De Olho no Mundo, por Ana Prestes

Na primeira edição de 2021 do De Olho no Mundo, a analista internacional Ana Prestes destaca a entrevista do Ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, sobre os objetivos centrais da diplomacia chinesa, a tentativa de Donald Trump de fraudar as eleições no estado da Georgia visando reverter sua derrota para Joe Biden, o primeiro ano do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, a negativa da justiça britânica de extraditar Julian Assange para os EUA e os novos desafios de Cuba ao completar 62 anos de sua Revolução.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi (foto), apresentou no sábado (2) qual será o foco da diplomacia chinesa para o ano de 2021. Ele falou em uma entrevista coletiva para a Xinhua News e outras agências. A primeira parte da entrevista é um balanço sobre o que foi o ano de 2020 em termos de pandemia e das relações internacionais da China ao longo do ano: “em face da crise sanitária global, a China convocou por uma cooperação mundial desde o princípio e trabalhou com outros países para derrotar a pandemia, de acordo com sua visão de humanidade com futuro partilhado”, disse ele. Neste ponto, ele enfatizou bem que a China foi o primeiro país a apelar para que a vacina contra a Covid seja de alcance público global, um bem disponível a todos os seres humanos do planeta. Ele falou ainda que 2021 será um ano de aprofundar a parceria estratégica entre China e Rússia; de retomar as relações com os EUA que estão passando por “dificuldades sem precedentes”; sobre os 45 anos de relação diplomática entre a China e a União Europeia e a primeira vez em que o país é o principal parceiro comercial do bloco europeu, assim como a conclusão das negociações do tratado de investimentos China-UE; das relações China-ASEAN que completam 31 anos em 2021; do Fórum de Cooperação China-África; da relação com o Oriente Médio e o apoio à causa palestina e da “solução dos dois estados”; dos desafios do projeto de cooperação Iniciativa Cinturão e da Rota da Seda para 2021; do centenário do Partido Comunista da China em 2021 e o desafio da construção de “um país socialista moderno”. Leia a íntegra da entrevista (em inglês).

O primeiro final de semana de 2021 foi agitado nos EUA ao finalzinho da Era Trump. O jornal The Washington Post divulgou o áudio de uma conversa entre Trump e o Secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger. A gravação foi consentida pelo secretário. No telefonema, o presidente faz pressão para reverter sua derrota no Estado, com uma espécie de “recontagem” dos votos. No áudio ouve-se Trump falando: “eu só quero encontrar 11.780 votos”. O áudio é cheio especulações por parte de Trump, por exemplo, de que as máquinas de contagem dos votos possam ter sido adulteradas, com seu interior propositadamente trocado. Ao perceber que o secretário não concordava com essa abordagem, Trump fica mais incisivo e diz que estão ocorrendo “crimes eleitorais” e “você não pode deixar isso ocorrer”. Ao que Brad responde: “nós acreditamos que nossos números estão corretos”. O Estado da Geórgia está passando por eleições neste momento e que culminam amanhã, 5 de janeiro. Trata-se do segundo turno para as duas vagas ao Senado em uma disputa acirrada entre Democratas e Republicanos. A capa do New York Times de hoje (4) é “Em áudio, Trump pressiona Geórgia para ‘encontrar’ votos”, abaixo vem uma transcrição dos principais trechos da gravação. 

O “áudio de Trump” acabou por ofuscar o início dos trabalhos do novo Congresso dos EUA neste domingo (3). Na Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, de 80 anos, foi reeleita por 216 a 208 votos e continuará como presidente da mesa diretora da casa legislativa de maioria democrata. Houve relutância contra sua eleição por uma ala mais à esquerda dos democratas. Já a maioria no Senado ainda é incerta, justamente por conta da eleição para duas vagas de senadores na Geórgia que ocorrerá nesta terça-feira (4). A tendência é de que os senadores republicanos David Perdue e Kelly Loeffler mantenham suas cadeiras, dando a maioria no Senado para os republicanos. Mas, segundo Stacey Abrams, a grande líder democrata da Geórgia e que promoveu o acesso de 800 mil eleitores negros ao voto nas últimas eleições, “uma vitória democrata é possível”. Se os democratas vencerem, as cadeiras do Senado ficaram divididas em 50 para os democratas e 50 para os republicanos, cabendo à Kamalla Harris, vice-presidente do país e presidente do Senado, o voto de minerva.

Também no Washington Post do final de semana, dez ex-secretários de Defesa dos EUA escreveram uma carta aberta para dizer que na opinião deles a eleição presidencial já terminou. Assinaram: Ashton Carter, Dick Cheney, William Cohen, Mark Esper (foi ministro de Trump), Robert Gates, Chuck Hagel, James Mattis, Leon Panetta, William Perry e Donald Rumsfeld. A carta saiu no mesmo dia da divulgação do áudio de Trump pedindo a recontagem de votos na Geórgia. Segundo escrevem na carta, “o tempo de questionar os resultados já passou”.

