Reações adversas ao uso de cloroquina dispararam 558% em 2020

Sistema da Anvisa registrou ao menos nove mortes pelo uso do medicamento que não é eficaz contra a Covid-19

(Brasília - DF, 16/09/2020) Presidente Jair Bolsonaro mostra uma caixa do remédio Hidroxicloroquina | Foto: Carolina Antunes/PR

Defendido por Bolsonaro como “tratamento precoce” contra o coronavírus, o uso do chamado “kit covid”, composto pelos medicamentos como a cloroquina e ivermectina, tem causado reações adversas graves na população brasileira. Segundo levantamento feito pelo jornal O Globo, ao menos nove mortes em decorrência do uso destes medicamentos foram notificadas, todas após março deste ano. 

No caso da cloroquina, medicamento recomendado por Bolsonaro até às emas que vivem no gramado do Palácio da Alvorada, o aumento nas notificações por efeitos adversos foi de 558%.

A pesquisa foi feita com base no Painel de Notificações de Farmacovigilância mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Em 2019, a cloroquina estava na sétima posição na lista dos medicamentos responsáveis por notificações de efeitos adversos. Em 2020, a cloroquina passou para a primeira posição. Do total de eventos adversos notificados, 96% se concentram no Amazonas, um dos estados que mais sofreram com a pandemia e onde o “tratamento precoce” chegou a ser recomendado até por aplicativo de celular, pelo então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Entre os principais efeitos adversos notificados estão: distúrbios dos sistemas nervoso, gastrointestinal, psiquiátrico e cardíaco.

O painel da Anvisa reproduz as notificações recebidas de todo o Brasil sobre efeitos adversos relativos ao uso de algum tipo de medicamento. Ele faz parte do VigiMed, um sistema informatizado de notificações implantado em dezembro de 2018 pela agência. Um efeito adverso é uma reação inesperada do paciente após receber uma medicação específica. 

Essas notificações podem ser feitas tanto por empresas, profissionais e serviço de saúde como pelos próprios pacientes. A plataforma mostra que houve um aumento geral no número de notificações de efeitos adversos entre 2019 e 2020. No período, a quantidade de notificações referentes a todos os medicamentos saiu de 8.587 em 2019 para 19.592 no ano seguinte, um crescimento de 128%. Apesar do crescimento dos dados gerais, o aumento relacionado a medicamentos como cloroquina e azitromicina é superior à média.

De acordo com o painel, as notificações por efeitos adversos associados ao uso da cloroquina saíram de 139 em 2019 para 916 em 2020, o que justifica a variação de 558%. 

A cloroquina vem sendo defendida por Bolsonaro no tratamento da Covid-19 apesar de estudos científicos comprovarem que ela não tem eficácia contra a doença. Em maio do ano passado, o Ministério da Saúde publicou uma orientação para uso de cloroquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos desde os sintomas iniciais da Covid-19. A diretriz foi amplamente criticada por especialistas da área.

Outros medicamentos que tiveram crescimento no número de notificações de efeitos adversos foram a hidroxicloroquina e o sulfato de hidroxicloroquina. De acordo com o painel, em 2019, nenhuma notificação havia sido registrada sobre o uso desses remédios. Em 2020, no entanto, foram registradas 168 notificações. 

Óbitos

Segundo o painel, foram registradas oito mortes como resultado do uso do medicamento. Entre os principais efeitos notificados estão: taquicardia, náuseas, vômito e tontura.

A azitromicina, que também faz parte do kit, também registrou aumento no número de efeitos adversos notificados. Em 2019, foram 25. Em 2020, o número saltou para 82, uma variação de 228%.

Outro integrante do “kit Covid” que teve aumento no número de notificações é a ivermectina.

Na última quarta-feira (31), a Organização Nacional da Saúde (OMS) recomendou que o remédio não seja usado no tratamento da Covid-19. Segundo o painel da Anvisa, em 2019, não houve nenhuma notificação relacionada ao medicamento.

Em 2020, foram 11. Recentemente, médicos alertaram que pelo menos quatro pacientes que fizeram uso indiscriminado de ivermectina foram encaminhados à fila do transplante de fígado.

Fonte: Hora do Povo

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