Pelo menos 175 transexuais foram assassinados no Brasil em 2020

Dossiê anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais registra pela primeira vez aumento de mortes de mulheres trans e travestis, que alcançou o maior patamar registrado na série.

Arte: Junião/Ponte

No Dia da Visibilidade Trans (29), a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulga o relatório anual com um levantamento de mortes de pessoas trans no Brasil. Em 2020, foram 175 assassinatos, o que equivale aproximadamente a uma morte a cada 2 dias.

Esse número é o recorde registrado pela associação, que contabiliza os crimes desde 2017. A tendência era de redução nas mortes, que foram 175 em 2017, 163 em 2018 e 124 em 2019. A Antra reforça, em todos os dossiês, que a subnotificação é um desafio enorme e a falta de dados oficiais dificulta a determinação exata do número de mortes. Em 2020, as 175 vítimas eram mulheres trans/travestis.

“Os dados não seguem um padrão e há muitos casos em que não existe respeito à identidade de gênero ou mesmo ao nome social das vítimas quando da veiculação dos casos na mídia. Isso faz aumentar ainda mais a dificuldade na busca desses dados, além de invisibilizar a motivação do caso e aumentar a subnotificação.”, afirma o relatório.

Sem acesso a dados oficiais consistentes, a Antra contabiliza as mortes a partir de reportagens e organizações LGBTQIA+. Além da falta de interesse e organização do Estado, o relatório ainda aponta que o receio de não ter um tratamento digno na hora de denunciar um agressor ou crime é mais um fator que contribui para a subnotificação.

Oportunidade e renda

A falta de oportunidades contribui para o nível de insegurança social de mulheres trans e travestis. Com avanços em direitos e representatividade no passado recente, o dossiê afirma que a comunidade trans voltou a ser alvo de “perseguição de setores conservadores do Estado às pautas pró-LGBTI e a campanha de ódio contra o que eles chamam de ‘ideologia de gênero’, que é um nítido ataque à existência das pessoas trans.”

O preconceito no mercado de trabalho e no mundo acadêmico empurra uma parcela significativa dessa população para as ruas. Segundo estimativa da Antra, cerca de 90% das transexuais vivem da prostituição. A maior reinvindicação das entrevistadas pela associação é por direito ao emprego e renda (87,3%), seguido de acesso em saúde, educação, segurança e moradia.

A pandemia, que teoricamente reduziria o número de crimes dessa natureza, impulsionou ainda mais a violência. As trabalhadoras sexuais continuaram na rua, mesmo com o movimento reduzido, enquanto as que puderam cumprir o isolamento ficaram reclusas muitas vezes com o próprio agressor.

“Temos um cenário onde os fatores sociais se intensificam e impactam a vida das pessoas trans, especialmente as travestis e mulheres transexuais trabalhadoras sexuais, que seguem exercendo seu trabalho nas ruas para ter garantida sua subsistência.”, argumenta o relatório.

“Nossas pesquisas estimam que cerca de 70% da população de travestis e mulheres transexuais não conseguiu acesso às políticas emergenciais do Estado, devido à precarização histórica de suas vidas, chegando a ter perda significativa em suas rendas”, informa.

Intolerância e brutalidade

A intolerância e o ódio em relação às pessoas trans é indicada pela brutalidade dos crimes: quase metade (47%) das mulheres trans e travestis foram mortas com golpes e/ou tiros em partes específicas do corpo como rosto/cabeça, seios e genital. Praticamente um quarto das vítimas foram espancadas, apedrejadas, asfixiadas e/ou estranguladas.

Em sua maioria, as vítimas eram jovens, negras, pobres e trabalhavam como prostitutas nas ruas. Nenhuma tinha mais de 60 anos. Em quase metade dos crimes, não há nenhuma informação sobre o suspeito. Apenas 38 suspeitos foram identificados (21%), dos quais a grande maioria é do sexo masculino. Além das vítimas fatais, a Antra contabilizou outras 77 tentativas de homicídio.

No Brasil e no mundo

A maior parte dos crimes foi reportada nas regiões Nordeste e Sudeste. Assim como em 2019, São Paulo segue na liderança dos assassinatos de pessoas trans, com 29 casos em 2020. O Ceará também se manteve na segunda posição, com 22 mortes. O único estado sem registros no ano foi o Amapá.

No mundo, o Brasil lidera mais um ranking nefasto. É o país que mais mata transexuais no mundo, segundo a ONG Transgender Europe (TGEU). Com metodologia similar a Antra, a TGEU monitora 71 países.

Antra

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais é uma rede nacional com 127 instituições que desenvolvem ações para promoção da cidadania da população de Travestis e Transexuais, fundada no ano de 2000, na Cidade de Porto Alegre.

Com informações de Antra e G1

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