Thiago de Mello, 95 anos: o poeta como um rio

Para Ênio Silveira, Thiago de Mello “tem sempre o coração aberto, os ouvidos atentos”

O poeta amazonense Thiago de Mello completou 95 anos nesta terça-feira (30). Para celebrar a data, o Prosa, Poesia e Arte, seção cultural do Portal Vermelho, publica, a cada dia, poemas de sua autoria, entrevistas com o autor ou ensaios sobre sua obra. Em “Thiago, como um rio”, o editor e militante comunista Ênio Silveira (1925-1996), dono da editora Civilização Brasileira, enaltece o poeta.

THIAGO, COMO UM RIO

Por Ênio Silveira

Maiakovsky tinha plena consciência de sua natureza: “Comigo, a anatomia se vê louca: sou todo coração”. Thiago de Mello, igualmente lírico e dedicado a seu povo, define-se como um rio que flui, não um rio qualquer, mas o seu rio, o seu Amazonas – natural e simbólico –, que nasce nas geleiras eternas dos Andes, atravessa um continente e vai lançar no Atlântico a carga ciclópica de areia e húmus, de grandeza e miséria humana que recolheu ao longo de cem mil barrancos.

Onde quer que tenha andado, nas horas de alegria ou de sofrimento que tenha vivido, o poeta sempre se desejou “Ser capaz, como um rio/ que leva sozinho/ a canoa que se cansa,/ de servir de caminho/ para a esperança.// E de lavar do límpido/ a mágoa da mancha,/ como o rio que leva,/ e lava”.

“Como o rio decifra/ o segredo do chão”, o poeta tem sempre o coração aberto, os ouvidos atentos. Seu irmão em dificuldades jamais necessitou pedir-lhe ajuda, pois que ele, constante e deliberado como o rio intemporal, sabe “crescer para entregar/ na distância calada/ um poder de canção”.

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