OMS pede doação de vacina e critica acordos bilaterais para mais ricos

Entidade alerta contra nacionalismo na produção e distribuição de imunizantes e altera projeção para 2021

Jonathan Campos/AEN

A percepção da Organização Mundial da Saúde (OMS) que 2021 seria um ano de controle da pandemia de Covid-19 não é mais a mesma. A entidade alertou nesta segunda-feira (29) para a grande diferença na vacinação entre os países e convocou os mais ricos a doarem imunizantes.

Foram 32 milhões vacinas contra a Covid-19 distribuídas pela Covax Facility (Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19) no mundo, mas 36 países ainda não reberam uma única dose.

“A diferença entre o número de vacinas administradas nos países ricos e o número administrado pela Covax está crescendo a cada dia”, disse o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus em uma conferência mundial remota sobre imunização, promovida por Abu Dhabi. “A distribuição desigual de vacinas não é apenas um escândalo moral, é também economicamente destrutiva”, acrescentou.

A previsão do dispositivo Covax era de entregar cerca de 238 milhões de doses em todo o mundo até o final de maio, mas apenas 32 milhões foram enviadas até agora, de acordo com o site da iniciativa. Até agora, pouco mais de 1 milhão de doses chegou ao Brasil

“O Covax está pronto para entregar, mas não podemos entregar vacinas que não temos. Acordos bilaterais, proibições de exportação e nacionalismo de vacinas causaram distorções no mercado, com grandes desigualdades na oferta e demanda”, disse Tedros em entrevista coletiva na sexta-feira (29).

O Reino Unido, que já vacinou mais da metade da população adulta, planeja aplicar uma terceira dose da vacina contra covid-19 em idosos e profissionais da área de saúde. O país aplica a vacina da Pfizer/Biontech e da AstraZeneca, desenvolvido em parceria com a Universidade de Oxford.

A Astrazeca, inclusive, sofreu um ultimato da União Europeia após uma série de atrasos na entrega das doses acordadas. O bloco europeu afirmou que pode bloquear as exportações da empresa caso não respeite os termos do acordo firmado.

Assim como o chefe da OMS, Tedros Adhanom, a diretora-geral assistente da entidade, Mariângela Simões, afirma que o pensamento individualista dos países prejudica o avanço da vacinação pelo mundo.

“O que não está ajudando nesse momento é que vários países ricos fizeram acordos bilaterais grandes com indústria farmacêutica, muitas vezes comprando adiantado cinco, seis vezes o número de doses de que eles precisariam e esses países estão segurando essas doses”, aponta Mariângela. “Isso tudo faz parte desse cenário: não tem vacina para todo mundo”, completa.

A circulação do vírus permite que ele possa sofrer novas mutações e, segundo Mariângela Simões, não há vacinas suficientes para conter a doença ainda em 2021.

“Então, a expectativa era sempre que este ano a gente fizesse o possível para acabar com essa fase aguda, mas este vírus é imponderável. Todo vírus tem mutações, as variantes, e têm algumas mutações que têm impacto na transmissão. Ou seja, são transmitidas mais facilmente e eventualmente pode ter alguma variante que tenha impacto na eficácia da vacina”, afirmou em entrevista ao Valor.

O estoque baixo de vacinas, o desequilíbrio na distribuição e surgimento de novas variáveis alteraram a previsão de controle da disseminação do novo coronavírus ainda em 2021.

“Não se pode assentar a esperança na vacina para resolver todos os problemas, porque a vacina não vai resolver todos os problemas este ano”, alerta Mariângela Simões.

Nesse cenário, a OMS recomenda que as medidas de segurança sejam tomadas com base nas informações disponíveis e de maneira coordenada. Especificamente sobre o Brasil, Mariângela frisa a importância de respeitar as evidências científicas.

Acordo por vacinas

Na sexta-feira, os secretários estaduais de Saúde enderaçaram um ofício à OMS com o pedido de prioridade ao país, que é o líder mundial em óbitos por dia.

“A região das Américas tem recebido somente 7% do total das vacinas distribuídas por meio do mecanismo Covax, apesar das Américas terem 44% de todos os casos e 48% de todos os óbitos do mundo nesta pandemia”, afirma o documento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

O Brasil aderiu ao Covax Facility em outubro de 2020, com um acordo para receber cerca de 42 milhões de doses até o fim deste ano. Na ocasião, o ex-chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, não queria que o Brasil integrasse o consórcio global.

O alinhamento com a política externa dos EUA comandado por Donald Trump foi um empecilho para aderir ao acordo. Segundo o Estadão, havia a possibilidade de fechar acordo para receber doses para até 50% da população.

O Brasil também se alinhou aos EUA na suspensão de patentes de vacinas, medicamentos e insumos hospitalares para combater a Covid-19. A proposta da Índia e China tem apoio de cerca de 80 nações, mas o Brasil foi o único país em desenvolvimento que se posicionou contra a suspensão das patentes. A Organização Mundial do Comércio (OMC) ainda não chegou a um acordo. A União Europeia e outras nações desenvolvidas apoiam a manutenção das patentes.

Com informações Valor Econômico e Estadão

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