Eleição neste domingo no Peru não tem favoritos; conheça candidatos

Empatados em 1º lugar na pesquisa de opinião divulgada uma semana antes da votação, peruanos devem escolher entre cinco candidatos com propostas distintas

Candidatos à presidência do Peru (Da esq. para dir. : Yonhy Lescaro, Hernando de Soto, Verónika Mendoza, Keiko Fujimori, George Forsyth) | Fonte: Opera Mundi

Desde as últimas eleições presidenciais no Peru em 2016, quatro presidentes ocuparam o cargo em meio escândalos de corrupção e crises. Neste domingo (9), cerca de 25 milhões de peruanos voltam às urnas para eleger um dos 18 candidatos.

As campanhas chegaram oficialmente ao fim na quinta-feira (8) com sete candidatos com chances de avançar para o segundo turno, marcado para o dia 6 de junho. No domingo (4), uma semana antes da votação, a pesquisa de intenção de voto da Ipsos para o jornal El Comercio apontava para um empate técnico entre os cinco primeiros colocados e uma diferença de 4 pontos percentuais entre o 1° e o 7° colocado.  

Empatados na liderança de votos estavam os candidatos de centro-direita, Yonhy Lescano (10%), da esquerda Verónika Mendoza (9%) e da direita Hernando de Soto (9%). Um pouco atrás, mas ainda dentro da margem de erro de 2,5%, seguiam o ex-jogador de futebol George Forsyth (centro-direita) e Keiko Fujimori (populista direita) com 8%. O candidato da extrema-direita Rafael López Aliaga e o esquerdista Pedro Castillo completam a lista, ambos com 6% de intenção de voto.

Na pesquisa, cerca de um quarto dos entrevistados afirmaram que ainda não decidiram o voto. A pesquisa da Ipsos foi realizada com 1.526 eleitores no dia 31 de março, antes dos debates televisionado entre os candidatos.

Para conseguir o voto dos eleitores indecisos, os candidatos precisam superar uma grande desconfiança por parte da população em relação às instituições. Entre 21 instituições consultadas, inclusive partidos públicos, Congresso, Igreja católica e imprensa, apenas o Registro Nacional de Identificação foi avaliado como confiável. O órgão responsável pela emissão do documento de identificação foi o único com aprovação maior que 50% no levantamento “Percepção Cidadã de Governabilidade, Democracia e Confiança nas Instituições”, publicado em maio de 2020 pelo Instituto Nacional de Estatística e Informática (INEI) do Peru.

Na mesma pesquisa, os peruanos apontaram a corrupção como um grave problema do país (60,6%). A segurança pública ficou em segundo lugar nas preocupações da população, com 41,8%. É possível apontar mais de um problema no questionário.

Nesta última semana, outras pesquisas de intenção de voto foram divulgadas, mas com números de entrevistados menores e resultados distintos. No entanto, em todas elas os candidatos se mantiveram próximos. Segue um breve perfil com os cinco primeiros candidatos empatados na pesquisa da Ipsos.

Yonhy Lescano

Mesmo sem favoritos para o pleito de domingo, o advogado e ex-deputado Yonhy Lescano, 62 anos, lidera as pesquisas intenção de votos por uma vantagem ínfima. Lescano é candidato pelo partido Ação Popular, sigla fundada pelo ex-presidente Fernando Belaúnde Terry (1963-1968 e 1980-1985) e o partido mais tradicional na disputa. O presidente que durou menos de uma semana no cargo neste ano, Manuel Merino, também pertencia ao Ação Popular.

Como candidato de direita próximo ao centro, Lescano evita os rótulos de conservador ou progressista. A principal proposta é uma nova Constituição para substituir a atual do país, uma herança do período de ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000), condenado a 25 anos de prisão em 2015 por violações de direitos humanos.

“Essa Constituição [a atual no Peru] não tem servido para fazer todos crescerem e garantir que os peruanos vivam bem. É o caso do Chile, um governo de direita está criando uma nova Constituição por essas razões: porque as normas não serviram para alcançar a justiça social e também porque a Constituição foi feita durante a ditadura”, afirmou em entrevista à agência de notícias AFP.

A proposta também é defendida pelos candidatos do espectro de esquerda. Lescano, no entanto, defende uma economia social de mercado, a favor de privatizações com algum controle por parte do Estado. Em relação à pandemia, o candidato quer a participação de empresas privadas na distribuição das vacinas a um “preço justo”.

