Governo federal repete apagão de dados, agora, da vacinação

Especialistas não se surpreendem com o fato do Governo Federal não saber quantos brasileiros estão sendo vacinados, considerando a postura negacionista durante toda a pandemia.

Painel do Ministério da Saúde, de difícil acesso, tem mais de um milhão a menos de vacinações registradas, em relação outras fontes extra-oficiais.

A imunização contra a Covid-19 no Brasil começou no dia 17 de janeiro, mas, onze dias depois, o governo não tem ideia da totalidade de brasileiros vacinados no país. Os dados do governo federal registram pouco mais de 432.263 mil pessoas vacinadas no país até esta quinta-feira (28). Os números estão bastante defasados, pois, somente no estado de São Paulo, de acordo com plataforma lançada pelo governo estadual, já foram imunizados, pelo menos, 309.346 mil indivíduos até essa data.

painel do Ministério da Saúde, batizado de Brasil Imunizado, é de difícil localização e não está sendo divulgado nos sites do governo. Ele pode ser acessado pela ferramenta LocalizaSUS, onde também é possível ver a distribuição de doses destinadas aos estados e municípios. Os dados de São Paulo e Rio Grande do Norte não estão inclusos no sistema.

Até a plataforma mantida pela Universidade de Oxford, Our World In Data, está mais atualizada ao mostrar o país com a marca de 1,450 milhão de vacinados contra a covid-19. O consórcio da imprensa divulga o total de 1.509.826 pessoas já imunizadas, numa coleta feita pelos veículos de imprensa junto às secretarias de saúde de 22 estados e do Distrito Federal.

‘Pasta depende do envio desses dados’

A pasta promete consolidar os dados nos próximos dias. Diferente da plataforma Our World In Data e do consórcio da imprensa, que buscam ativamente os dados, o Ministério espera que os estados enviem automaticamente esses números.

O Ministério da Saúde afirmou ainda que os “dados de doses aplicadas e coberturas vacinais disponibilizadas dependem dos estados e municípios alimentarem o sistema”. De acordo com a pasta, “São Paulo e Rio Grande do Norte optaram por soluções próprias”.

“Dessa forma, a pasta depende do envio desses dados para completar a divulgação nacional, conforme orienta Portaria GM/MS Nº69 de 14 de janeiro de 2021”, acrescentou o ministério. 

A lei em questão “institui a obrigatoriedade de os serviços de vacinação públicos e privados efetuarem o registro das informações sobre as vacinas contra a COVID-19 aplicadas nos sistemas de informação disponibilizados pelo Ministério da Saúde”.

Dados desatualizados

Embora o Ministério culpe São Paulo e Rio Grande do Norte, mesmo os dados das 25 unidades da Federação, incluindo o Distrito Federal, estão desatualizados. 

De acordo com a plataforma, em todo o estado do Rio de Janeiro foram vacinadas, até o momento, aproximadamente 12 mil pessoas. Mas somente na capital, segundo sistema criado pela prefeitura do Rio, o número de vacinados se aproxima de 125.554. 

Por meio de nota, a Secretaria da Saúde do estado de São Paulo diz que “a equipe de Tecnologia da Informação da Secretaria de Estado da Saúde já solicitou acessos ao DATASUS [departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil] para iniciar o processo de integração da plataforma VACIVIDA ao sistema do Programa Nacional de Imunizações (PNI), e aguarda liberação”.

A pasta acrescentou ainda que os dados da plataforma estadual estão disponíveis em vacinômetro público e atualizado em tempo real no site do governo. A Secretaria de Saúde Pública do Rio Grande do Norte, por sua vez, disse que o sistema utilizado pelo estado é o RN Mais Vacina que contabiliza 34.466 potiguares. Também diz que vai integrar os dados com o governo federal.

‘Tendência a esconder’

Para Flávio da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), a falta de dados do governo federal não surpreende e é fruto de uma “lógica negacionista” no combate à pandemia, além de “tendência a esconder e não apresentar informações de maneira clara”. As declarações foram dadas com exclusividade à Sputnik Brasil.

