De Olho no Mundo, por Ana Prestes

A demissão do ministro da Saúde na Argentina após a vacinação de pessoas fora dos grupos prioritários é o destaque da cientista política Ana Prestes nesta segunda-feira (22). A terceira vacina desenvolvida na Rússia, as eleições em Israel e na Catalunha, as manifestações em Mianmar, a morte do embaixador italiano na República Democrática do Congo, as manifestações em Barcelona, a reunião de líderes mundiais sobre mudanças climáticas, o segundo turno das eleições no Equador e a chegada do robô Perserverance à Marte são outros assuntos da nota internacional.

Alberto Fernández e Ginés González García | Foto: Marcos Brindicci / AP

O final de semana foi agitado na Argentina com a demissão do Ministro da Saúde, Ginés González García, na sexta (19), a pedido do presidente Alberto Fernández, após ter sido descoberto um esquema de desvio de vacinas contra Covid19. O jornal Página 12 trouxe as seguintes aspas de Fernández: “Ginés foi um grande ministro. E, além disso, o adoro. Mas o que ele fez é imperdoável. (…) Eu não tolero coisas assim. Não faço coisas assim. Dirijo meu próprio carro. Quando eu não era funcionário público e me ofereceram para ir à sala VIP sem fila, eu recusei. Como presidente não posso consentir que esses privilégios sejam concedidos”. Pessoas que não faziam parte dos grupos prioritários que estão sendo vacinados, profissionais de saúde e maiores de 70, e que têm relações próximas ao Ministro foram vacinadas. No sábado assumiu o ministério, como substituta, a médica Carla Vizzotti que já trabalhava na pasta na secretaria de acesso à Saúde. Ela foi uma das principais articuladoras para trazer a vacina russa Sputnik V para a Argentina. A imprensa argentina está chamando o caso de “Vacinação VIP”. As pessoas teriam sido vacinadas na própria sede do ministério.

Por falar em vacina russa, a Rússia acaba de registrar sua terceira vacina contra a Covid-19. Foi o anúncio do primeiro-ministro Mikhail Mishustin no sábado (20). Segundo ele, as doses da terceira vacina já estarão disponíveis em março, embora os testes de fase 3 ainda não tenham sido realizados. A notícia foi muito comemorada pelo governo russo, pois a Rússia é hoje o único país que possui três vacinas praticamente prontas. O nome da nova vacina será Kovivak. As outras duas são a Sputnik V e a EpiVacCorona. A diferença da última vacina anunciada é que ela usa a tecnologia tradicional do vírus inativado (partes do próprio vírus Sars-CoV-2 morto), enquanto as outras usam vetores de adenovírus (vetor viral não-replicante de adenovírus de chimpanzé com gene do Sars-CoV-2 inserido), mesma tecnologia da vacina da Oxford/AstraZeneca. A vacina russa Sputnik V, que a princípio foi vista com desconfiança pela comunidade internacional, melhorou sua imagem ao ser validada pela revista científica The Lancet e já está sendo aplicada na Argentina, na Bolívia e na Venezuela por aqui na América Latina.

Ainda no tema das vacinas russas, o precioso imunizante está se transformando em instrumento de ação geopolítica não somente na América Latina, mas em cenários mais complexos também. Foi muito comentado no final de semana o vazamento da informação sobre uma cláusula secreta de um acordo envolvendo a Rússia, a Síria e Israel para troca de prisioneiros. Segundo esta cláusula, como parte da troca para trazer de volta seus cidadãos que estão presos na Síria, Israel compraria milhares de doses da Sputnik V e doaria para a Síria.

E por falar em Israel, o país passará por nova eleição daqui justamente um mês, no dia 23 de março. Justamente em um momento em que Netanyahu é réu em três processos na justiça, o Tribunal Penal Internacional tem acolhido denúncias contra seu governo e ele ainda tem recebido forte pressão internacional por não estender seu programa de vacinação para a população palestina na Cisjordânia e Gaza. Esta já é a quarta eleição em apenas dois anos. Os prognósticos eleitorais não são nada animadores, dado que pode haver ainda maior recrudescimento da direita sionista comandada por Netanyahu e que alimenta os colonos fundamentalistas.

Em seu discurso anual no Conselho de Direitos Humanos da ONU, que realiza sua 46ª reunião, o Secretário Geral da organização, António Guterres, citou apenas um país: Mianmar. O país vive protestos intensos e muita repressão há semanas, já relatados aqui nestas Notas, desde que o exército do país deu um golpe e impediu a posse em 1º de fevereiro do governo liderado pela Sra. Aung San Suu Kyi (agora presa) reeleita em novembro do ano passado. Mesmo os militares dizendo que as pessoas que vão aos protestos se “arriscam a morrer”, as manifestações tem sido gigantescas. Guterres também citou uma outra chaga do país que é a limpeza étnica da população rohingya.

