Projeto internacional mostra Brasil entre piores fracassos da pandemia

Projeto internacional, liderado pelas Universidades de Harvard e de Cornell, compara como países de 5 continentes vêm atuando em termos de saúde pública, economia e política. Controvérsias entre ministros da saúde e presidente da República revelam a gravidade do fracasso brasileiro.

A transferência arriscada e cara às pressas de pacientes de hospitais em colapso para outros estados foi uma das imagens mais trágicas da gestão da pandemia no Norte do país. Marco Santos

Brasil, Índia, Itália, Reino Unido e Estados Unidos representam os maiores fracassos de resposta à Covid e, por isso, foram classificados como países “caóticos” pelo projeto Comparative Covid Response: Crisis, Knowledge, Politics (CompCoRe). China, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan como países “de controle” e Alemanha, Austrália, Áustria, França, Japão, Holanda e Suécia como “de consenso”. Pesquisadores de cada um desses países colaboraram com estudos de caso para a comparação.

Esta informação foi divulgada pela publicação de resultados preliminares de um estudo comparativo entre 16 países do impacto às respostas governamentais relacionadas a saúde pública, economia e política durante a pandemia da Covid-19. A publicação do estudo foi feita pela Universidade de Cornell e a Universidade de Harvard, ambas nos Estados Unidos.

Um dos dados mais reveladores do fracasso brasileiro foi a controversa demissão do popular ministro da saúde após a defesa de medidas de quarentena impostas por governadores e prefeitos, mas criticadas como economicamente ruinosas por Bolsonaro. Seu sucessor renunciou poucos dias depois, tornando o Brasil o único país do mundo à deriva em termos de gestão da pandemia durante algum tempo. Seguindo a deixa da postura pública de Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro zombou do vírus e defendeu uma política inviável de “isolamento vertical”, visando atingir os que correm mais risco e ao mesmo tempo manter a economia aberta. O número de mortos da Covid-19 no Brasil subiu para o segundo maior do mundo.

O projeto CompCoRe foi financiado pela National Science Foundation, agência governamental americana que promove o progresso da ciência, e pelo Schmidt Futures, instituição privada que busca aproximar cientistas da política pública. Os docentes e pesquisadores que participaram do estudo brasileiro foram Marko Monteiro e o pesquisador de pós-doutorado Alberto Urbinatti, da Unicamp, Gabriela Di Giulio, Ione Mendes e Felipe Reis, da USP, e Philip Macnaghten, da Universidade de Wageningen, na Holanda.

O pós-doc do Instituto de Geociências Alberto Urbinatti: A Covid-19 explicitou e aprofundou questões pré-existentes em cada país. Isto fica bastante evidente no caso brasileiro
O pós-doc do Instituto de Geociências Alberto Urbinatti: A Covid-19 explicitou e aprofundou questões pré-existentes em cada país. Isto fica bastante evidente no caso brasileiro

O Brasil está entre os países que mais chamaram atenção no estudo. Para Alberto Urbinatti, “a Covid-19 explicitou e aprofundou questões pré-existentes em cada país. Isto fica bastante evidente no caso brasileiro: uma intensa polarização política pré-existente deu o tom das respostas à pandemia, principalmente no que diz respeito às controvérsias que surgiram em torno das responsabilidades federal, estadual e municipal com as medidas de combate à Covid-19”. O relatório preliminar do estudo apresentou 3 tipologias diferentes de pensar as relações entre as respostas à pandemia e a forma como a sociedade aceitou ou reagiu a elas.

Mitos desmascarados

Os resultados preliminares do projeto indicam falácias comuns aos diferentes países analisados que, segundo os pesquisadores, precisam ser evitadas.

Os cinco principais lugares comuns que se mostraram falhos como referência para o combate à pandemia foram:

1) uma pandemia pode ser gerenciada por um “manual”. São poucas as normas que se aplicariam a todos os casos, realidades e novos eventos. Alguns países abandonaram manuais de pandemia para aplicar políticas públicas novas e bem sucedidas, assim como outros não entraram em consenso sobre seus manuais e acabaram fracassando;

2) em situações de emergência, as políticas públicas são mais importantes do que o contexto político; ou seja, o contexto político se mostrou definidor das políticas públicas ou ausência de sua aplicação, como nos casos em que polarizações raciais e econômicas se acentuaram e criaram desconfianças da elite governante ou no caso de sociedades consensuais em que se reforçaram os laços de solidariedade para o sucesso do enfrentamento;

3) os indicadores de sucesso e fracasso são sempre nítidos e os resultados podem ser bem definidos e medidos objetivamente. A pandemia mostrou que os dados podem ser escolhidos politicamente e valorados de forma diferente; especialistas divergem sobre quais indicadores são mais importantes e que decisões foram mais importantes para definir um quadro.

