execração” e que o selo será “concedido a todos que, injustamente e criminosamente, são tachados de racistas pela esquerda vitimista, com o apoio da mídia, artistas e intelectuais”.

O presidente da Fundação Palmares já esteve no centro de outras polêmicas: pediu o fim do Dia da Consciência Negra e disse que a escravidão foi benéfica para os descendentes de escravizados no país. O “selo antirracista” entra para essa lista. 

A Fundação Palmares alega que o selo está alinhado com a finalidade da fundação de promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira.

Mas o festival de absurdos não para por aí. Além de frequentemente ofender e xingar personalidades negras como a cantora Alcione, a Fundação Palmares excluiu nomes como Gilberto Gil e Elza Soares da lista das personalidades negras que marcaram o Brasil. A medida foi anunciada no dia 10 de novembro e publicada no Diário Oficial da União na quarta-feira (11).

A fundação decidiu realizar apenas homenagens póstumas. Camargo alega que “o critério da seleção passa a ser a relevante contribuição histórica” e que “vários nomes” serão excluídos enquanto “novas personalidades serão incluídas em razão do mérito e da nobreza de caráter”.

Segundo o presidente da Fundação Palmares, a lista oficial e final será divulgada em 1º de dezembro, com todas as alterações. Aguardavam-se novos absurdos para a data anunciada. No entanto, no dia seguinte, Sérgio Camargo voltou ao seu perfil no Twitter para adiantar alguns nomes. “Serão adicionados, entre outros, Mussum, Wilson Simonal, Luiz Melodia e João do Pulo”, escreveu.

Com a alteração, a lista da Fundação Palmares de personalidades negras deverá excluir nomes como: Milton Nascimento, Leci Brandão, Givânia Maria da Silva (uma das fundadoras da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – CONAQ), Martinho da Vila, Sandra de Sá, Sueli Carneiro e Zezé Motta.

Em outubro, Camargo excluiu a ex-senadora Marina Silva (Rede) da lista de personalidades negras da Fundação Palmares. Além disso, afirmou que ela, os deputados David Miranda e Talíria Petrone (ambos do PSOL-RJ), o ex-deputado Jean Wyllys e a cantora Preta Gil declaram-se negros “por conveniência”. “Marina Silva autodeclara-se negra por conveniência política. Não é um caso isolado. Jean Willys, Talíria Petrone, David Miranda (branco) e Preta Gil também são pretos por conveniência. Posar de ‘vítima’ e de ‘oprimido’ rende dividendos eleitorais e, em alguns casos, financeiros”, escreveu Camargo no Twitter.

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