Ultraliberais em crise: o mercado já começou a rifar Paulo Guedes

Aos olhos do rentismo, trabalho do ministro é marcado por desgaste e falta de articulação

Paulo Guedes

A blindagem conquistada há dois anos pelo ministro Paulo Guedes (Economia) junto ao mercado financeiro ruiu. De quase unanimidade entre rentistas – fiel da balança do governo Jair Bolsonaro –, Guedes virou um gestor fragilizado e substituível. Segundo o jornal Valor Econômico – que ouviu executivos de bancos e investidores institucionais –, o outrora superministro está marcado, hoje, pelo “desgaste crescente” e pela “falta de articulação para encaminhar a questão fiscal do País”.

“Uma eventual saída de Guedes já não representaria mais uma ruptura para o mercado, desde que seu substituto mostre comprometimento com uma agenda responsável para tirar o país do abismo e capacidade de execução. Gestores de recursos mostram não acreditar que o país conseguirá trilhar uma trajetória fiscal sustentável”, choraminga o jornal.

É fato que a situação fiscal do País se deteriorou ainda mais com Bolsonaro/Guedes. Mas o receituário ultraliberal – que prevê privatizações, cortes em áreas sociais e reformas conservadoras – perdeu força no Congresso, sobretudo com a pandemia de Covid-19. Pautas entreguistas já não se impõem com a mesma celeridade com que o governo aprovou, por exemplo, a nefasta reforma da Previdência, em 2019.

Um dos representantes do mercado que não esconde o desapontamento com Paulo Guedes é Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo. “O ministro parece cego, não enxerga o que está acontecendo. A resposta foi negativa, com ele fazendo pouco das pessoas que tentam ser construtivas e contribuir para a conversa”, disse Woelz, nesta semana, durante evento da plataforma de investimentos Vitreo com a Empiricus.

Na opinião dele, falta clareza e falta rumo a Guedes. “Em vez de falar de cabotagem, tinha que falar da trajetória fiscal. Se a Fazenda não falar, ninguém vai falar. Tem que ser explícito no plano – daí é possível entender qual a probabilidade de dar certo.”

Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital, “acusa” Guedes de ter adotado uma postura em que basicamente esquece como são os ciclos políticos no Brasil, em que só se consegue fazer reformas efetivamente no primeiro ano de gestão, quando chega com a popularidade em alta. “Estou muito cético de que vá encontrar uma solução para nosso problema fiscal”, diz Xavier. “Não vejo vontade política nenhuma do Executivo de andar com essa agenda. A agenda política é para o outro lado, de fazer mais bondades.”

Para Pedro Dreux, sócio e gestor da Occam, “a efetividade na aprovação de reformas é muito baixa – em parte pela falta de articulação do governo e em parte por essa falta de senso de urgência dos congressistas”. Já o sócio-fundador da ACE Capital, Fabrício Taschetto, atira para todos os lados: “O presidente não tem demonstrado apoio à agenda de reformas, o ministério da Economia não entregou as reformas propostas e ainda vem falar em estender o auxílio emergencial”. Como se vê, o mercado quer que Guedes e Bolsonaro priorize mesmo os rentistas, em detrimento do povo brasileiro.

Com Guedes desidratado, investidores já começam a rifá-lo e a cogitar a possibilidade de substituição. O diretor-geral da Fator Administração de Recursos, Paulo Gala, diz que a permanência do ministro no governo ainda serve para tranquilizar os investidores de que nenhuma guinada vá ocorrer na condução da política econômica. Mas um investidor resume o humor geral: “Assumindo um nome bom, [a demissão de Guedes] não vai ser um baque, não”.

Com informações do Valor Econômico

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