Em 2020, Bolsonaro cometeu pelo menos um ataque ao jornalismo por dia

Monitoramento da FENAJ aponta 299 ataques confirmados à imprensa em nove meses, revelando estratégia sistemática de desinformação da população. Foram 38 agressões diretas a jornalistas profissionais até setembro.

Presidência da República mantém estratégia sistemática de descredibilização da imprensa e dos jornalistas junto à sociedade.

Às vésperas do Natal, em entrevista ao blog do seu filho Eduardo, o presidente Jair Bolsonaro enfatizou, claramente e sem rodeios, o que pensa sobre a imprensa:

“É uma imprensa canalha, que não vale nada. E um detalhe. Por que são bravos comigo? Mais de R$ 1 bilhão por ano que faturavam de propaganda oficial de governo previsto para orçamento ou de dinheiro de estatais ou de bancos, e o dinheiro não é para gastar com essa imprensa que é mestre de fake news. Nesse ano, cancelei todos os contratos de compra de jornais e periódicos. Não assina mais. E ai se eu pegar um ministério com (jornais), o ministro vai ter problema”.

O tratamento abjeto dispensado por Jair Bolsonaro à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, foi somente o mais saliente episódio de uma longa lista de factoides produzidos pelo presidente na sua relação com a imprensa brasileira, ou pelo menos com parte dela. “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, disse Bolsonaro aos risos na saída do Palácio da Alvorada.

Até setembro, já havia chegado ao número de 299 declarações ofensivas ao jornalismo, de janeiro a setembro deste ano. Em 2019, foram 116 ataques, mostrando que o presidente mais que triplicou as menções negativas à imprensa. O monitoramento é feito pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e inclui todas as falas do presidente que vêm a público, incluindo postagens em redes sociais, lives, entrevistas e declarações oficiais.

O total de ataques no ano corresponde a 33 casos por mês, em média. A maioria, 259, é classificada como descredibilização da imprensa, quando o presidente investe contra o jornalismo em geral, ou contra um veículo específico. Trinta e oito casos foram registrados como “ataque a jornalista”, que acontece quando Bolsonaro se dirige diretamente a algum profissional da mídia. Outros dois casos são classificados como ataque a organização sindical, momentos em que Bolsonaro investiu contra a própria FENAJ.

O levantamento da Fenaj também não havia computado, ainda, o ataque de Bolsonaro no dia 18/12, durante cerimônia de formatura de soldados da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Ele declarou que, “essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês.” O presidente também insinuou que as fake news surgem, em sua maioria, na própria imprensa, defendendo as redes sociais, já identificadas como maior foco de desinformação: “contamos com o povo maravilhoso ao nosso lado, e a liberdade das mídias sociais, que essa, sim, traz a verdade para vocês. Que a maior fábrica de fake news está em grande parte na imprensa brasileira”.

O primeiro ataque do ano

Não demorou muito para Jair Bolsonaro atacar a imprensa em 2020. Já no dia 6, o presidente afirmou que o jornalismo está em extinção e deveria ser vinculado ao Ibama (órgão responsável pela preservação do patrimônio natural). No entanto, aquele já era o 117o. ataque feito por ele ao jornalismo, o que mostra que o presidente se entusiasmou em 2020 com a estratégia, mais que triplicando os ataques.

Suas afirmações contra a imprensa geralmente partem do nada. Não são provocadas ou parte de um comentário relativo à imprensa. Naquele dia, numa entrevista em que apenas relatava uma conversa com os presidentes do Congresso, Bolsonaro disse que quem lê veículos de imprensa está desinformado.

“Quem não lê jornal não está informado. E quem lê está desinformado. Tem de mudar isso”, afirmou Bolsonaro, na manhã desta segunda, ao deixar o Palácio da Alvorada. “Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção”, prosseguiu.

Segundo ele, o governo cancelou a assinatura de “todos os jornais” no Palácio do Planalto. “Todos, todos, não recebo mais papel de jornal ou revista. Quem quiser que vai comprar”, afirmou. “Não me acusem de ter crucificado Jesus Cristo não, por favor, tá certo? Esse tipo de informação atrapalha a todos vocês. Cada vez mais a gente não confia em vocês.”

Antes disso, no sábado (4), Bolsonaro já havia criticado a cobertura jornalística do governo ao comentar, no Twitter, uma reportagem do UOL que mostra que ele usou recursos do fundo eleitoral na campanha na qual foi reeleito deputado em 2014.

Ameaça de agressão física e desinformação

Nos últimos meses, um dos mais graves ataques foi registrado em 23 de agosto, quando questionado por um jornalista, Bolsonaro disse “Vontade de encher sua boca na porrada… seu safado”. O repórter havia perguntado ao presidente sobre um depósito de R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, feito por Fabrício Queiroz, suspeito de operar o esquema de “rachadinha” do senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair. O episódio provocou uma reação em massa de pessoas repetindo a pergunta do jornalista nas redes sociais. Passados quase dois meses, o presidente ainda não veio a público esclarecer o depósito suspeito.

