‘Meu voto será negro’: dificuldades da eleição de mulheres pretas

Uma onda de mulheres pretas concorreu a cargos públicos em 2020, mas acharam o teto de vidro difícil de quebrar

Mensagens pedindo aos afro-brasileiros que apoiem os candidatos negros encheram as redes sociais nos dias anteriores às eleições de 15 de novembro de 2020 no Brasil.

Mensagens pedindo aos afro-brasileiros que apoiem os candidatos negros encheram as redes sociais nos dias anteriores às eleições de 15 de novembro de 2020 no Brasil.

“Não se esqueça das suas máscaras, da sua identificação, da caneta e de que você é NEGRO !!!”

“Neste domingo, meu voto será negro.”

Os afrodescendentes representam 56% da população do Brasil e apenas 17,8% do Congresso. Mas a participação política negra está crescendo no Brasil, especialmente nos governos locais.

Cerca de 250.840 negros brasileiros concorreram a vereadores este ano, contra 235.105 em 2016. Quando os vencedores tomarem posse, os afro-brasileiros representarão 44% dos vereadores em todo o país.

As mulheres afro-brasileiras também tiveram estreias significativas nas eleições de 2020, ganhando 14% dos assentos nas Câmaras Municipais em todo o país. Na eleição de 2016, as mulheres afro-brasileiras conquistaram apenas 3,9% das cadeiras de vereança.

As mulheres negras ainda atingem um teto de vidro rígido quando almejam cargos mais altos, no entanto. Apenas 13 dos 513 representantes na Câmara de deputados do Congresso do Brasil são mulheres afro-brasileiras, e o Senado de 81 membros tem apenas uma mulher negra, Eliziane Gama. A primeira negra a governar no Brasil, Benedita da Silva, perdeu este ano a candidatura a prefeita do Rio de Janeiro.

Mas vencer não é necessariamente a única razão pela qual as mulheres afro-brasileiras entraram na campanha.

O efeito Marielle

A participação política das mulheres negras disparou no Brasil desde o assassinato de Marielle Franco em 2018 no Rio de Janeiro. Marielle era uma vereadora negra lésbica que defendia as comunidades pobres das favelas da cidade, no que a mídia brasileira apelidou de “o Efeito Marielle”.

“O assassinato de Marielle poderia ter tido um efeito assustador sobre os candidatos negros, [mas] em vez disso inspirou uma onda de candidaturas negras”, escreve a estudiosa afro-brasileira Dalila Negreiros na publicação NACLA Report on the Americas.

Mesmo antes da morte dela, havia muitas mulheres políticas negras – e minha pesquisa mostra como elas abriram a porta para candidaturas inovadoras como a de Franco. As pioneiras incluem Benedita da Silva, bem como Janete Pietá, que representou São Paulo no Congresso de 2007 a 2015.

Benedita da Silva, do Partido dos Trabalhadores, em campanha no Rio em 1992.

Entrevistei Pietá e muitas outras mulheres políticas negras no Brasil entre 2004 e 2007. Isso foi durante o boom econômico do Brasil sob o presidente Luis Inácio Lula da Silva. A maioria das mulheres cujas campanhas eu estudei eram do Partido dos Trabalhadores, de Lula, mas uma, Eronildes Carvalho, era uma evangélica de direita.

Descobri que as mulheres costumavam usar raça e gênero em suas campanhas para mobilizar eleitores, especialmente em cidades predominantemente negras.

Ao concorrer ao Congresso, Pietá me disse que usava cores vivas e penteava estilos interessantes, com tranças curtas na frente, como franja, e tranças mais compridas nas costas, para mostrar orgulho de sua ancestralidade africana – “mesmo que pareça como uma piada” para alguns.

“Grande parte da população brasileira … tem ascendência africana. No entanto, alguns deles não têm consciência disso”, disse-me Pietá.