Um comboio das Nações Unidas foi atacado na República Democrática do Congo e matou o Embaixador da Itália no país, Lucca Attanasio. Foi um ataque a tiros em Goma, na face leste do país, próximo à fronteira com a Ruanda. O comboio fazia um monitoramento do Programa Mundial de Alimentos. Além do Embaixador, mais duas pessoas teriam morrido no ataque. A região é área de disputa por controle de riquezas naturais.

O final de semana foi também de intensas manifestações em Barcelona, capital da Catalunha, na Espanha, após a prisão, no decorrer da semana, do rapper Pablo Hasél. Nas ramblas (avenidas para trânsito de pedestres) barricadas foram formadas por manifestantes para se defenderem da polícia. O rapper foi preso e condenado a nove meses de prisão por tweets em que ataca a monarquia e a polícia. O governo espanhol está dividido sobre os protestos, de um lado o PSOE de Pedro Sánchez condena e do outro o Podemos de Pablo Iglésias apoia os manifestantes.

Foto: Getty Images

Por falar na Catalunha, a região passou por eleições no último dia 14 de fevereiro. Houve grande abstenção com mais de 50% da população não indo votar. No entanto, dos que foram votar, mais de 50% votou em uma pauta pró-independentista. O Partido Socialista foi o mais votado com 23% dos votos. Em seguida veio a Esquerda Republicana com 21,31% e o Juntos pela Catalunha (de Carles Puigdemont) com 20,04%. Uma surpresa foi o Vox ter alcançado 11 cadeiras no parlamento e a queda do Ciudadanos de 36 cadeiras para 6. O PP também foi mal com 3 cadeiras conquistadas. Apesar da votação do PSOE, as siglas separatistas devem formar governo, a ERC (esquerda republicana) junto com o JxCAT (juntos por Catalunha) e a CUP (unidade popular) somam 74 parlamentares de uma assembleia com 135 assentos. Esses partidos são os mesmos que patrocinaram o plebiscito separatista de 2017 que obteve 98% de votos pela independência da região. Para quem não conhece essa história, o governo não reconheceu o plebiscito e seus principais articuladores foram presos, o presidente regional de então, Puigdemont continua foragido em Bruxelas, na Bélgica.

Vai ocorrer amanhã (23) uma cúpula de líderes mundiais do Conselho de Segurança da ONU para tratar das “implicações da mudança climática para a paz mundial”. A reunião será por videoconferência e foi convocada por Boris Johnson, premiê do Reino Unido, que ocupa a presidência rotativa do Conselho. Estão previstos os discursos de John Kerry, responsável pelo tema no governo Biden, do presidente francês E. Macron, do ministro chinês das relações exteriores Wang Yi e dos primeiros ministros da Irlanda, Vietnam e Noruega, entre outros. A reunião debaterá os aspectos de segurança mundial frente à mudança climática. Há uma polêmica hoje instalada se o tema ambiental deveria ser foco de reuniões do Conselho de Segurança da ONU.

Finalmente o Conselho Nacional Eleitoral – CNE – do Equador anunciou ontem (21) o resultado oficial das eleições presidenciais de 7 de fevereiro, apontando que Andrés Arauz disputará o segundo turno em 11 de abril com Guilherme Lasso. Arauz teve 32,72% dos votos e Lasso 19,74% segundo o órgão eleitoral. Uma marcha indígena está se dirigindo à capital do país, Quito, para protestar contra o resultado que o candidato Yaku Pérez alega ser fraudulento.

Outra notícia muito comentada no final de semana foi a chegada do robô Perseverance à superfície de Marte. Trata-se de uma sonda produzida pela NASA e que viajou 480 milhões de quilômetros, ao longo de 8 meses e teve pouso bem sucedido, após ter entrado em Marte a uma velocidade de 20 mil km/h. Uma grande frustração se deu, no entanto, por conta da má qualidade das primeiras imagens enviadas pós-pouso. Mas logo a NASA conseguiu publicar imagens melhores. O objetivo da sonda é identificar sinais de vidas passadas no planeta, como vestígios químicos de vida nas rochas com restos de compostos orgânicos (carbono) ou comunidades microbianas fossilizadas (Infos: G1 Mundo).

Perseverance, o novo robô que a Nasa enviou a Marte | Foto: Nasa
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