Verónika Mendoza

A candidata pelo Juntos por el Perú é a principal representante do espectro progressista nestas eleições e propõe ruptura com projetos de governos anteriores. Filha de mãe francesa, Verónika Mendoza tem 40 anos, formou-se em Psicologia na França e cursou mestrado em Ciências Sociais. Ao retornar para o país natal, Mendoza foi professora universitária e se associou ao Partido Nacionalista Peruano. Em 2011, foi eleita deputada e, no final do mandato, disputou as eleições presidenciais, terminando em terceiro lugar com 18,8%.

Após as eleições de 2016, Mendoza fundou a frente progressista Movimiento Nuevo Perú, que defende as bandeiras do feminismo, socialismo democrático, desenvolvimentismo, preservação do meio ambiente e oposição ao fujimorismo. A candidata é a única a defender o direito ao aborto em casos de estupro, um tema que gerou discussões nas campanhas eleitorais.

As principais diferenças em relação as siglas de esquerda do Brasil são o apoio à Operação Lava Jato, que também afetou o cenário político no Peru, e as críticas ao governo de Nicolás Maduro, da Venezuela. Apesar de considerar Maduro o presidente legítimo do país, Mendoza classificou o governo como ditadura durante um debate.

A proposta de Verónika é reverter os processos de privatizações e precarização das condições de trabalho que ocorrem no país há 30 anos. Assim como Lescano, a candidata pretende convocar uma nova Constituinte, mas defende um papel mais preponderante do Estado na economia. Para a pandemia, Mendoza quer que o Estado assuma a produção de oxigênio e a distribuição universal gratuita da vacina.

“Vamos lutar por uma pátria soberana, para que as nossas riquezas sirvam às famílias do Perú. Por isso, desde Cusco, desde a região de Camisea onde o gás é produzido, vamos recuperar a soberania”, afirmou Verónika em seu último comício.

Verónika Mendoza, candidata à presidência do Peru, ao lado das rondas camponesas em Cajamarca

Hernando de Soto

Representante do mercado e das elites financeiras, o economista e político de 79 anos pretende dar continuidade a projetos de governos passados e promete uma recuperação econômica rápida.

Em 2001, Hernando de Soto fundou o partido Capital Popular e cogitou a se candidatar, mas desistiu antes do lançamento oficial da campanha. Nestas eleições, ele se candidata pelo partido Avanza País.

Hernando de Soto possui experiência com desenvolvimento de políticas socioeconômicas e consultoria a governos, tanto no Peru quanto em países estrangeiros. Na trajetória acadêmica, de Soto fez cursos de graduação em Estudos Gerais no Peru e em Economia na Itália, com especialização em Direito Internacional na Suíça. O candidato é respeitado por instituições internacionais e chegou a ser considerado uma das 100 pessoas mais influentes no mundo pela revista Time em 2004.

As mesmas credenciais que favorecem o economista levantam suspeitas no eleitorado. Apesar de não ter participado diretamente de governos anteriores, de Soto prestou serviços para todos os governos desde Fujimori. A continuidade do processo de privatizações e proximidade com os Estados Unidos, onde foi vacinado, são pontos explorados por seus adversários.

As ligações de Soto podem atrapalhar ainda mais o desempenho do economista. De Soto afirmou que um de seus ministérios seria entregue para Miguel Vega Alvear, um nome ligado a esquemas de corrupção com participação da empresa brasileira Oderbrecht, que causou uma profunda desconfiança da população em relação às instituições peruanas.

Durante os debates, o candidato deslizou em alguns tópicos e pode ter perdido apoio. “Eu não vou dar as vacinas. Os setores privados, comunitários e as ONGs vão competir uns com os outros para providenciar as melhores vacinas, beneficiando o povo. Se for necessário, vamos dar subsídios, mas não vamos colocar o Estado, que não sabe organizar a sua vida comercial, para distribuir vacinas. Eu deixo isso para a economia social de mercado”, afirmou no debate da emissora Willax.

Hernando de Soto | Foto: Wikimedia Commons

Keiko Fujimori

Filha de Alberto Fujimori, Keiko Fujimori é uma liderança política conhecida no Peru. É a terceira eleição presidencial que ela se candidata, chegando ao segundo turno em 2011 e 2016. Keiko foi a congressista mais votada na história do país em 2006.

Com boa parte da formação acadêmica e atuação profissional nos Estados Unidos, Keiko retornou ao Peru e se dedicou à política após a condenação de seu pai por crimes contra os direitos humanos. Na campanha para o congresso, exaltou o legado de Alberto Fujimori e assegurou uma base política para fundar o partido Fuerza 2011, com o objetivo de se candidatar à presidência.

