“Falência” de Bolsonaro prejudica imagem do país entre investidores

Até economistas ortodoxos defendem a continuidade do auxílio emergencial e “correções” no teto de gastos, como medidas econômicas elementares no momento.

Bolsonaro, flagrado dormindo durante expediente na Câmara - (Foto: Fotos Públicas)

A declaração do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que o Brasil está quebrado e que não pode fazer nada recebeu críticas de economistas de todos os matizes ideológicos. Para os especialistas, ao banalizar o conceito de moratória e incapacidade de pagar dívidas, o presidente gerou ruídos que podem trazer impactos negativos para o país.

“Chefe, o Brasil está quebrado, eu não posso fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda, teve esse vírus, potencializado por essa mídia que nós temos. Essa mídia sem caráter. É um trabalho incessante de tentar desgastar para tirar a gente daqui e atender interesses escusos da mídia”, disse o mandatário nesta terça-feira (5).

A regra do teto de gastos limita o crescimento das despesas públicas à variação da inflação e tem sido usada pelo governo como argumento para rejeitar a ideia de ampliar gastos e de prorrogar o auxílio emergencial a informais. Até essa medida inédita criada no Brasil tem sido contestada pelos economistas defensores de ajustes fiscais. Para este ano, o governo optou por não retirar as travas do Orçamento, impostas por regras fiscais. Em 2020, a suspensão desses mecanismos viabilizou uma expansão de gastos do governo para implementar ações de mitigação da pandemia.

“Não há nenhuma divergência entre nós. Obviamente, o presidente se referiu à situação do setor público”, limitou-se a dizer o ministro da Economia, Paulo Guedes, ignorando o impacto de uma declaração dessa autoridade.

Em declarações à Folha de S. Paulo, a economista Elena Landau afirma que o uso do termo “quebrado” foi banalizado por Bolsonaro. Para ela, a declaração traz uma mensagem muito negativa para o mercado, dando impulso para uma perda de confiança no país em um momento que o governo passa por uma crise fiscal e depende do investimento privado.

Para Elena, Bolsonaro ainda tenta tirar de sua alçada a competência sobre medidas que deveriam ser tomadas para mitigar a crise. Ela ressalta que o presidente tem priorizado pautas favoráveis aos militares e que reforçam o Orçamento das Forças Armadas em vez de focar em assistências como o auxílio emergencial.

Para a economista ortodoxa, as medidas da alçada de Bolsonaro envolvem reformas, privatizações e prioridades de orçamento. Ela considerou a declaração “de uma irresponsabilidade muito grande”.

Na avaliação do economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas, o conceito usado pelo presidente está errado, a começar pelo estado de emergência, que não permite quebra econômica de nenhum país.

De acordo com Velloso, a crise sanitária que o país vive é inédita e depende de ações do governo. Para ele, o pagamento do auxílio emergencial é necessário e essa discussão não deveria ser bloqueada pelo presidente.

Segundo a economista Juliana Damasceno, pesquisadora do Ibre FGV, só seria possível dizer que o país quebrou depois que fossem esgotadas todas as possibilidades de solução para o problema fiscal, o que ainda não ocorreu. A declaração do presidente soa como se nada pudesse ser feito e se mantém na inércia.

Juliana diz que o governo não tem conseguido articular e avançar com propostas que dariam fôlego para as contas públicas, como a revisão de incentivos fiscais, reformulação de programas sociais, reforma administrativa, privatizações, correções no teto de gastos e outras medidas de ajuste.

Ao G1, a economista Ana Carla Abrão, sócia da consultoria Oliver Wyman se surpreendeu com a declaração porque o presidente “tem todos os instrumentos na mão para propor os ajustes necessários”.

Sócio da Tendências Consultoria e ex-ministro da Fazenda do governo José Sarney, Maílson da Nóbrega mencionou momentos de moratória do país para dizer que o Brasil está “confortável” na questão internacional.

Na avaliação de Maílson, no entanto, declarações impulsivas do presidente, como a desta terça, podem minar a confiança do investidor na economia e emperrar a recuperação do país. Para ele, o papel do presidente é liderar um conjunto de reformas em articulação com o Congresso para livrar o país desse destino de insolvência interna.

O fato de que boa parte da dívida brasileira é denominada em reais também evita esse cenário de “Brasil quebrado”, ponderam os analistas. Além disso, o país possui reservas internacionais de mais de US$ 356 bilhões, uma proteção para financiamento e garantia para novas captações.

O especialista em contas públicas Raul Velloso ressalta que um país só quebra em casos extremos, com dívida em dólar, e quando não consegue captar para pagar serviço e juros. Esta é uma diferença entre o Brasil de outros períodos e os países vizinhos que emprestam externamente. Esta está longe de ser a realidade brasileira.

Em caso extremo, diz ele, o governo brasileiro poderia emitir moeda para se financiar e honrar os seus compromissos, pois a desvalorização do real frente ao dólar neste ano teve mais impacto no aumento de preços do que a distribuição de renda. O conceito de emitir moeda em determinadas situações é polêmico entre economistas, pois poderia desencadear consequências de alta na inflação.

Para o diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Felipe Salto, a gravidade do problema da macroeconomia brasileira é justamente não haver um rumo. A mesma opinião tem o analista de contas públicas da consultoria Tendências, Fabio Klein, para quem a aprovação de reformas é uma questão política, totalmente de responsabilidade do presidente, que vai no sentido oposto.

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