4) o assessoramento por cientistas permite que os formuladores de políticas definam as melhores políticas públicas em todos os casos. Em muitas localidades, as recomendações de cientistas se confrontaram com as dificuldades e desigualdades enfrentadas pelos gestores, pelas disputas político-ideológicas, assim como com o cansaço da população em lidar com o prolongamento de quarentenas; Cientistas não falam com uma única voz, divergem em diagnósticos e resultados, como demonstram as experiências de Brasil, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos, por exemplo.

5) a desconfiança no assessoramento dado pelos especialistas em saúde pública reflete um “analfabetismo científico”. Este lugar comum se choca com a politização do debate e a estratégia intencional de gestores em desinformar a população desacreditando os cientistas para impor suas vontades políticas. Na experiência internacional se observa o estrelismo de certos cientistas que se confronta com ideias divergentes de pares, assim como a evolução da pandemia altera as percepções e decisões de especialistas, como Fauci, nos EUA, que mudou sua posição sobre uso de máscaras ou cientistas que mudaram sua posição sobre imunidade de rebanho e lockdowns. Muitas desconfianças sobre vacina derivam de países desiguais e conflituosos onde diferenças sociais definiram a marginalização e exploração de grupos sociais.

Professor Marko Monteiro, do Instituto de Geociências da Unicamp: necessidade de produzir um novo pacto global, além de um pacto social internamente a esses países, a respeito do papel da ciência nas tomadas de decisão

“Esses pontos derivam do debate sobre casos bastante diversos. Não são pontos que buscam delimitar ‘regras’, mas indicam fortemente uma necessidade de levar em conta que os fracassos de política pública e resposta à pandemia, cujos casos mais paradigmáticos são os Estados Unidos e o Brasil, devem-se não necessariamente à ausência de boas políticas públicas ou a uma ausência de bons cientistas e conhecimento, mas pela forma como tais conhecimentos e protocolos sanitários conhecidos foram ignorados ou preteridos por conta de disputas políticas, como no caso brasileiro”, aponta Marko Monteiro.

Um dos objetivos do projeto foi justamente dar soluções rápidas, bem fundamentadas e que pudesse ajudar a orientar a própria resposta dos países à pandemia. Os resultados reforçam a importância de se proteger a economia e os empregos a longo prazo e identifica que as melhores respostas de saúde pública estão relacionadas tanto a fatores biológicos, como biologia molecular, clínica médica e epidemiologia, quanto a fatores sociais, como o comportamento humano. O contexto político de cada país também é responsável pelos avanços ou retrocessos em políticas públicas.

Segundo Alberto Urbinatti, o projeto aponta nas suas conclusões questões necessárias para pensar um ‘novo globalismo’ do século XXI. As vacinas, por exemplo, “evidenciaram questões de ética e ciência em um palco global, criando novas redes de interação e conflitos políticos”. Para Marko Monteiro, dados os problemas em produzir vacinas, destaca-se a “necessidade de produzir um novo pacto global, além de um pacto social internamente a esses países, a respeito do papel da ciência nas tomadas de decisão. Um novo globalismo pode representar uma forma de reorganizar tanto cadeias de produção e relações comerciais, quanto as instituições de alcance global que participam da governança desses eventos, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). São questões centrais para os anos futuros”.

Milhares de fãs do Alabama (EUA) lotaram as ruas, formando uma grande multidão festiva em Tuscaloosa depois que o time de futebol Crimson Tide venceu o jogo do campeonato nacional na noite de segunda-feira, como se não houvesse pandemia

Comparativo

Confira alguns destaques positivos e negativos do estudo que mostram como posturas governamentais e realidades econômicas alteram os resultados da pandemia:

Estados Unidos: Apesar das impressionantes conquistas dos EUA em biomedicina e extenso planejamento para preparação para pandemia, o histórico dos EUA em lidar com a crise de saúde pública da Covid-19 está entre os piores do mundo, conforme evidenciado pela incidência absoluta de fatalidades, perturbação econômica contínua, e extrema desordem política.

Alemanha: Uma resposta eficaz em nível nacional manteve a incidência per capita na Alemanha mais baixa do que em muitos de seus vizinhos em todas as ondas de transmissão que atingiram a Europa. Em contraste com os EUA e o Brasil, a resposta econômica alemã enfatizou a preservação de empregos e relações econômicas, o que resultou na preservação da estabilidade e da ordem social. As medidas de emergência foram amplas e inclusivas e não produziram controvérsias significativas em torno da ciência ou das políticas do tipo visto em muitas outras nações.

