Só economia desfavorável não explica decisão da Ford de deixar o País

“A indústria automobilística sempre recebeu muitos incentivos aqui no Brasil, então acho que tem coisas do lado da própria Ford, que está no País há mais de cem anos”, diz Roberto Macedo

Sucata de automóveis Ford

A Ford anunciou o encerramento da produção de veículos em suas fábricas no Brasil depois de um século no País. A montadora possui fábricas em Camaçari (Bahia), Taubaté (São Paulo) e em Horizonte (Ceará) e fechou 2020 como a quinta que mais vendeu veículos no País, ocupando 7,14% do mercado.

A Ford anunciou ainda sua intenção de continuar comercializando seus produtos no Brasil, mas serão veículos importados da Argentina e do Uruguai, onde pretende manter as suas fábricas. A montadora foi a quinta que mais vendeu automóveis em 2020 no Brasil, com 7,14% do mercado. “É uma decisão por produzir em países pequenos. O grande ativo do Brasil é o tamanho do mercado”, observa o professor Roberto Macedo, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA/USP).

Ele não acredita que a decisão da empresa de continuar operando por aqui seja única e exclusivamente devido ao cenário econômico desfavorável, uma vez que as crises econômicas tendem a ser superadas, mais cedo ou mais tarde.

“A indústria automobilística sempre recebeu muitos incentivos aqui no Brasil, então acho que tem coisas do lado da própria Ford, que está no País há mais de cem anos.” O economista acredita que a Ford tem perdido a corrida pela inovação nos últimos anos, depois de ter inventado a linha de montagem que barateou o custo dos automóveis.

Motivada ou não por fatores particulares, o fato, contudo, é que a decisão da empresa de fechar suas unidades no País é péssima, pois representa mais desempregos.

Macedo também não encontra justificativa para a empresa continuar a operar na Argentina, cujo cenário econômico é ainda pior do que o do Brasil, com muito endividamento, sem reservas cambiais. Para ele, a explicação do cenário recessivo é conversa para justificar-se diante da pressão da imprensa.

O especialista defendeu que a política econômica do governo Bolsonaro contribui para a saída dessas empresas do país. Ele acredita que pode ter pesado na decisão da Ford as perspectivas do Brasil em relação ao desempenho do PIB (Produto Interno Bruto), “porque isso afeta o crescimento do mercado, e é isso o que está acontecendo no Brasil, que desde 2015 não recuperou o PIB que tinha em 2014”.

Além de que, observa ele, o empresário sempre pensa em termos de lucro, a chamada taxa de retorno, o que pode não ser factível em um país que está em recessão, em depressão desde 2015, e em estagnação econômica, já que desde 1980 cresce abaixo do potencial que podia crescer.

Seja como for, Macedo considera a situação lamentável e lembra que, quando entrou no mercado de trabalho nos anos 1960, ninguém falava em desemprego.

De todo modo, reforça a tese de que a decisão da Ford de deixar o País é um caso particular, já que nenhuma outra montadora, pelo menos por enquanto, anunciou disposição semelhante. “Parece haver uma perda de dinamismo da montadora, mesmo em outros países, que parece não estar claro ainda pelas informações fornecidas”, concluiu.

Edição de entrevista à Rádio USP

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