Em 2011, voltou a defender o governo de seu mentor, mas não conseguiu votos suficientes para superar Ollanta Humala no segundo turno. No ano seguinte, mudou o nome de partido para Fuerza Popular e começou a se distanciar da figura de Alberto Fujimori para lançar nova campanha. Novamente, perdeu no segundo turno, desta vez para Pedro Pablo Kuczynski.

Durante o governo de Kuczynski, manteve-se como forte oposição até ser investigada em esquema de corrupção envolvendo a Odebrecht. O ex-presidente da construtora brasileira Marcelo Odebrecht e o representante no Peru, Jorge Barata, admitiram para os promotores que haviam feito doações para a campanha de Fujimori em 2011 e 2016.

Keiko teve prisão preventiva decretada em 31 de outubro de 2018, acusada de interferir na investigação. Ela cumpria 15 meses em reclusão até o pedido de habeas corpus ser concedido pelo Tribunal Constitucional em dezembro de 2019. Em março deste ano, o Ministério Público peruano  apresentou uma denúncia formal com o pedido de sentença total de 30 anos e 10 meses de prisão contra a líder da Força Popular. Ela nega que tenha ocorrido qualquer delito em suas campanhas.

Em nova investida em busca da presidência, Keiko apela para eleitores nostálgicos do período de governo de Fujimori. Hernando de Soto fez sinalizações para esse eleitorado ao dizer que “a mão de ferro do pai dela está comigo”, mas Keiko respondeu que há apenas uma Fujimori nas eleições.

As propostas de Keiko se apoiam em um discurso populista, com ênfase na segurança pública, conservadorismo na agenda de costumes e projeto neoliberal para a economia. Com 45 anos de idade e mãe de duas filhas, Keiko promete salvar a população da fome e da morte decorrentes da pandemia de Covid-19.

“A tragédia sanitária e econômica me faz recordar os anos de terrorismo e crise econômica, é uma situação muito dramática. O fujimorismo já demonstrou (nos anos 90) que tem a capacidade para fazer com que o nosso país supere momentos tão difíceis”, afirmou Keiko em entrevista à agência internacional de notícias AFP.

Keiko Fujimori | Foto: Reprodução

George Forsyth

O candidato do partido Victoria Nacional foi jogador de futebol profissional e atuou como goleiro no clube peruano da capital, Alianza Lima. Ainda como jogador, foi eleito vereador do distrito de La Victoria em 2010. Após a aposentadoria, George Forsyth se dedicou exclusivamente à política e foi eleito prefeito de La Victoria em 2018, cargo que renunciou para lançar a candidatura à presidência.

A campanha se apoia em discurso de combate à corrupção e unidade nacional. A promessa de Forsyth é compor um governo com profissionais de perfil técnico e manter diálogo com demais partidos para alcançar “5 anos de tranquilidade” para o país.

O candidato aposta em pautas modernas para conseguir chegar ao segundo turno das eleições presidenciais. As principais propostas são na área de infraestrutura, com enfoque em sustentabilidade e conectividade. Assim como Mendoza, Forsyth defende vacinação universal e gratuita para toda a população peruana para combater a Covid-19.

George Forysth, 38 anos, nasceu em Caracas, capital venezuelana. Seu pai, Harold Forsyth, foi um diplomata e congressista peruano. Durante a juventude, cursou engenharia industrial e administração de empresas, mas desistiu da formação acadêmica para se dedicar ao futebol. Ao longo dos anos, George fundou empresas nos ramos de gastronomia, moda, segurança e bem-estar.

“Somos um partido novo e com a juventude traçamos o melhor plano de governo. Temos compromissos firmes com a população. Queremos lutar para mudar o país”, afirmou George Forsyth em seu último ato de campanha, feito por videochamada.

George Forsyth | Foto: Reprodução

O candidato que sair vencedor do pleito no domingo terá que recuperar a confiança da população e governar em um cenário político instável após denúncias de corrupção e processos de impeachment.

O primeiro passo será controlar a crise sanitária. O Peru é o país com maior taxa de letalidade na América Latina, com 1.619 mortos por Covid-19 a cada milhão de habitante. Nas últimas 24h foi registrado um novo recorde com 314 óbitos. Até o dia 7 de abril, o país havia vacinado apenas 1,83% da população. Desde o início da pandemia, o Peru acumula 1,6 milhões de casos de Covid-19 e 53 mil mortes.

Com informações de Washington Post e El País

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