Bancos se preparam para o mundo tecnológico e recessivo pós-covid

A situação pode se complicar ainda mais se as grandes empresas de tecnologia, as bigtech, acabarem entrando no setor financeiro.

Os impactos da pandemia no sistema financeiro envolver recessão, tecnologia e mudanças no mundo do trabalho e da regulação financeira

Ao final de 2019, o sistema bancário espanhol apresentava a menor taxa de inadimplência dos últimos dez anos (4,8%). Os custos de reestruturação do quadro de pessoal de algumas entidades e o abrandamento do ritmo de crescimento das economias espanhola e europeia impediram que esta redução se traduzisse num aumento dos lucros do setor, que acabaram por ascender a 16,2 mil milhões de euros. Ou seja, 15% menos que no ano anterior (Banco da Espanha, Relatório de Estabilidade, primavera de 2020). Apesar de tudo, a rentabilidade do sistema bancário espanhol foi superior à média da União Europeia.

A situação inicial

Mandatados pelos reguladores, os bancos espanhóis tinham níveis de patrimônio melhores e mais altos no final de 2019 do que há uma década. Graças a isto, passaram facilmente nos testes de esforço realizados pela Autoridade Bancária Europeia em 2018 para avaliar a sua resistência a um possível agravamento da situação econômica. E os bancos os superaram apesar de o cenário macroeconômico simulado (queda acumulada do PIB de 2,7% no período 2017-2020) ser, a priori, certamente adverso.

Devido à imposição dos reguladores, os bancos também mantiveram níveis confortáveis ​​de liquidez. Não é de surpreender que, desde 2015, tenham sido obrigados a cumprir o coeficiente de liquidez, para o qual devem manter ativos líquidos em montante equivalente a pelo menos 100% de suas obrigações de curto prazo (30 dias).

Foi essa a situação quando, em meados de março de 2020, a pandemia obrigou governos a decretar o estado de emergência, que provocou a paralisação quase total da atividade econômica. Pelas razões acima expostas, a posição inicial do sistema bancário é agora muito melhor do que na crise anterior, na qual o setor bancário era, de fato, uma parte significativa do problema. Além disso, o BCE agiu rapidamente, permitindo que os bancos europeus ganhassem tempo para lidar com a situação.

Baixas taxas de juros e lucratividade bancária

O colapso que a economia registrará em 2020 será de tal magnitude que os problemas do sistema bancário (mais inadimplência, menos receita) acabarão emergindo com força. Na verdade, não se pode excluir que um bom número de entidades feche o ano com perdas.

A Covid-19 também supõe a manutenção, por mais tempo do que o esperado, da política monetária de juros baixos, instituída pelo BCE após a eclosão da crise financeira. Esta política permite a entidades bancárias:

  • Obter altos ganhos de capital em suas carteiras de renda fixa.
  • Aumentar as receitas de comissões (incentivando a transferência de recursos da poupança para fundos de investimento).
  • Reduzir duplamente os créditos de cobrança duvidosa (através da recuperação da economia e da redução dos custos financeiros a cargo dos tomadores).

No entanto, a sua continuidade ao longo do tempo pressiona a rentabilidade dos bancos, entre outras razões porque não é fácil repassar aos depositantes as taxas de juro negativas que suportam para depositar o seu excedente de liquidez no BCE.

Ruptura digital: o estado da arte

Como resultado do confinamento, os clientes adquiriram habilidades no uso de canais digitais (apps, mobile …). Isso permitirá que as entidades intensifiquem sua política de fechamento de agências para economizar custos.

À medida que aumenta o uso de redes em operações bancárias, aumenta também a probabilidade de sofrer ataques cibernéticos (e que são graves). Por este motivo, o setor bancário terá de reforçar as infra-estruturas que permitem o trabalho remoto e preparar planos de contingência que garantam a manutenção da atividade em condições adversas.

A digitalização, junto com os avanços da robótica, inteligência artificial, big data e mudanças nas preferências dos consumidores, também está facilitando a entrada no setor de novos participantes, como as chamadas empresas fintech. Mais ágeis e menos regulamentados, já prestam quase todos os serviços da banca tradicional (colocação de poupanças, sistemas de pagamentos, aconselhamento financeiro e financiamento); e fazem isso a um custo menor, uma vez que não precisam lucrar com o pessoal caro e as estruturas de rede que os bancos tradicionais suportam (David T. Llewellyn, 2018).

O pouso da ‘tecnologia’ no setor bancário

Os bancos em todo o mundo tiveram que abraçar a ruptura digital e estão tentando dotar-se da estrutura, aplicações e pessoal necessários para poder competir neste novo quadro.

A situação pode se complicar ainda mais se as grandes empresas de tecnologia, as bigtech, acabarem entrando no setor financeiro.

Ao contrário das fintechs, que na sua maioria são pequenas, pouco conhecidas e com uma estrutura de capital altamente alavancada, estas últimas têm tudo – tecnologia, capital humano, recursos financeiros e uma marca conhecida – para poderem desempenhar um papel ativo no mundo pós-covid. Se bem que também seja verdade que, para desempenhar este papel, teriam de se comprometer a submeter-se a uma regulamentação e fiscalização estritas dos órgãos competentes na matéria (que até agora rejeitaram).

Em suma, os bancos enfrentam grandes desafios e resta saber se todos conseguirão superá-los. As decisões tomadas por entidades e reguladores determinarão a estrutura do setor bancário em um futuro próximo.

Antoni Garrido Torres é professor de Economia Aplicada na Universidade de Barcelona

Traduzido por Cezar Xavier

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