Em junho, o Ministério da Saúde chegou a reduzir o boletim diários com números sobre a pandemia, deixando de informar total de casos e óbitos, devido ao crescimento do número de mortes. Após repercussão negativa, o governo recuou. Em 23 de novembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a obrigatoriedade da divulgação integral dos dados. A decisão da Corte foi uma resposta à ação de partidos da oposição (PSOL, PCdoB, PDT e Rede) exigindo que os números fossem publicados. 

Segundo especialistas, a falta de divulgação sobre os vacinados poderia motivar uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no STF, com pedido para que o governo informe à população de forma clara e precisa sobre o andamento da imunização. 

Atrapalhar planejamento

O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia disse também que os dados incompletos sobre a vacinação podem atrapalhar o planejamento e a execução do plano de imunização.

“Isso impacta toda e qualquer análise que se possa fazer em termos de estratégia. Os dados municiam tomadas de ação, pois tudo que está acontecendo precisa ser decidido em tempo real. Se há problema de cobertura vacinal em determinado local, significa que é preciso intervir naquele local imediatamente para corrigir o desequilíbrio. É difícil fazer planejamento sem dados exatos”, disse Fonseca. 

‘Completa desmoralização’

Para o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão a desatualização dos dados demonstra a “completa desmoralização do papel” da pasta. O médico sanitarista critica o que chama de “intervenção militar” no ministério, que hoje é comandado pelo general Eduardo Pazuello e tem vários militares em outros cargos. 

“O ministério perdeu sua credibilidade e respeitabilidade. É ruim para a sociedade, que não tem acesso aos números, e ruim para o planejamento e monitoramento da vacinação. Nunca tinha ocorrido isso com o Plano Nacional de Imunização, que sempre registrou o número de vacinados em tempo real”, disse o ex-ministro dos governos Lula e Dilma também à Sputnik Brasil. 

A dificuldade de acesso às informações sobre a COVID-19 e a desconfiança com o governo motivaram várias iniciativas de compilação de dados da pandemia no Brasil. Em junho, foi criado o consórcio de imprensa, reunindo veículos como G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL, para apurar o número de casos e óbitos pelo coronavírus no país. Com o início da vacinação, o consórcio também passou a contabilizar, junto às Secretarias estaduais de Saúde, o número de vacinados. 

Iniciativas amadoras

Há ainda iniciativas amadoras, mas que passaram a ser usadas como fonte de dados por especialistas em saúde. A mais popular delas é o painel COVID-19 no Brasil, que é municiado a partir de dados da conta do Twitter @coronavirusbra1, criada por Carlos Achy e Gabriel Canário. Os dados são coletados por um grupo heterogêneo de nove pessoas, que conta até com um cineasta, Leonardo Medeiros, um dos mais ativos no garimpo de informações sobre a pandemia.

A iniciativa foi tomada devido à dificuldade de encontrar dados consolidados no início da pandemia. O físico e programador Wesley Cota é um dos responsáveis por estruturar os números na plataforma. Pesquisador de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa (UFV), ele participou de iniciativa semelhante na Espanha e levou o projeto para a instituição. 

Cota diz que seu painel integra um projeto da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) de monitoramento contínuo da COVID-19 no Brasil. Além disso, seu grupo na UFV mantém contato com algumas prefeituras, como a de Viçosa (MG), com o comitê científico do governo de Minas Gerais e com o comitê científico do Consórcio do Nordeste. 

Referência mundial

página Our World in Data, que compila dados sobre a pandemia do coronavírus e de vacinados em todo mundo, usado como referência por vários meios de comunicação e pesquisadores, também utiliza como fonte, para o Brasil, o painel desenvolvido por Cota e seus parceiros. 

“A falta de dados é muito prejudicial e desperta desconfiança na população. O que tentamos é deixar esses dados da forma mais transparente possível para condensar essas informações para a população. Em particular, os dados por municípios me surpreenderam, pois muita gente vinha agradecer, querendo saber como estava a situação na cidade deles. Os números da conta estão bem populares. Isso só mostra como os governos até hoje não aprenderam que a população quer saber esse tipo de coisa…”, disse Wesley Cota.

Com informações da Sputinik Brasil

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