Retrato do general iraniano Qassem Soleimani / Foto: © REUTERS – WANA NEWS AGENCY

Neste domingo (3), foi relembrada a passagem de um ano do assassinato do general iraniano Qasen Soleimani em solo iraquiano, Bagdá, por drones dos EUA. Passado um ano, o Iraque continua sendo palco dos ataques dos EUA ao Irã e ao próprio Iraque por tabela. É bom lembrar que junto com Soleimani foi morto também Abu Mahdi al Mohandes, uma liderança pró-iraniana que tinha muito papel no enfrentamento aos americanos em solo iraquiano. Na madrugada de sábado (2) para domingo foi realizada uma marcha com milhares de pessoas no Iraque no trajeto que vai até o aeroporto da capital Bagdá, onde foi realizado o assassinato. No centro da cidade também houve manifestações. Um dos pedidos dos manifestantes é para que o governo iraquiano pressione os EUA para a total retirada de militares estadunidenses do país. Por sua vez, o chanceler iraniano, Mohamad Yavad Zarif emitiu uma mensagem via sua conta no twitter no sábado véspera do aniversário: “a medida que nossa região celebra solenemente o primeiro aniversário, fica a lembrança de que o único beneficiário de seu assassinato foi o Daesch (ISIS), que aumentou sua atividade desde então”. Ele está se referindo ao grupo terrorista armado conhecido como Estado Islâmico.

A juíza britânica, Vanessa Baraitser, impediu a extradição de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, para os EUA após uma decisão tomada na manhã desta segunda (4). Assange se encontra na prisão de alta segurança de Belmarsh, arredores de Londres. Ele esteve por muitos anos refugiado na embaixada do Equador na Grã Bretanha, até ser preso em 2019. Nos EUA ele poderia pegar até 175 anos de prisão por ter divulgado, há dez anos, entre 2006 e 2010, mais de 700 mil documentos sobre atividades militares e diplomáticas do país, especialmente no Iraque e no Afeganistão. No último período, cresceu muito a pressão popular com abaixo-assinados e manifestações para que a saúde e a vida de Assange sejam preservadas. Segundo familiares e jornalistas, o estado geral de saúde dele está se deteriorando e em seu veredito, a juíza Baraitser se refere a risco iminente de suicídio. A comissária de direitos humanos da Alemanha, Barbel Kofler, é uma das autoridades europeias que pediu aos britânicos que tenham em conta aspectos humanitários e de saúde física e psíquica de Assange. Também o relator da ONU sobre tortura, Niels Melzer, enviou uma carta aberta ao presidente Trump para que perdoe Assange por “não ser um inimigo do povo estadunidense”. Segundo o jornalista Glenn Greenwald, hoje no Twitter, a decisão pela não extradição não foi uma vitória da liberdade de imprensa, pois a juíza deixou claro que acredita que há fundamentos para processar Assange pelas publicações do WikiLeaks. Ela não permitiu a extradição por considerar que os EUA possuem um sistema prisional desumano.

Há 62 anos Cuba comemorava a vitória de sua Revolução

Nos marcos do aniversário de 62 anos de sua Revolução, completados no último dia 1º. de janeiro, Cuba começa a nova década com desafios importantes. Ontem (3), o presidente Díaz-Canel anunciou que será realizada uma reedição da Caravana da Liberdade aos moldes da ocorrida entre 2 e 8 de janeiro de 1959, de Santiago até Havana, pelos integrantes do Exército Rebelde, para confirmar em cada território a vitória de então contra Fulgêncio Batista. Daquela época até hoje, os cubanos nunca tiveram uma folga dos ataques dos EUA. Nesse começo de 2021, o chanceler da ilha, Bruno Rodríguez, rechaçou as novas medidas punitivas do Departamento de Estado dos EUA para recrudescer o bloqueio contra seu país e apertar mais o cerco econômico. Dentro dessas novas medidas, conforme denúncia do ministro de Comércio Exterior, Rodrigo Malmierca, está a inclusão do BFI (Banco Financeiro Internacional) em uma lista de organizações sancionadas. O BFI é uma instituição financeira que funciona em Cuba desde 1984 e que serve para realização de transações correntes de cubanos para câmbio, transferências e compras com o exterior. A “justificativa” dada por Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, para inserir o banco na lista foi a da “eliminação do controle dos militares cubanos do setor bancário de Cuba (…) e o financiamento da interferência de Cuba na Venezuela”, segundo documento na página do Departamento de Estado dos EUA. Cuba também passa por uma transição monetária, com unificação de suas moedas, bastante importante e sobre a qual comentaria melhor ainda nas próximas edições do De Olho no Mundo.

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