Olivia Santana também destacou sua raça e gênero ao concorrer à vereadora de Salvador, em 2004. Ela se anunciou com orgulho como a “Negona da cidade”.

“Era um slogan que falava mais sobre a história das eleições, da participação negra nas eleições”, disse Santana em 2006. “Minha campanha tornou visível a questão racial negra”.

Embora os vereadores possam ver sua raça e gênero como uma vantagem, descobri que os afro-brasileiros que concorrem a um cargo federal não acreditam que recursos raciais sejam úteis.

Olivia Santana em 2011. Mateus Pereira / AGECOM, CC BY

Mais que uma campanha

Não consegui encontrar uma pesquisa sobre as percepções nacionais das mulheres negras para verificar se as percepções das candidatas eram apoiadas por dados. Mas a relação do Brasil com a raça é preocupante – e esse fato está bem documentado.

Embora há muito mitificado como uma “democracia racial” mestiça, a realidade no Brasil é mais preta e branca.

Como nos Estados Unidos, os negros no Brasil geralmente têm pior saúde, empregos e resultados econômicos do que os brancos. Eles têm 40% mais chances de morrer de Covid-19 do que os brancos e, apesar de algumas políticas de ação afirmativa, enfrentam desemprego maior. Homens negros são mortos diariamente pela polícia militar que patrulha as ruas de muitos bairros pobres – e predominantemente negros – no Brasil.

A desigualdade continua até mesmo para os afro-brasileiros que sobem na escala social. Os universitários brancos ganham 45% mais do que seus colegas afro-brasileiros.

Quando um homem negro, João Freitas, foi espancado e morto por dois seguranças brancos em um supermercado em Porto Alegre, em 19 de novembro de 2020, o comentário desdenhoso do presidente Jair Bolsonaro foi “todos têm a mesma cor”.

“No Brasil não existe racismo”, foi a resposta do vice-presidente.

Manifestantes diante de um supermercado Carrefour na cidade de Niterói, em 22 de novembro de 2020, depois que um homem negro foi morto por seguranças do Carrefour.

Prefeita negra

Como políticas e ativistas, as mulheres afro-brasileiras fizeram do racismo um tema de campanha. Elas discutem por que cortes no orçamento do sistema público de saúde prejudicariam desproporcionalmente os negros brasileiros e promoveriam licença familiar remunerada, educando os cidadãos afro-brasileiros sobre como o racismo, sexismo e classismo – sozinhos e combinados – afetam suas vidas.

É por isso que concorrer a um cargo é mais do que uma campanha política para as mulheres afro-brasileiras, conclui minha pesquisa. Enquanto dirigem por aí gritando mensagens de carros, consideram prefeituras e veiculam anúncios nas redes sociais, elas aumentam a consciência racial de seus constituintes e expandem a agenda política de seu partido.

Este ano, 16 anos depois de eu ter seguido sua campanha pela primeira vez, Olivia Santana pediu novamente aos eleitores que confiassem seu voto às mulheres negras. No Facebook e no Twitter, ela postou jingles políticos cativantes com letras como “Preta prefeita, respeita a preta” – feito em um estilo musical popular no Nordeste brasileiro fortemente negro.

Nesse vídeo da campanha, jovens afro-brasileiros usando máscaras dançam ao lado de Santana, que também está mascarada.

“Não é apenas o povo dos Estados Unidos que pode eleger uma mulher como Kamala Harris”, ela tuitou em 13 de novembro de 2020. “Também podemos fazer a diferença para esta cidade.”

Olivia Santana perdeu sua candidatura para prefeita em 2020, uma das várias mulheres políticas veteranas negras que falhou.

O progresso é lento. Mas ganhe ou perca, as mulheres negras brasileiras estão abrindo portas para o futuro.

Gladys Mitchell-Walthour é professora associada de Política Pública e Economia Política, da Universidade de Wisconsin-Milwaukee

Tradução por Cezar Xavier

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