Taiwan: uma ação rápida de um oficial júnior do ministério da saúde que ouviu falar do surto de Wuhan no Twitter em 31 de dezembro de 2019 levou as autoridades de saúde a interceptar voos de chegada naquele mesmo dia e ajudou a impedir a propagação da Covid-19 em Taiwan, um país insular, quase imediatamente. As autoridades identificaram até o momento 776 casos de Covid-19 e 7 mortes. O crescimento esperado do PIB para 2020 caiu de 2,5% para 1,1%, mas ainda deixou Taiwan na rara posição de projetar crescimento positivo para o ano.

Índia: com o segundo maior número de casos e o terceiro maior número de mortes no mundo, a Índia foi duramente atingida pela Covid-19. No entanto, os números absolutos não contam a história completa, o que teria que ser responsável por grandes diferenças regionais nas taxas de letalidade relatada. Um elemento único da resposta indiana foi um bloqueio repentino e drástico que levou dezenas de milhões de trabalhadores migrantes de volta para suas vilas, enfrentando graves dificuldades na estrada e enfrentando perspectivas econômicas de longo prazo incertas. A recuperação econômica da Índia pode ser muito mais problemática do que a recuperação da doença, onde a Índia, como grande fabricante de vacinas, desfruta de vantagens tecnológicas.

Holanda: O primeiro-ministro holandês anunciou um “bloqueio inteligente” com o objetivo de controlar o vírus, mas não o cidadão, que poderia ser considerado razoável e seguir os conselhos de especialistas de maneira adequada. Essa resposta contrastou com os bloqueios totais do Sul da Europa e a abordagem sem bloqueio da Suécia. Esse “bloqueio inteligente” funcionou bem no início, mas na segunda onda de casos no outono, o progresso foi em grande parte desfeito, fazendo com que a Holanda mudasse drasticamente sua resposta, especialmente com relação às máscaras.

China: após inação desastrosa durante as primeiras semanas cruciais do surto, quando as autoridades em Wuhan suprimiram informações e autoridades sanitárias internacionais não foram bem-vindas, o CDC central chinês implementou uma política de contenção com precisão militar. A máquina avançada de vigilância digitalizada foi mobilizada e milhões de cidadãos foram testados e examinados diariamente para febre. O tratamento em hospitais designados, combinado com o rastreamento de contato parcialmente eletrônico, controlou a doença e, subsequentemente, pequenos surtos locais foram suprimidos com sucesso.

Reino Unido: Apesar de ter um sistema de saúde público universal
amado e confiável por seus cidadãos, a contagem de casos per capita do Reino Unido permanece entre os mais altos do mundo e seu próprio primeiro-ministro foi hospitalizado com Covid-19 em um momento de imenso debate sobre políticas de contenção apropriadas. A fonte oficial de aconselhamento científico do governo, o Science Advisory Group for Emergencies (SAGE), foi contestado por um grupo não oficial que se autodenominou Independent SAGE, ou “indieSAGE” para abreviar, que se tornou uma voz de oposição clamando por uma ação de saúde pública mais rigorosa do que o governo conservador perseguia.

Austrália: Em contraste com outros sistemas federais, especialmente os EUA, o governo australiano reuniu uma resposta nacional unificada à pandemia. Pela primeira vez, o primeiro-ministro estabeleceu um Gabinete Nacional que incluía os chefes de todos os estados e territórios, sem levar em conta a filiação partidária para coordenar uma resposta de “tempo de guerra”. Bloqueios rígidos, restrições a viagens internacionais e domésticas, distanciamento social e testes, rastreamento de contatos e isolamento mantiveram a incidência e a mortalidade (908 mortes) em níveis baixos.

Repercussão

relatório foi divulgado no evento global “Schmidt Futures Forum“, que ocorreu de forma online nos dias 12 e 13 de janeiro, no qual Tedros Adhanon, diretor-geral da OMS, fez a fala de abertura Adhanom ressaltou as disparidades globais no processo de vacinação que se iniciou em dezembro de 2020, além das diferenças de aderência às recomendações de saúde púbica mapeadas no estudo. Ele destacou também o papel central de sistemas públicos de saúde diante dessa e de futuras pandemias e clamou pelo envolvimento de toda sociedade nessas ações.

O jornal americano The New York Times citou o projeto em uma matéria publicada em 15 de janeiro, na qual ressalta a noção de “condições pré-existentes” sugerida no estudo para entender as diferenças de resposta dos países no mundo.

Com informações do Jornal da Unicamp

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