Não bastasse a gravidade da resposta de Bolsonaro, o caso foi complicado pela reação que desencadeou. Nas redes sociais, muitos apoiadores de Jair Bolsonaro exaltaram a fala do presidente, dizendo que jornalista merece sofrer agressões físicas. Muitos outros afirmaram que o repórter, na verdade, havia feito uma menção ofensiva à filha do presidente, dizendo “Vamos visitar sua filha na cadeia” antes da resposta de Bolsonaro. Na verdade, a fala foi feita por um ambulante, que disse “Vamos visitar nossa feirinha da Catedral”. O próprio presidente alimentou a informação mentirosa, postando em seu canal no Youtube o vídeo em que se ouve a fala do ambulante, com o título: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A postagem contribuiu para a confusão, potencializando ainda mais os comentários agressivos à imprensa, com os apoiadores do presidente dizendo que a mídia havia mentido.

Em junho de 2019, Bolsonaro afirmou que o jornalista Glenn Greenwald poderia “pegar uma cana no Brasil”. Greenwald, do site The Intercept Brasil divulgou vazamentos de mensagens entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, durante a Operação Lava Jato, revelando parcialidade na prisão do ex-presidente Lula e favorecimento a Bolsonaro.

O último caso de maior notoriedade em 2019 foi quando Bolsonaro disse a um repórter que ele tinha cara de “homossexual terrível”. Na ocasião, havia sido perguntado sobre o caso de corrupção que envolve o seu filho, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

Discurso na ONU

O presidente também fez uso de tribuna internacional para atacar o jornalismo com mentiras. Em 22 de setembro, abrindo a 75ª Assembleia Geral da ONU, responsabilizou os jornalistas do Brasil e de todo o planeta pelas consequências da pandemia da covid-19. “Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao país.”, disse Bolsonaro, quando o país já ultrapassava 100 mil mortos pela covid-19.

Por várias vezes, Jair Bolsonaro responsabilizou a imprensa por problemas de seu próprio governo, como as dificuldades para combater as queimadas que se espalharam pela Amazônia, Cerrado e Pantanal.

“O trabalho que realizamos com o monitoramento denota que o presidente Bolsonaro se utiliza dessa narrativa deliberada de ataques ao jornalismo como característica de seu governo. As formas de hostilização apenas mudam de local e de intensidade conforme os meses passam. Os profissionais jornalistas continuam expostos e sendo, em 2020, absurdamente acusados de serem responsáveis pela dimensão da pandemia no país, como se as consequências dela pudessem ser minimizadas ou não fossem assunto de interesse público”, finaliza Paula Zarth Padilha, diretora da FENAJ, que participa do monitoramento.

23 ataques em lives

Enquanto evitou entrevistas coletivas, Bolsonaro usou as lives semanais para proferir ataques ao jornalismo. Foram 23 registros de julho a setembro. Em 16 de julho, sobre as queimadas ao meio ambiente, disse que a imprensa nacional e internacional “publicou mentiras, fraudou números”, sem apresentar qualquer evidência disso. Em agosto, ao questionar cobertura da TV Globo, atacou a jornalista Maju Coutinho, o que desencadeou milhares de ofensas à apresentadora nas redes sociais, com a hashtag #MajuMentirosa. Apoiadores de Maju reagiram em defesa da jornalista, com a hashtag #MajuMaravilhosa.

O presidente também usou o twitter para atacar o jornalismo profissional. Em 14 de agosto, novamente se fazendo de vítima, afirmou que “não há dúvidas de que parte da grande imprensa tradicional virou partido político de oposição ao atual governo”.

É dever de qualquer autoridade, em todos os níveis, fornecer informações com seriedade, ocupando qualquer cargo público, do mesmo modo que cabe à imprensa, constitucionalmente, o papel de fiscalizar o poder. Consolida-se, dessa forma, a base do sistema Republicano, da democracia e do Estado de Direito. No entanto, no Governo Bolsonara, ocorre patrulhamento até juntos aos ministérios com manifestações de censura explícita. Foi o caso do apagão de dados sobre a pandemia promovido pelo presidente no Ministério da Saúde.

Ainda segundo levantamento da Fenaj, ao longo de 2019, Bolsonaro foi responsável por nada menos que 58% das agressões verbais contra os meios de comunicação e pessoas que neles trabalham, principalmente, com alvo nas mulheres jornalistas, falas sexuais, homofóbicas, etc.

Veja a linha do tempo com os ataques de Bolsonaro à imprensa no ano.

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