Empresários reconhecem necessidade de volta do auxílio; Guedes resiste

Tanto Bolsonaro quanto Paulo Guedes adotam discurso ambíguo. Não descartam a possibilidade de volta do auxílio, mas juram fidelidade ao mercado.

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Com a nova onda de contágio da pandemia em meio a um cenário de desemprego e inflação, fica cada vez mais clara a necessidade da continuidade de alguma forma de proteção à população, seja por meio de uma reedição do auxílio emergencial ou outro programa de transferência de renda. Segundo Pesquisa Datafolha realizada nos dias 20 e 21 de janeiro, 69% dos brasileiros que receberam o auxílio emergencial ainda não têm fonte de renda que substitua o benefício.

Matéria publicada nesta terça-feira (26) pela Folha de S. Paulo mostra que a necessidade de renovação do auxílio já é reconhecida por entidades empresariais. Representantes da Fecomércio SP, Confederação Nacional de Serviços (CNS) e Associação Brasileira de Varejo Têxtil (Abvtex) reconheceram a necessidade da ação do poder público, com retorno do benefício. Edmundo Lima, da Abvtex, defendeu ainda o resgate do programa do governo federal que permitiu a redução de jornada e salário para evitar demissões.

O representante da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) disse que é preciso ainda esperar o desenvolvimento da pandemia para avaliar se o retorno do auxílio será necessário. Os representantes da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit) e Confederação Nacional dos Transportes (CNT) defenderam, respectivamente, ajuda dos governos estaduais e uma campanha de conscientização sobre o vírus em vez de fechamento do comércio.

A discussão de um novo auxílio emergencial é também um ponto de concordância entre os dois candidatos mais cotados para levar a presidência da Câmara dos Deputados, o bolsonarista Arthur Lira (PP-AL) e Baleia Rossi (MDB-SP), candidato de Rodrigo Maia (DEM-RJ) que tem o apoio dos partidos de oposição.

Em resposta às pressões, tanto Jair Bolsonaro quanto Paulo Guedes têm adotado um discurso escorregadio. Não descartam a possibilidade, mas buscam assegurar ao mercado a manutenção do teto de gastos públicos e que qualquer benefício concedido será temporário.

Nesta segunda (25), Jair Bolsonaro disse que “auxílio emergencial não é aposentadoria” a apoiadores na porta do Palácio da Alvorada. “A palavra é emergencial. O que que é emergencial? O que não é duradouro, não é vitalício, não é aposentadoria. Lamento muita gente passando necessidade, mas a nossa capacidade de endividamento está no limite”, declarou.

Hoje, em evento virtual com investidores internacionais, Paulo Guedes disse que a recriação do auxílio implicaria no congelamento de despesas em áreas como educação e segurança pública. “Nós temos que ter muito cuidado. Quer criar o auxílio emergencial de novo, tem que ter muito cuidado, pensa bastante. Porque se fizer isso não pode ter aumento automático de verbas para educação, para a segurança pública”, afirmou.

No mesmo evento, Jair Bolsonaro se comprometeu com o teto de gastos e prometeu acelerar privatizações, em uma tentativa de de acalmar o mercado após seu candidato à presidência do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) não ter garantido a votação da privatização da Eletrobras e o presidente da estatal, Wilson Ferreira Júnior, ter anunciado sua demissão.

Jair Bolsonaro tem interesse pessoal na questão do auxílio emergencial, principalmente após perder a guerra da vacina contra a Covid-19 para seu maior adversário político, o governador de São Paulo, João Doria. Ele sabe que deve o aumento de sua popularidade ao benefício, cujo encerramento já começou a refletir em perda de apoio em pesquisas de opinião.

No entanto, também lhe é cara a sustentação do empresariado, que, por enquanto, ainda dá um voto de confiança à agenda liberal de Paulo Guedes. Em uma sinuca de bico, Bolsonaro vai acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo. Caso reedite o auxílio, está claro que será em moldes liberais – um valor bem menor do que os R$ 600 ou mesmo R$ 300 anteriores, direcionado a uma parcela menor da população. Caberá, portanto, ao Congresso Nacional lutar para que os brasileiros tenham a proteção adequada para atravessar mais uma onda da pandemia.

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